DESEJO INESPERADO

813 Palavras
(Melissa) Eu deveria ter ido direto para casa. Era o que qualquer pessoa sensata faria depois de um encontro que não estava nos planos. Mas a verdade é que a sensatez nunca foi forte o suficiente quando algo saía do controle. E Miguel Duarte havia saído do controle no instante em que cruzou meu caminho. Caminhei pelas ruas de Mitte com passos calculados, tentando convencer a mim mesma de que tudo não passara de uma interação banal. Um café. Algumas palavras. Nada além disso. Ainda assim, cada detalhe insistia em se repetir na minha mente como um erro que não podia ser apagado. O tom da voz dele. O jeito como me observava, como se estivesse acostumado a ler pessoas e não gostasse de não conseguir. O toque breve, firme, quente demais para alguém que eu imaginava feito de gelo. Balancei a cabeça, irritada comigo mesma. Desejo não fazia parte do plano. Curiosidade, talvez. Estratégia, sim. Mas aquilo… aquilo era outra coisa. Entrei em um metrô quase vazio e me sentei perto da janela. O reflexo do vidro devolveu meu próprio olhar — olhos cor de mel mais atentos do que de costume, expressão tensa, lábios pressionados como se escondessem uma confissão silenciosa. — Controle — murmurei para mim mesma. Era isso que eu precisava recuperar. Minha mãe sempre disse que sentimentos m*l administrados eram armas nas mãos erradas. E, naquele momento, eu sentia que estava segurando algo perigoso demais para fingir que não existia. Ao chegar ao Porto de Spree, o ar parecia mais pesado. Mais honesto. Caminhei devagar até em casa, observando as fachadas antigas, os moradores conhecidos, o cotidiano simples que sempre me lembrava de quem eu era e de onde vinha. Minha mãe estava na cozinha quando entrei. — Voltou cedo — comentou, em tom neutro. — Mitte cansa — respondi, pendurando a bolsa. Ela me observou por cima da xícara de chá, como se buscasse algo além das palavras. — Cansa quando se observa demais — disse. Engoli em seco. Ela sempre enxergava mais do que eu gostaria. — Apenas caminhei — falei. — Caminhadas também levam a encontros — respondeu, com suavidade controlada. Não neguei. Não confirmei. Apenas sentei-me à mesa. — Minha mãe — comecei, tentando soar casual — você acredita que algumas pessoas entram na nossa vida para testar nossas convicções? Ela pousou a xícara com cuidado. — Acredito que algumas entram para revelar o que tentamos esconder de nós mesmos. O silêncio se instalou entre nós. Denso. Consciente. — Tenha cuidado — ela completou. — O sobrenome Duarte não carrega apenas poder. Carrega destruição. Meu peito apertou. — Eu sei — respondi. — Sempre soube. Mais tarde, sozinha no quarto, deitei-me na cama sem sequer trocar de roupa. O teto parecia distante enquanto minha mente insistia em voltar ao mesmo ponto. Miguel. Não o herdeiro. Não o inimigo. O homem. Era isso que me incomodava. Eu o tinha visto como pessoa antes de vê-lo como alvo. Antes de vê-lo como ponte até Romero. Isso invertia tudo. Tornava cada passo mais arriscado. Fechei os olhos, tentando afastar a imagem dele, mas foi inútil. A lembrança do olhar atento, da postura confiante, da maneira como ocupava o espaço sem pedir permissão retornava com força. Havia desejo ali. Cru. Inesperado. Inconveniente. E o mais perigoso: correspondido. Sentei-me na cama de repente, o coração acelerado. — Não — sussurrei. Não podia permitir que aquilo crescesse. O plano exigia frieza. Distância. Controle emocional absoluto. Levantei-me e fui até a janela. O rio refletia as luzes da cidade como fragmentos de algo quebrado. Apoiei as mãos no vidro frio, buscando ancoragem. — Ele é um Duarte — lembrei a mim mesma. — O filho do homem que destruiu nossa família. Mas a lembrança do toque contradizia essa lógica. O desejo não obedecia à razão. Nunca obedeceu. Peguei o celular e, por impulso, abri as redes sociais empresariais que eu vinha observando nos últimos dias. Não foi difícil encontrá-lo. Miguel Duarte estava em todos os lugares e, ao mesmo tempo, distante demais para parecer real. Fotos frias. Eventos formais. Reuniões. Nenhum sorriso verdadeiro. Nada ali combinava com o homem do café. — Quem é você de verdade? — perguntei ao silêncio. A resposta não veio. Mas a curiosidade cresceu. Eu sabia o que precisava fazer. Se quisesse manter o controle, precisava transformar aquele desejo em ferramenta. Aproximação planejada. Emoção contida. Nenhum passo em falso. Ainda assim, enquanto apagava a luz e me deitava novamente, tive que admitir algo que me assustou mais do que qualquer plano de vingança: Parte de mim queria vê-lo de novo. Não pelo plano. Mas pelo que ele despertava. Adormeci com essa verdade latejando no peito, consciente de que o desejo inesperado era apenas o começo do perigo real. E, no fundo, eu já sabia: quanto mais eu tentasse negar, mais fundo estaria entrando em território inimigo.
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