SEGREDOS ENTRE LENÇOIS E MENTIRAS

1112 Palavras
(Melissa) O silêncio do quarto era denso, quebrado apenas pela respiração de Miguel ao meu lado. A luz fraca que entrava pelas cortinas deixava o ambiente suspenso em tons de cinza, como se o mundo tivesse decidido pausar ali. Eu estava deitada de costas, o lençol cobrindo parte do meu corpo, tentando organizar pensamentos que se atropelavam desde o momento em que entrei naquele apartamento pela segunda vez. Nada daquilo fazia parte do plano original. O corpo de Miguel estava próximo, quente, sólido demais para ser ignorado. O braço dele repousava ao meu redor com uma naturalidade que me desconcertava. Não havia pressa, não havia urgência. Apenas a certeza silenciosa de que algo havia mudado irreversivelmente. — Você está acordada — disse ele, sem abrir os olhos. — Estou — respondi. Ele virou o rosto na minha direção. O olhar estava atento, escuro, diferente do homem que comandava reuniões com frieza absoluta. Ali, entre lençóis, Miguel parecia perigosamente humano. — Se arrepende? — perguntou. A pergunta atravessou minhas defesas. — Do quê exatamente? — retruquei. — De estar aqui. Comigo — completou. Respirei fundo. — Não — disse com honestidade. — Mas isso não significa que seja simples. Ele apoiou o cotovelo na cama, me observando. — Nada em mim é simples — falou. — E você parece ter percebido isso cedo demais. Virei-me de lado, ficando de frente para ele. — O problema não é você — respondi. — É tudo o que vem junto. Ele sorriu de leve. — Sempre vem — comentou. O silêncio se instalou novamente. Eu podia sentir o peso das mentiras que eu carregava, mesmo sem dizê-las em voz alta. Cada toque, cada olhar, parecia acontecer sobre um campo minado. Miguel quebrou o silêncio. — Hoje você mudou a dinâmica de uma reunião inteira — disse. — Não é comum alguém de fora influenciar decisões daquele nível. — Não sou exatamente de fora — falei, escolhendo as palavras com cuidado. — Ainda não — respondeu. — Mas está se aproximando rápido demais. Ele estendeu a mão e tocou meu rosto com suavidade. O gesto era contraditório com tudo o que eu sabia sobre ele. Não havia posse. Havia curiosidade. — Por que você, Melissa? — perguntou. — Por que entrou na minha vida agora? Meu coração acelerou. A pergunta tinha camadas demais. — Talvez porque algumas coisas não escolham o momento certo — respondi. — Isso soa como alguém que foge da resposta — observou. — Ou como alguém que sabe que certas verdades não cabem numa madrugada — retruquei. Ele me encarou por alguns segundos, avaliando. — Você guarda segredos — disse. — Eu sinto. — Todos guardam — respondi. — Alguns são mais perigosos que outros — completou. O ar entre nós ficou pesado. Miguel se aproximou, o corpo pressionando o meu de forma lenta, consciente. Não havia urgência no gesto. Era provocação contida. — Diga-me uma verdade — pediu, a voz baixa. — Apenas uma. Meu corpo reagiu antes da mente. Meu coração batia rápido demais. — Eu penso em você mais do que deveria — disse. Ele sorriu de canto. — Isso eu já sabia. — Então agora é sua vez — falei. — Quer uma verdade ou uma confissão? — perguntou. — A diferença? — questionei. — A confissão tem consequências — respondeu. — Então confesse. Ele se inclinou, os lábios próximos ao meu ouvido. — Eu deveria mantê-la longe — sussurrou. — Mas não consigo. Arrepios percorreram minha pele. O beijo veio sem aviso, profundo, lento, carregado de algo que não era apenas desejo. Minhas mãos se enroscaram nos ombros dele, sentindo a tensão contida sob a pele. Quando nos afastamos, o mundo parecia menor. — Isso não é saudável — murmurei. — Nunca prometi saúde — respondeu. Ele deslizou a mão pelas minhas costas, traçando caminhos que me faziam esquecer, por segundos preciosos, quem eu era e por que estava ali. Mas a culpa estava sempre presente. Silenciosa. Observando. — Miguel — chamei, interrompendo o momento. — O que foi? — perguntou. — Se isso continuar… — comecei. — Vai ficar mais difícil parar — completou. — Vai — confirmei. Ele me observou com atenção, como se buscasse rachaduras. — Você tem medo de mim? — perguntou. — Tenho medo de mim com você — respondi. O olhar dele suavizou. — Eu também — admitiu. Ficamos em silêncio novamente. Eu sabia que aquela i********e era construída sobre omissões. Cada carícia era acompanhada de uma mentira não dita. Em algum momento, adormeci. Acordei com a luz da manhã atravessando as cortinas. Miguel ainda dormia, o rosto relaxado, distante da máscara de poder. Observei-o por alguns segundos, memorizando traços, como se aquilo fosse necessário. Levantei-me devagar, cobrindo-me com o lençol, e caminhei até a janela. Berlim despertava lá fora, indiferente ao caos que crescia dentro de mim. Meu celular vibrou. Uma mensagem da minha mãe: “Volte para casa hoje. Precisamos conversar.” O aperto no peito foi imediato. Voltei para a cama e sentei ao lado de Miguel. Ele despertou lentamente, os olhos se abrindo com preguiça. — Você está diferente — comentou. — Talvez porque esteja — respondi. Ele estendeu a mão, tocando a minha. — Fique — pediu. O pedido simples carregava peso demais. — Não posso — disse. — Por quê? — perguntou. Porque meu pai morreu por causa do sobrenome que você carrega. Porque estou aqui para destruir o seu mundo. Porque cada minuto ao seu lado me afasta da verdade. Mas nada disso saiu. — Porque algumas mentiras precisam de distância para não virarem verdades — respondi. Ele franziu o cenho. — Isso não faz sentido — disse. — Faz — retruquei. — Só não agora. Ele se levantou também, ficando de frente para mim. — Eu não gosto de jogos — afirmou. — Nem eu — respondi. Vestimo-nos em silêncio. Antes de sair, ele segurou meu braço. — Seja honesta comigo quando for o momento — pediu. — Eu mereço isso. O olhar dele era sério, vulnerável de um jeito que me doeu. — Você merece mais do que eu posso dar — respondi. Saí antes que pudesse voltar atrás. No corredor, meu coração parecia prestes a sair do peito. Eu havia cruzado mais uma linha. Dormir com Miguel não foi apenas uma entrega física. Foi a construção de um segredo. E segredos, eu sabia, sempre cobram juros. Enquanto o elevador descia, a verdade se impunha com clareza c***l: entre lençóis e mentiras, eu estava me perdendo. E quanto mais me perdia, mais difícil seria machucá-lo depois. Mas o plano seguia vivo. Mesmo que o preço fosse alto demais para o meu próprio coração.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR