MELISSA ENTRA NO CÍRCULO DUARTE

1142 Palavras
(Melissa) O dia amanheceu pesado, como se Berlim soubesse que algo estava prestes a mudar. A ligação de Miguel da noite anterior ainda ecoava dentro de mim. Não pelo que foi dito, mas pelo tom cru, direto, sem o verniz do homem que controla tudo. Ele tinha perdido o controle. E, de alguma forma, eu estava no centro disso. Levantei-me cedo, tentando organizar pensamentos que insistiam em se misturar: meu pai, o plano, o beijo, o sobrenome Duarte. Olhei meu reflexo no espelho e vi uma mulher que já não era apenas filha de uma história de dor. Havia algo novo ali. Perigoso. Minha mãe estava na cozinha quando cheguei. — Você não dormiu — constatou, sem me olhar. — Você também não — respondi. Ela suspirou, pousando a xícara. — Quando você sai assim, com esse silêncio, eu sei que algo está fora do lugar — disse. — E eu temo que seja perto demais do fogo. Sentei-me à mesa, escolhendo as palavras com cuidado. — Às vezes, para entender o incêndio, é preciso chegar perto — falei. Ela me encarou por um longo instante. — Só não se esqueça de quem você é — disse, por fim. — E de onde veio. Assenti. Eu sabia. Sempre soube. O carro enviado por Miguel me aguardava do lado de fora. Motorista discreto, janelas escurecidas, destino não anunciado. Ao entrar, senti o primeiro peso real da decisão que estava tomando. Entrar no mundo dos Duarte não era mais metáfora. Era literal. Durante o trajeto até Mitte, observei a cidade mudar. Porto de Spree ficava para trás, com suas ruas marcadas por histórias não contadas. Mitte surgia limpa demais, precisa demais, como se nada ali fosse deixado ao acaso. O prédio era ainda mais imponente à luz do dia. Vidro, aço, linhas perfeitas. Poder materializado. Miguel me esperava no saguão. — Você veio — disse, como se ainda existisse a possibilidade de eu não vir. — Eu disse que viria — respondi. Ele me observou com atenção, como se buscasse algo além do óbvio. — Não será um dia simples — avisou. — Depois de hoje, nada será exatamente como antes. — Nunca é — retruquei. Entramos juntos. A reação das pessoas foi imediata. Não era apenas respeito. Era atenção. Eu sentia os olhares avaliando, calculando, tentando entender quem eu era e por que estava ali. Miguel caminhava ao meu lado com a postura de sempre, mas algo nele estava diferente. Mais tenso. Mais alerta. Como se estivesse consciente de cada respiração minha. — Hoje você não é apenas minha convidada — disse enquanto aguardávamos o elevador. — Você será apresentada. — A quem? — perguntei. — Ao círculo — respondeu. — Alguns membros do Conselho, diretores estratégicos, aliados antigos. Meu estômago se contraiu. O elevador subiu em silêncio. Quando as portas se abriram, fui recebida por um andar inteiro preparado para reuniões importantes. Homens e mulheres bem vestidos, conversas baixas, expressões calculadas. Era ali que decisões eram tomadas. Onde vidas eram movidas como peças. — Miguel — uma voz masculina chamou. Um homem mais velho se aproximou, olhar afiado, postura confiante demais para ser apenas um executivo. — Este é Herr Vogel — explicou Miguel. — Um dos conselheiros. — Então esta é a jovem que despertou tanta curiosidade — disse ele, apertando minha mão. — Seja bem-vinda. — Obrigada — respondi, mantendo a voz firme. Curiosidade. A palavra me acompanhou enquanto outros cumprimentos se sucediam. Cada aperto de mão era um teste. Cada olhar, uma tentativa de leitura. Em determinado momento, Klara surgiu. Elegante, impecável, fria como sempre. Seu olhar percorreu o ambiente antes de pousar em mim, calculado demais para ser casual. — Vejo que decidiu trazer sua companhia para o coração do império — disse a Miguel. — Decidi — respondeu ele, sem hesitar. Ela voltou-se para mim. — Espero que saiba onde está pisando — comentou. — Sei que nada aqui é acidental — respondi. Um brilho rápido surgiu nos olhos dela. Não aprovação. Interesse. Fomos conduzidos a uma sala menor, onde a reunião começaria. Sentei-me ao lado de Miguel. A proximidade dele me deixava consciente de cada detalhe: o perfume discreto, a tensão nos ombros, o silêncio concentrado. A reunião começou com números, projeções, estratégias. Eu ouvia, absorvia, conectava pontos. Não era um mundo estranho para mim. Poder tem padrões. Sempre teve. Em certo momento, um debate se acalorou sobre uma expansão que me pareceu precipitada. Miguel percebeu meu incômodo antes que eu dissesse qualquer coisa. — Melissa? — chamou. — Sua opinião? Todos os olhares se voltaram para mim. Respirei fundo. — A expansão proposta é rápida demais — disse com calma. — Ela chama atenção excessiva e cria vulnerabilidades. Às vezes, o crescimento mais perigoso é aquele que parece inevitável. Houve silêncio. Miguel sustentou meu olhar por um segundo que pareceu durar mais do que deveria. — Concordo — disse ele. — Vamos rever os termos. Alguns pareceram contrariados. Outros, atentos. Klara observava em silêncio. Quando a reunião terminou, senti o peso real do que tinha acabado de acontecer. Eu não era mais invisível ali. Miguel me conduziu até uma área mais reservada. — Você se saiu melhor do que muitos que estão aqui há anos — disse. — Não subestime quem aprende observando — respondi. Ele sorriu de leve. — Eles não vão esquecer você — comentou. — Nem eu. — Isso deveria me tranquilizar? — perguntei. — Não — respondeu. — Deveria te preparar. A palavra círculo fazia mais sentido agora. Não era apenas proximidade. Era aprisionamento elegante. — Por que me trouxe, Miguel? — questionei, finalmente. — De verdade. Ele me encarou, sério. — Porque confio em você — disse. — E porque preciso saber até onde posso ir. — E se eu for longe demais? — perguntei. — Então estaremos no mesmo abismo — respondeu. O telefone dele vibrou. Uma mensagem curta, expressão dele endurecendo ao ler. — O Conselho vai querer saber mais sobre você — avisou. — Isso era inevitável. — E você vai permitir? — questionei. — Já permiti — disse. — Ao te trazer aqui. Engoli em seco. Ao deixar o prédio, o céu parecia mais baixo, mais fechado. Eu havia cruzado um limite invisível. Entrar no círculo Duarte não era apenas estar próxima de Miguel. Era estar no radar de pessoas capazes de destruir tudo o que tocavam. Enquanto o carro se afastava, tive a certeza mais clara desde que tudo começou: o plano de vingança estava se transformando em algo que eu já não controlava. E o perigo maior não era ser descoberta. Era perceber que, mesmo sabendo disso, eu continuava avançando. Porque, em algum lugar entre o ódio herdado e o desejo inesperado, eu já não era apenas uma inimiga infiltrada. Eu fazia parte do jogo. E o jogo dos Duarte nunca termina sem sangue.
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