(Melissa)
O beijo não ficou para trás quando nos despedimos.
Ele veio comigo, grudado à pele, preso à memória, pulsando nos lábios como se tivesse sido gravado ali. Caminhei até em casa sentindo o peso de algo que não sabia nomear direito, não era apenas desejo, nem apenas medo. Era culpa. Uma culpa densa, silenciosa, que se instalou no peito como se sempre tivesse estado ali, apenas esperando o momento certo para despertar.
Quando atravessei a porta do apartamento, o cheiro familiar me atingiu. Café recém-passado, madeira antiga, segurança. Um contraste c***l com o turbilhão que eu carregava por dentro.
Fechei a porta devagar, como se qualquer ruído pudesse denunciar o que eu tinha feito.
Apoiei a testa na madeira fria por alguns segundos, respirando fundo. O coração ainda estava acelerado, traindo tudo o que eu tentava negar.
— Controle-se — murmurei para mim mesma.
Mas o corpo não obedecia tão facilmente quanto a mente.
Tirei o casaco, larguei a bolsa sobre a cadeira e caminhei até o quarto quase no automático. Cada passo parecia ecoar mais alto do que deveria. Troquei de roupa sem prestar atenção, sentindo os dedos trêmulos enquanto desabotoava a blusa.
Quando finalmente me sentei na cama, o silêncio se tornou ensurdecedor.
Foi ali que a culpa se materializou de verdade.
Meu pai surgiu na minha mente sem ser convidado. O rosto sério, o sorriso raro, a forma como me colocava nos ombros quando eu era criança. A lembrança veio acompanhada da imagem que eu mais odiava: o caixão, as flores, o choro contido da minha mãe.
Thomas Montez estava morto por causa do homem que me beijou.
Ou, pelo menos, por causa do sobrenome que ele carregava.
Fechei os olhos com força.
— Como eu pude? — sussurrei.
Levantei-me de repente, incapaz de permanecer parada. Caminhei pelo quarto, depois pela sala, como um animal inquieto. Cada canto daquela casa carregava a história que eu estava traindo.
Abri a gaveta onde guardava a caixa que raramente tocava. Dentro, estavam os documentos, as reportagens antigas, as anotações que minha mãe nunca teve coragem de jogar fora. Provas de um passado que nunca nos permitiu esquecer.
Peguei uma das folhas e li novamente o nome que me acompanhava desde a adolescência.
Romero La Rosa Duarte.
O responsável. O intocável. O homem que nunca pagou.
— Isso era para ser vingança — falei em voz baixa.
— Não romance.
Sentei-me no chão, apoiando as costas no sofá, os papéis espalhados ao meu redor como testemunhas mudas da minha falha. O plano era claro desde o início: aproximar-me, envolver Miguel, atingir Romero onde mais doeria.
Mas o beijo tinha bagunçado tudo.
Porque não foi estratégico.
Não foi calculado.
Foi verdadeiro.
E isso me apavorava mais do que qualquer risco.
O barulho suave de passos me fez erguer o olhar. Minha mãe surgiu no corredor, observando a cena com atenção contida. Os papéis no chão, minha expressão tensa, o silêncio pesado.
Ela não perguntou nada de imediato.
Apenas se aproximou e sentou-se no sofá, mantendo a postura ereta, como sempre fazia quando o assunto era sério.
— Vejo que algo aconteceu — disse, com a voz baixa e controlada.
Engoli em seco.
— Aconteceu — respondi.
Ela cruzou as mãos sobre o colo.
— Algo que envolve o sobrenome que evitamos mencionar à mesa? — perguntou.
Assenti lentamente.
Ela fechou os olhos por um breve instante, respirou fundo e voltou a me encarar.
— Sente-se — pediu.
Obedeci, sentando-me à sua frente. Como quando eu era criança e tinha feito algo errado.
— Fale — disse ela.
— Eu encontrei Miguel — comecei, sentindo a garganta apertar.
— Mais uma vez.
Ela não reagiu. Apenas ouviu.
— Nós… — parei por um segundo.
— Nós nos beijamos.
O silêncio que se seguiu foi profundo.
Minha mãe não demonstrou choque. Não houve grito, nem reprovação imediata. Apenas uma tensão contida, como se ela estivesse reorganizando algo dentro de si.
— Entendo — disse por fim.
— Não sei se entende — falei, com a voz falhando.
— Eu sei quem ele é. Sei o que a família dele fez. E mesmo assim… — balancei a cabeça.
— Eu quis.
Ela se levantou e foi até a janela, ficando de costas para mim por alguns segundos.
— O coração não costuma respeitar guerras antigas — disse.
— Mas isso não diminui as consequências.
— Eu me sinto culpada — confessei.
— Como se tivesse traído tudo. O senhor… — corrigi rapidamente.
— Meu pai.
Ela se virou devagar.
— Seu pai amava você — disse com firmeza.
— E não gostaria que sua vida fosse apenas uma extensão da morte dele.
As palavras me atingiram em cheio.
— Mas e a justiça? — perguntei.
— E a verdade?
— Justiça não se constrói com auto aniquilação — respondeu.
— Nem com cegueira emocional.
Suspirei, passando a mão pelo rosto.
— Eu não sei se consigo parar — admiti.
Ela se aproximou e tocou meu ombro com delicadeza.
— Então seja honesta consigo mesma — disse.
— E esteja preparada para pagar o preço de qualquer escolha.
Depois disso, ela recolheu alguns papéis do chão e voltou a guardá-los na caixa, com o cuidado de quem manuseia algo frágil.
— Não deixe que a culpa a consuma antes mesmo da batalha começar — concluiu, antes de sair.
Fiquei sozinha novamente.
O celular vibrou sobre a mesa.
Meu coração reagiu antes que eu pudesse impedir.
Miguel.
Olhei para a tela, hesitando. Parte de mim queria ignorar. Outra parte precisava ouvir dele algo que nem sabia o quê.
Atendi.
— Boa noite — a voz dele veio baixa, controlada, mas diferente. Mais próxima.
— Boa noite — respondi.
— Eu não queria deixá-la inquieta — disse.
— Mas achei que o silêncio seria pior.
Sorri sem humor.
— Você está certo.
Houve uma pausa.
— Está arrependida? — ele perguntou.
Fechei os olhos.
— Estou… confusa — respondi com honestidade.
— Eu também — admitiu.
— E isso não acontece com frequência.
Aquela confissão me atingiu mais do que qualquer declaração.
— Miguel, isso não é simples — falei.
— Há coisas que você não sabe.
— Então me diga — respondeu.
— Quando estiver pronta.
Respirei fundo.
— Não hoje.
— Eu espero — disse ele, sem hesitar.
Depois que desligamos, coloquei o celular de lado e me deitei, encarando o teto escuro do quarto.
A culpa ainda estava ali.
Mas agora dividia espaço com algo ainda mais perigoso: esperança.
Eu sabia que aquele beijo tinha mudado tudo. Não apenas entre nós, mas dentro de mim. O plano de vingança já não era mais tão claro. O inimigo tinha rosto, voz, toque.
E o amor, esse erro imperdoável, começava a se infiltrar onde só deveria haver ódio.
Naquela noite, dormi m*l.
E entendi, com uma clareza c***l, que a culpa não era um aviso para parar.
Era apenas o sinal de que eu já tinha ido longe demais.