MIGUEL DUARTE: O CEO DE GELO

824 Palavras
(Miguel) Não existe espaço para falhas quando se nasce dentro do poder. Essa foi a primeira lição que aprendi. A segunda veio logo depois: sentimentos são falhas disfarçadas. Acordo antes do despertador. Sempre. O hábito não é virtude; é sobrevivência. O quarto está mergulhado em tons frios, linhas retas, ausência de excessos. Tudo foi escolhido para não distrair. Para não provocar conforto demais. Levanto-me, tomo um banho rápido e visto o terno como quem veste uma armadura. O espelho devolve a imagem que o mundo espera ver: postura impecável, expressão neutra, olhos atentos. Não há espaço para cansaço. Nem para dúvida. Desço para o café da manhã. Minha mãe já está sentada à mesa, lendo algo no tablet. Ela ergue os olhos quando me aproximo. — Sua agenda está cheia hoje! informa. — Frankfurt, Milão e uma videoconferência com o conselho à noite. — Já revisei. respondo, servindo café. — Seu pai quer os relatórios antes do jantar. acrescenta. — Ele terá. Ela me observa por alguns segundos, avaliando não o que digo, mas como digo. — Você parece distante. comenta. — Estou focado. Ela aceita a resposta. Sempre aceita. Não porque se convença, mas porque entende que insistir não funciona comigo. No carro, reviso contratos, números, projeções. Empresas são organismos vivos. Crescem, adoecem, morrem. Cabe a mim mantê-las funcionando. Não por idealismo, mas por responsabilidade. O império não aceita pausas. No aeroporto, tudo funciona como previsto. Nenhum atraso. Nenhuma surpresa. Gosto disso. Previsibilidade é controle. Controle é segurança. Durante a reunião em Frankfurt, encaro investidores que tentam medir minha idade contra minha autoridade. Não falo muito. Não preciso. Cada palavra é calculada. Cada silêncio, estratégico. No fim, eles concordam. Sempre concordam. — É impressionante: diz um deles, apertando minha mão. — Sua frieza nas decisões. — Não é frieza. respondo. — É clareza. Ele ri, como se eu tivesse feito uma piada. Em Milão, a dinâmica se repete. Assino contratos, fecho acordos, confirmo expansões. Tudo funciona. Tudo cresce. O mundo responde ao poder da mesma forma em qualquer idioma. No avião de volta, observo as nuvens pela janela. Não sinto nada em especial. Nem orgulho, nem satisfação. Apenas o cumprimento do dever. Lembro-me vagamente de quando isso começou a parecer normal. Eu devia ter uns treze anos quando meu pai me levou a uma reunião que não era para crianças. Não havia violência explícita. Apenas decisões. Homens adultos discutindo destinos alheios como se fossem números. — Preste atenção: ele me disse. — Quem hesita, perde. Eu prestei. Desde então, nunca hesitei. À noite, de volta a Berlim, sigo direto para a sede principal. A videoconferência com o conselho começa pontualmente. Rostos surgem na tela. Todos atentos. Todos conscientes de que aquele espaço não tolera erros. — Os relatórios estão satisfatórios. digo. — Mas há pontos que precisam de ajuste imediato. Aponto falhas, exijo mudanças, estabeleço prazos. Não levanto a voz. Não preciso. A autoridade não está no tom, mas na certeza. Quando a reunião termina, fico sozinho na sala escura. As luzes da cidade piscam do lado de fora. Mitte continua funcionando, indiferente ao cansaço humano. Fecho os olhos por um instante. E é então que algo estranho acontece. Uma imagem surge, sem convite. Ruas menos limpas. Prédios antigos. Um bairro que não deveria ocupar espaço na minha mente. Porto de Spree. Abro os olhos imediatamente, irritado comigo mesmo. Não faz sentido. Não há ligação direta. Apenas um nome citado por minha mãe, um comentário do meu pai. Nada além disso. Ainda assim, a sensação permanece. — Distração. murmuro. Levanto-me e pego o casaco. Decidi ir embora a pé. Às vezes, caminhar ajuda a organizar pensamentos. As ruas de Mitte estão tranquilas, iluminadas e seguras. Tudo sob controle. Passo por cafés, vitrines, escritórios ainda acesos. Pessoas seguem suas rotinas sem imaginar o que sustenta essa tranquilidade. É melhor assim. O poder funciona melhor quando não é questionado. Cruzo uma praça pequena e paro por um momento. O vento frio atinge o rosto. Respiro fundo. Tento lembrar se já senti algo parecido antes. Curiosidade. Não gosto disso. Curiosidade leva a perguntas. Perguntas levam a desvios. E desvios custam caro. Continuo andando até chegar ao prédio onde moro. Segurança reforçada, como sempre. Subo até o apartamento e entro em silêncio. O espaço é amplo demais para uma pessoa só. Funcional. Impessoal. Tiro o casaco, afrouxo a gravata e sirvo um copo de uísque. Não bebo para esquecer. Bebo para manter o controle. O líquido queima levemente a garganta, trazendo uma sensação familiar. Sento-me no sofá e encaro a cidade pela janela. Sou chamado de CEO de gelo. Já ouvi isso mais de uma vez. Alguns dizem com admiração. Outros com medo. Nunca com pena. E é assim que deve ser. O gelo não quebra fácil. Mas, naquela noite, enquanto observava Berlim pulsar lá embaixo, percebo algo incômodo. O gelo não sente. E talvez, pela primeira vez em muitos anos, eu esteja sentindo a ausência disso.
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