MIGUEL PERDE O CONTROLE

1121 Palavras
(Miguel) Perder o controle nunca fez parte de quem eu sou. Controle é o que me mantém de pé desde sempre. É o que me permite sentar em salas onde homens poderosos tremem sem demonstrar. É o que me faz atravessar países, assinar contratos milionários, comandar empresas e pessoas sem jamais levantar a voz. Controle é o que me separa do caos que rege o sobrenome Duarte. Ou pelo menos era. Desde Melissa, algo em mim começou a falhar. Voltei para o apartamento em Mitte naquela noite com os punhos cerrados e a mente em guerra. O beijo ainda estava vivo na minha boca, quente demais, real demais para ser ignorado. Não foi um erro impulsivo. Foi uma decisão. E isso tornava tudo infinitamente mais perigoso. Fechei a porta com força maior do que o necessário. O som ecoou pelo espaço amplo e silencioso. Tirei o casaco, jogando-o sobre o sofá, e caminhei até o bar sem pensar. Servi-me de uísque, um dedo apenas, mas a mão tremia levemente quando levei o copo aos lábios. Aquilo nunca acontecia. — Controle-se — murmurei para mim mesmo. O líquido queimou a garganta, mas não apagou a imagem dela. Os olhos cor de mel me encarando sem medo, a boca firme, a postura desafiadora. Melissa não recuava. Não se escondia. Ela me enfrentava de igual para igual, mesmo sem saber exatamente quem eu era por completo. E talvez fosse isso que tivesse me desarmado. Encostei o copo na bancada com força e passei a mão pelo rosto. O reflexo no vidro devolveu um homem que eu m*l reconhecia: maxilar tenso, olhar escuro, expressão carregada de algo que eu evitava nomear. Desejo. Mas não apenas isso. Havia algo mais perigoso ali. Algo que não cabia em noites casuais nem em regras bem definidas. Algo que não podia existir no meu mundo. Peguei o celular. O nome dela estava ali, recente demais, presente demais. Pensei em ligar. Pensei em escrever. Pensei em apagar o contato. Não fiz nada. O controle ainda lutava para sobreviver. A batida seca na porta quebrou o silêncio. Eu já sabia quem era antes mesmo de abrir. — Está tarde — disse minha mãe ao entrar, sem pedir permissão. Ela percorreu o apartamento com o olhar crítico de sempre, avaliando tudo, como se buscasse sinais de fraqueza. Parou quando viu o copo de uísque quase cheio. — Bebendo sozinho? — perguntou, arqueando a sobrancelha. — Isso é novo. — Não é da sua conta — respondi. Ela sorriu de lado, um sorriso frio. — Tudo que diz respeito a você é da minha conta — retrucou. — Principalmente quando começa a cometer erros. Erros. A palavra me atingiu como um aviso. — Seja direta — falei. Ela se aproximou, os saltos ecoando no chão de mármore. — Há rumores — disse. — Você tem sido visto com frequência fora do circuito habitual. E com companhia. Meu maxilar se contraiu. — Não misture sua curiosidade com autoridade — respondi. — Ainda sei cuidar da minha vida. Ela me encarou por alguns segundos, avaliando cada reação. — Você nunca deixou a vida pessoal interferir nos negócios — disse. — Até agora. — Não está interferindo — menti. Ela se aproximou mais, diminuindo a distância. — Não subestime o Conselho das Sombras — advertiu. — Eles observam tudo. E não toleram distrações. — Eu não sou uma distração — rebati. — Sou parte do comando. — Metade — corrigiu. — E ainda sob vigilância. Senti algo estalar dentro de mim. — Cuidado — falei em tom baixo. — Ou vai ultrapassar limites. Ela sorriu, satisfeita por ter provocado reação. — Lembre-se de quem você é — disse. — E do sangue que corre nas suas veias. Ela saiu sem se despedir, deixando o peso das palavras no ar. Sangue. Foi essa palavra que me fez perder o controle de vez. Peguei o celular e disquei antes que a razão pudesse intervir. O telefone chamou duas vezes. — Miguel? — a voz dela soou surpresa. — Precisava ouvir você — falei, direto demais. Houve um breve silêncio do outro lado. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou. — Aconteceu comigo — respondi. — Desde ontem. Fechei os olhos. — O beijo não saiu da minha cabeça — continuei. — E isso não é aceitável para alguém como eu. — Então por que ligou? — ela questionou, com calma. — Porque estou tentando entender — falei. — E falhando. Ela respirou fundo. — Miguel, nós cruzamos uma linha — disse — E não sabemos o que existe do outro lado. — Eu sei — respondi. — Existe você. As palavras saíram antes que eu pudesse contê-las. — Isso não é justo — ela murmurou. — Eu sei — repeti. — Mas é verdadeiro. Houve silêncio novamente. — Você está perdendo o controle — ela disse, com precisão assustadora. Sorri de leve, sem humor. — Já perdi. Desligamos sem promessas, sem despedidas longas. Apenas com a certeza de que algo tinha sido acionado e não havia botão de desligar. Fui até o quarto, tirei a camisa e me joguei na cama, encarando o teto escuro. O coração batia mais rápido do que deveria. Minha mente calculava riscos, consequências, cenários. Melissa Montez era um risco. E, ainda assim, eu a queria. Isso me enfurecia comigo mesmo. Passei anos evitando qualquer vínculo que pudesse ser usado contra mim. Mulheres entravam e saíam da minha vida sem deixar marcas. Tudo era claro, objetivo, controlado. Ela não. Ela entrou sem pedir licença e desmontou estruturas que eu julgava inabaláveis. Fechei os olhos, mas o sono não veio. Vieram lembranças: o toque dela, a forma como não recuou, como me desafiou sem perceber. Como me fez esquecer, por alguns segundos, quem eu precisava ser. E isso era imperdoável. O nome Montez surgiu na minha mente como um sussurro distante, algo que eu ouvira em conversas antigas, em reuniões fechadas, em arquivos que nunca analisei a fundo. Uma sensação incômoda se instalou no meu peito. Levantei-me de repente. — Não — falei para o vazio. — Não agora. Fui até o escritório e liguei o computador. A tela iluminou o ambiente escuro. Digitei o nome dela, completo, pela primeira vez com intenção real de investigar. Melissa Montez. O cursor piscava, esperando. Minha mão hesitou sobre o mouse. Se eu avançasse, não haveria volta. Verdades viriam à tona. Conexões seriam feitas. E o pouco controle que ainda me restava poderia se despedaçar de vez. Respirei fundo. E cliquei. Naquele momento, entendi que perder o controle não era apenas desejar alguém proibido. Era estar disposto a enfrentar tudo o que viesse depois. E, pela primeira vez na vida, eu não tinha certeza se queria me salvar disso.
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