(Melissa)
Algumas coisas não precisam ser planejadas para acontecer.
Elas simplesmente se impõem, como se o mundo conspirasse em silêncio para empurrar duas pessoas na mesma direção — mesmo quando isso significa desastre.
Eu tentei evitar Mitte naquele dia.
Fiquei mais tempo em casa, ajudei minha mãe com tarefas simples, organizei papéis antigos que já conhecia de cor. Fiz tudo para manter a mente ocupada. Tudo, menos admitir que cada esforço era inútil.
Miguel Duarte continuava ali. Presente demais.
— Você está inquieta — minha mãe observou, enquanto dobrava roupas com precisão quase militar.
— Apenas cansada — respondi.
Ela ergueu os olhos, avaliando-me com cuidado.
— O cansaço costuma vir quando carregamos decisões grandes demais sozinhas.
Suspirei.
— Às vezes, evitar também é uma decisão — falei.
— Evitar por quanto tempo? — ela perguntou, com suavidade firme.
Não respondi.
Saí de casa no início da tarde, dizendo que precisava resolver algo simples no centro. Era meia verdade. Eu precisava andar. Pensar. Respirar longe do Porto de Spree.
Quando percebi onde estava, já era tarde demais.
Mitte.
As ruas pareciam diferentes naquele dia. Mais movimentadas. Mais alertas. Como se o bairro soubesse que algo estava prestes a acontecer. Caminhei sem rumo específico, tentando convencer a mim mesma de que não estava procurando nada.
Mentira.
Entrei em uma livraria pequena, escondida entre prédios modernos. O cheiro de papel e café antigo trouxe um conforto inesperado. Passei os dedos pelas lombadas, fingindo interesse nos títulos, enquanto minha mente permanecia em outro lugar.
— Também gosta de se perder entre livros?
A voz atrás de mim fez meu corpo reagir antes mesmo da mente processar.
Meu coração falhou uma batida.
Virei devagar.
Miguel.
Ele estava sem o terno daquela manhã no café. Usava uma camisa escura, mangas levemente dobradas, postura menos rígida. Ainda assim, a presença era a mesma. Dominante. Controlada.
— Parece que sim — respondi, tentando manter a voz estável. — E você?
— Às vezes — disse ele. — Ajuda a silenciar o mundo.
— Difícil imaginar que o seu mundo seja silencioso.
Um leve sorriso surgiu, rápido demais para ser estudado.
— Você se surpreenderia.
Fechei o livro que segurava e apoiei-o na estante.
— Coincidência? — perguntei.
— Gosto de pensar que sim — respondeu. — Mas você parece desconfiar de coincidências.
— Aprendi a desconfiar do que se repete rápido demais.
Ele inclinou a cabeça, observando-me com atenção renovada.
— Então devo considerar isso um aviso?
— Considere como quiser.
Caminhamos lado a lado pela livraria, mantendo uma distância confortável. Não havia pressa, nem tensão explícita. Era como se estivéssemos testando os limites invisíveis que nos separavam.
— Você some e aparece como se controlasse o tempo — ele comentou.
— E você aparece como se estivesse acostumado a ser encontrado — rebati.
— Talvez eu apenas esteja atento.
— Ou talvez esteja acostumado a querer.
Ele parou diante de uma prateleira e me encarou.
— E isso incomoda?
Engoli em seco.
— Depende do que se quer.
O silêncio que se seguiu foi denso. Carregado. O tipo de silêncio que diz mais do que qualquer diálogo bem ensaiado.
— Quer tomar um café? — ele perguntou, quebrando a tensão.
— Outro?
— Prometo escolher um lugar diferente — disse, com algo quase divertido no olhar.
Hesitei por segundos que pareceram minutos.
— Tudo bem — respondi, finalmente.
Caminhamos até um café discreto, mais afastado do centro financeiro. Sentamos frente a frente, a mesa pequena demais para a distância emocional que fingíamos manter.
— Você não me disse o que estuda — ele comentou.
— Relações internacionais — respondi. — E você já sabe demais sobre mim.
— Profissão deformação — disse. — Gosto de entender pessoas.
— Pessoas ou ambientes?
— Ambos. Pessoas são ambientes mais complexos.
Aquilo me arrancou um sorriso involuntário.
— E você? — perguntei. — Sempre foi assim?
— Assim como?
— Controlado.
Ele pensou antes de responder.
— Fui treinado para isso.
— Treinado? — repeti.
— Algumas famílias não dão escolhas — respondeu, com neutralidade calculada.
O comentário me atingiu mais do que deveria.
— Nem todas — murmurei.
Ele me observou com mais cuidado agora.
— Você fala como alguém que também carrega peso demais.
— Talvez — respondi. — Ou talvez eu apenas saiba quando alguém carrega mais do que aparenta.
O olhar dele se suavizou por um instante. Breve. Quase imperceptível.
— Este é nosso segundo encontro — ele disse. — Ainda acredita que é coincidência?
— Acredito que algumas coisas insistem quando não deveriam — respondi.
— E quando insistem, o que você faz?
Segurei a xícara com força.
— Avalio o risco.
— E o risco aqui é alto?
Nossos olhares se prenderam um ao outro. O mundo ao redor desapareceu.
— Muito — respondi, com honestidade.
Ele assentiu lentamente.
— Mesmo assim, você está aqui.
— Mesmo assim — confirmei.
Pagamos e saímos juntos. Do lado de fora, o ar estava frio. Paramos na calçada, sem saber exatamente como encerrar aquele momento.
— Melissa — ele disse, pela primeira vez com algo próximo de cautela. — Eu gostaria de vê-la de novo.
Meu coração acelerou.
— Por quê?
— Porque você não se parece com nada que eu conheça — respondeu. — E isso me incomoda.
Sorri, apesar de tudo.
— Incômodos costumam ser avisos.
— Ou convites — disse ele.
Hesitei. Depois, anotei meu número em um papel e entreguei a ele.
— Não prometa nada — falei.
Ele pegou o papel com cuidado.
— Não prometo — respondeu. — Mas vou ligar.
Afastei-me antes que pudesse reconsiderar. Caminhei sem olhar para trás, sentindo o peso da decisão se instalar dentro de mim.
O segundo encontro não foi acaso.
Foi confirmação.
E eu sabia, com uma clareza assustadora, que aquilo já tinha ultrapassado o limite do controle.
O choque de mundos não havia terminado.
Ele apenas começara.