TENSÃO, PROVOCAÇÃO, APROXIMAÇÃO

919 Palavras
(Melissa) O telefone tocou na manhã seguinte. Fiquei olhando para a tela por alguns segundos antes de atender, como se aquele pequeno gesto pudesse atrasar o inevitável. O nome não aparecia, apenas um número desconhecido. Ainda assim, eu sabia. Atendi. — Melissa — a voz dele veio firme, baixa, segura demais para ser confundida. — Espero não estar ligando cedo demais. — Não está — respondi, tentando manter a naturalidade que eu não sentia. — Ótimo. — Houve uma breve pausa. — Pensei em você. Meu coração bateu mais rápido. Odiei isso. — Isso não deveria ser uma surpresa — disse, em tom provocativo. — Você pediu meu número. Um leve riso soprou do outro lado da linha. — E você me deu. — Curiosidade não é permissão — respondi. — Talvez seja um convite — rebateu. Fechei os olhos por um segundo. — Para quê? — perguntei. — Para um jantar — disse ele. — Hoje. A ousadia não estava no convite, mas na certeza. Miguel Duarte não parecia alguém acostumado a ouvir não. — Hoje? — repeti. — Gosta de decisões rápidas. — Gosto de não perder tempo com o que me interessa. Silêncio. — E eu me interesso — completou. A frase deveria ter soado arrogante. Não soou. Soou honesta. Direta. Desarmante. — Onde? — perguntei, antes que a razão pudesse interferir. Ele me passou o endereço. Um restaurante discreto em Mitte, elegante sem ostentação. Desliguei sentindo o estômago apertar. Eu estava atravessando uma linha perigosa. Passei a tarde inquieta. Minha mãe percebeu. — Você parece distante — comentou, enquanto organizava alguns papéis antigos na sala. — Estou pensando — respondi. — Pensamentos raramente vêm sozinhos — disse ela. — Costumam trazer consequências. Engoli em seco. — Às vezes, precisamos nos aproximar para entender — falei. Ela me encarou com atenção redobrada. — Aproximar-se de quem? — perguntou. — De respostas — respondi, evitando o olhar. Ela suspirou, como quem sabe que insistir não mudaria nada. — Então seja cuidadosa — disse. — Algumas respostas custam caro. --- À noite, cheguei ao restaurante alguns minutos antes do combinado. Escolhi uma mesa afastada, de onde podia observar sem ser vista. O ambiente era iluminado por luz baixa, conversas em tom controlado, música suave demais para distrair. Miguel chegou pontualmente. Vestia um terno escuro, mas havia algo diferente nele. Menos armadura. Mais presença. Seus olhos me encontraram imediatamente, como se o resto do ambiente fosse irrelevante. — Você chegou cedo — disse, ao se aproximar. — Gosto de observar o terreno — respondi. Ele puxou a cadeira e sentou-se à minha frente. — Imagino — comentou. — Observação parece ser uma das suas especialidades. — E você parece gostar de ser observado — provoquei. Um meio sorriso surgiu. — Talvez por alguém específico. A tensão se instalou como um terceiro elemento à mesa. Fizemos o pedido. O silêncio entre nós não era constrangedor, mas carregado. Cada gesto era medido, cada olhar sustentado um pouco além do necessário. — Você costuma aceitar convites assim? — ele perguntou. — Costumo decidir no momento — respondi. — E você? — Não costumo insistir — disse. — Mas você… — Ele parou, avaliando as palavras. — Você provoca. — Não é minha intenção — menti. — É um talento, então. Inclinei a cabeça, fingindo indiferença. — Talvez você esteja projetando. — Talvez — concordou. — Ou talvez você saiba exatamente o que faz. A comida chegou, quebrando a tensão apenas o suficiente para que respirássemos. Conversamos sobre coisas banais — viagens, livros, música — mas por baixo da superfície havia algo mais profundo se formando. — Você nunca fala da sua família — observei, casualmente. O olhar dele se fechou por um segundo. — Algumas histórias não são para o jantar — respondeu. — Entendo — falei, com sinceridade. — E você? — ele perguntou. — Também guarda segredos? — Todos guardam — respondi. — A diferença está em quem merece conhecê-los. Ele me encarou por um momento longo demais. — E eu mereço? Meu coração acelerou. — Ainda não decidi. O jantar terminou com uma sensação estranha de proximidade contida. Do lado de fora, o ar frio nos envolveu. Paramos na calçada, perto demais. — Melissa — ele disse, a voz mais baixa agora. — Existe algo em você que me tira do eixo. — Isso deveria ser um aviso — respondi. — Ou uma oportunidade. Ele se aproximou um pouco mais. Não tocou. Não precisou. A tensão era quase física. — Se eu avançar — disse ele — você vai recuar? Engoli em seco. — Depende — respondi. — Do motivo. — Porque eu quero — disse. — Simples assim. Meu corpo reagiu antes da mente. Dei um passo à frente, reduzindo a distância. O cheiro dele, a presença firme, tudo conspirava contra o controle. — Cuidado, Miguel — murmurei. — Você não sabe onde está pisando. — Sei que estou perto demais para recuar — respondeu. Nossos rostos estavam a centímetros. O mundo parecia suspenso. Por um instante, achei que ele me beijaria. Quis que beijasse. Mas ele se afastou levemente. — Boa noite, Melissa — disse. — Ainda não é o momento. Fiquei parada, sentindo o coração martelar no peito enquanto ele se afastava. A aproximação tinha sido deliberada. A provocação, mútua. E a tensão… insuportável. Eu sabia: o que quer que estivesse nascendo entre nós não seria contido por lógica, planos ou sobrenomes. E, pela primeira vez, temi não a vingança, mas o desejo de continuar avançando.
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