(Melissa)
O silêncio do quarto era denso, quebrado apenas pela respiração de Miguel ao meu lado.
A luz fraca que entrava pelas cortinas deixava o ambiente suspenso em tons de cinza, como se o mundo tivesse decidido pausar ali. Eu estava deitada de costas, o lençol cobrindo parte do meu corpo, tentando organizar pensamentos que se atropelavam desde o momento em que entrei naquele apartamento pela segunda vez.
Nada daquilo fazia parte do plano original.
O corpo de Miguel estava próximo, quente, sólido demais para ser ignorado. O braço dele repousava ao meu redor com uma naturalidade que me desconcertava. Não havia pressa, não havia urgência. Apenas a certeza silenciosa de que algo havia mudado irreversivelmente.
— Você está acordada — disse ele, sem abrir os olhos.
— Estou — respondi.
Ele virou o rosto na minha direção. O olhar estava atento, escuro, diferente do homem que comandava reuniões com frieza absoluta. Ali, entre lençóis, Miguel parecia perigosamente humano.
— Se arrepende? — perguntou.
A pergunta atravessou minhas defesas.
— Do quê exatamente? — retruquei.
— De estar aqui. Comigo — completou.
Respirei fundo.
— Não — disse com honestidade.
— Mas isso não significa que seja simples.
Ele apoiou o cotovelo na cama, me observando.
— Nada em mim é simples — falou.
— E você parece ter percebido isso cedo demais.
Virei-me de lado, ficando de frente para ele.
— O problema não é você — respondi.
— É tudo o que vem junto.
Ele sorriu de leve.
— Sempre vem — comentou.
O silêncio se instalou novamente. Eu podia sentir o peso das mentiras que eu carregava, mesmo sem dizê-las em voz alta. Cada toque, cada olhar, parecia acontecer sobre um campo minado.
Miguel quebrou o silêncio.
— Hoje você mudou a dinâmica de uma reunião inteira — disse. — Não é comum alguém de fora influenciar decisões daquele nível.
— Não sou exatamente de fora — falei, escolhendo as palavras com cuidado.
— Ainda não — respondeu.
— Mas está se aproximando rápido demais.
Ele estendeu a mão e tocou meu rosto com suavidade. O gesto era contraditório com tudo o que eu sabia sobre ele. Não havia posse. Havia curiosidade.
— Por que você, Melissa? — perguntou.
— Por que entrou na minha vida agora?
Meu coração acelerou. A pergunta tinha camadas demais.
— Talvez porque algumas coisas não escolham o momento certo — respondi.
— Isso soa como alguém que foge da resposta — observou.
— Ou como alguém que sabe que certas verdades não cabem numa madrugada — retruquei.
Ele me encarou por alguns segundos, avaliando.
— Você guarda segredos — disse.
— Eu sinto.
— Todos guardam — respondi.
— Alguns são mais perigosos que outros — completou.
O ar entre nós ficou pesado.
Miguel se aproximou, o corpo pressionando o meu de forma lenta, consciente. Não havia urgência no gesto. Era provocação contida.
— Diga-me uma verdade — pediu, a voz baixa.
— Apenas uma.
Meu corpo reagiu antes da mente. Meu coração batia rápido demais.
— Eu penso em você mais do que deveria — disse.
Ele sorriu de canto.
— Isso eu já sabia.
— Então agora é sua vez — falei.
— Quer uma verdade ou uma confissão? — perguntou.
— A diferença? — questionei.
— A confissão tem consequências — respondeu.
— Então confesse.
Ele se inclinou, os lábios próximos ao meu ouvido.
— Eu deveria mantê-la longe — sussurrou.
— Mas não consigo.
Arrepios percorreram minha pele.
O beijo veio sem aviso, profundo, lento, carregado de algo que não era apenas desejo. Minhas mãos se enroscaram nos ombros dele, sentindo a tensão contida sob a pele.
Quando nos afastamos, o mundo parecia menor.
— Isso não é saudável — murmurei.
— Nunca prometi saúde — respondeu.
Ele deslizou a mão pelas minhas costas, traçando caminhos que me faziam esquecer, por segundos preciosos, quem eu era e por que estava ali.
Mas a culpa estava sempre presente. Silenciosa. Observando.
— Miguel — chamei, interrompendo o momento.
— O que foi? — perguntou.
— Se isso continuar… — comecei.
— Vai ficar mais difícil parar — completou.
— Vai — confirmei.
Ele me observou com atenção, como se buscasse rachaduras.
— Você tem medo de mim? — perguntou.
— Tenho medo de mim com você — respondi.
O olhar dele suavizou.
— Eu também — admitiu.
Ficamos em silêncio novamente. Eu sabia que aquela i********e era construída sobre omissões. Cada carícia era acompanhada de uma mentira não dita.
Em algum momento, adormeci.
Acordei com a luz da manhã atravessando as cortinas. Miguel ainda dormia, o rosto relaxado, distante da máscara de poder. Observei-o por alguns segundos, memorizando traços, como se aquilo fosse necessário.
Levantei-me devagar, cobrindo-me com o lençol, e caminhei até a janela. Berlim despertava lá fora, indiferente ao caos que crescia dentro de mim.
Meu celular vibrou.
Uma mensagem da minha mãe:
“Volte para casa hoje. Precisamos conversar.”
O aperto no peito foi imediato.
Voltei para a cama e sentei ao lado de Miguel. Ele despertou lentamente, os olhos se abrindo com preguiça.
— Você está diferente — comentou.
— Talvez porque esteja — respondi.
Ele estendeu a mão, tocando a minha.
— Fique — pediu.
O pedido simples carregava peso demais.
— Não posso — disse.
— Por quê? — perguntou.
Porque meu pai morreu por causa do sobrenome que você carrega.
Porque estou aqui para destruir o seu mundo.
Porque cada minuto ao seu lado me afasta da verdade.
Mas nada disso saiu.
— Porque algumas mentiras precisam de distância para não virarem verdades — respondi.
Ele franziu o cenho.
— Isso não faz sentido — disse.
— Faz — retruquei.
— Só não agora.
Ele se levantou também, ficando de frente para mim.
— Eu não gosto de jogos — afirmou.
— Nem eu — respondi.
Vestimo-nos em silêncio. Antes de sair, ele segurou meu braço.
— Seja honesta comigo quando for o momento — pediu.
— Eu mereço isso.
O olhar dele era sério, vulnerável de um jeito que me doeu.
— Você merece mais do que eu posso dar — respondi.
Saí antes que pudesse voltar atrás.
No corredor, meu coração parecia prestes a sair do peito. Eu havia cruzado mais uma linha. Dormir com Miguel não foi apenas uma entrega física.
Foi a construção de um segredo.
E segredos, eu sabia, sempre cobram juros.
Enquanto o elevador descia, a verdade se impunha com clareza c***l:
entre lençóis e mentiras, eu estava me perdendo.
E quanto mais me perdia, mais difícil seria machucá-lo depois.
Mas o plano seguia vivo.
Mesmo que o preço fosse alto demais para o meu próprio coração.