O PRIMEIRO BEIJO

828 Palavras
(Melissa) Passei o dia inteiro tentando fingir que a noite anterior não tinha me abalado. Falhei miseravelmente. Cada vez que meus pensamentos desaceleravam, Miguel surgia nítido demais: a voz baixa, o controle calculado, a forma como se afastou no momento exato em que eu já não tinha certeza se conseguiria recuar. Aquilo não tinha sido recusa. Tinha sido domínio. E isso me perturbava mais do que deveria. — Você está estranhamente silenciosa hoje — comentou minha mãe, enquanto organizava a mesa do almoço. — Apenas concentrada — respondi. — Concentração não costuma vir acompanhada desse olhar — disse ela, com delicadeza firme. — Algo aconteceu. Suspirei. — Nada que importe — menti. Ela me observou por alguns segundos, depois assentiu, como quem escolhe respeitar um limite. — Então lembre-se de não atravessar fronteiras sem saber como voltar — disse. A frase ficou ecoando em mim o resto do dia. No fim da tarde, o telefone vibrou. Miguel. Meu coração respondeu antes da razão. Atendi. — Boa tarde, Melissa — disse ele. — Pensei se gostaria de caminhar um pouco. Sem cafés, sem restaurantes. Apenas ar frio e Berlim. — Isso soa perigosamente simples — respondi. — Às vezes, o simples revela mais — disse ele. Hesitei. Sabia que deveria recusar. Sabia que cada encontro me puxava para mais perto de algo que eu não poderia controlar depois. — Onde? — perguntei. Ele citou um trecho próximo ao rio, entre Mitte e uma área menos movimentada. Um espaço neutro. Ou pelo menos parecia. Quando cheguei, ele já estava lá. Sem terno. Casaco escuro, mãos nos bolsos, postura relaxada demais para alguém acostumado a comandar impérios. Ao me ver, seu olhar se fixou em mim com intensidade silenciosa. — Você veio — disse. — Fui curiosa — respondi. — Fico satisfeito — comentou. Começamos a caminhar lado a lado, mantendo uma distância confortável. O som da água, o vento frio, a cidade respirando ao redor. Por alguns minutos, nenhum de nós falou. — Você sempre mantém as pessoas a essa distância? — ele perguntou. — Qual distância? — questionei. — A que protege — respondeu. Parei de andar e o encarei. — E você? — perguntei. — Sempre se aproxima assim? Com calma demais? Ele parou também. — Só quando vale o risco. O silêncio que se formou entre nós era denso, quase palpável. — Miguel — comecei, sentindo o coração acelerar — isso não é prudente. — Concordo — disse ele. — Mas não é por isso que estamos aqui. Ele deu um passo à frente. Eu não recuei. — Você me provoca desde o primeiro olhar — continuou, a voz baixa. — E não é de forma inocente. — Talvez você veja o que quer ver — respondi, mesmo sabendo que não era verdade. — Talvez — concordou. — Ou talvez você também sinta. O ar entre nós parecia carregado. Meu corpo inteiro estava alerta, consciente de cada centímetro que nos separava. — Se isso acontecer — murmurei — não haverá como fingir depois. — Eu não finjo — respondeu. — Nunca fingi. O olhar dele desceu rapidamente até meus lábios e voltou aos meus olhos. Foi um gesto pequeno, mas decisivo. Meu controle se desfez ali. — Então não finja agora — sussurrei. Ele não respondeu. Apenas encurtou a distância. O beijo não foi abrupto. Foi lento, contido, como se ambos estivessem pedindo permissão em silêncio. Os lábios dele tocaram os meus com cuidado inicial, testando, esperando uma reação. Eu correspondi. O mundo pareceu se reorganizar ao redor daquele gesto simples e devastador. O toque dele era firme, quente, seguro — o oposto do gelo que eu imaginava. Senti a mão dele subir até meu rosto, o polegar tocando minha pele com delicadeza surpreendente. Quando o beijo se aprofundou, não houve urgência. Houve reconhecimento. Como se algo que estava suspenso finalmente encontrasse o chão. Afastei-me primeiro, ofegante. — Isso foi um erro — falei. Ele apoiou a testa na minha. — Foi inevitável — respondeu. — Você não sabe o que isso significa — sussurrei. — Sei que não quero recuar — disse ele. — E você? Fechei os olhos por um segundo. — Eu deveria — respondi. — Mas não quero. Ele sorriu de leve, um sorriso verdadeiro, raro. — Então estamos em perigo — comentou. — Muito — confirmei. Caminhamos de volta em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Antes de nos despedirmos, ele segurou minha mão por um instante a mais do que o necessário. — Boa noite, Melissa. — Boa noite, Miguel. Enquanto voltava para casa, o beijo ainda queimava em meus lábios como uma marca invisível. Eu sabia, com clareza assustadora, que aquele tinha sido o ponto sem retorno. O primeiro beijo não foi apenas um gesto de desejo. Foi a quebra definitiva de todas as defesas. E, no fundo, eu temia menos o inimigo que Miguel representava… do que a verdade de que eu já não queria mais fugir.
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