(Miguel)
Mitte nunca dorme de verdade.
Ela apenas diminui o ritmo, como um predador que fecha os olhos, mas mantém os sentidos atentos. Aprendi cedo a reconhecer esse silêncio falso. É nele que as decisões mais importantes são tomadas.
Observo a cidade do alto, através das paredes de vidro do escritório. O céu de Berlim está pesado, cinza, como quase sempre. A vista daqui não mostra o caos — mostra controle. Prédios alinhados, ruas limpas, carros seguindo regras invisíveis. Ordem. Poder gosta de ordem.
E eu fui criado para comandar.
— Os números de Zurique fecharam acima do esperado: diz um dos diretores, sentado à mesa longa de madeira escura.
— A aquisição foi mais eficiente do que prevíamos.
— Eficiência não é surpresa. respondo, sem tirar os olhos da tela à minha frente.
— Planejamento é.
Alguns assentem. Outros apenas anotam. Nenhum questiona. Não porque tenham medo de mim, mas porque aprenderam que eu não falo sem razão. Meu pai sempre disse que a autoridade mais perigosa é aquela que não precisa ser imposta.
Romero lá rosa Duarte nunca levantou a voz para ser obedecido.
— E Singapura? pergunto.
— Em andamento. As negociações finais devem ser concluídas até o fim da semana.
Fecho o relatório e apoio as mãos sobre a mesa.
— Então não há nada a discutir: digo.
— Apenas executar.
A reunião se encerra poucos minutos depois. Todos se levantam com a mesma formalidade com que se sentaram. Quando a porta se fecha, o silêncio retorna. Um silêncio que não me incomoda. Ele sempre foi meu aliado.
Caminho até a janela novamente. Mitte se estende aos meus pés como um tabuleiro perfeitamente organizado. Aqui estão as sedes financeiras, os escritórios jurídicos, os centros de decisão. Aqui está o cérebro do império Duarte.
Mas não é aqui que ele nasceu.
O poder real não começa em prédios espelhados. Começa em lugares onde ninguém olha duas vezes. Meu pai construiu tudo isso com sangue e estratégia. Transformou medo em respeito. Violência em influência. Hoje, o mundo chama isso de conglomerado empresarial.
Eu chamo de herança.
— Meu filho. A voz da minha mãe soa atrás de mim, precisa como sempre.
Não me viro imediatamente. Sei que ela não gosta disso, mas também sabe que não é desrespeito. É apenas quem eu sou.
— Entre! digo.
Ela caminha até o centro da sala. Usa um tailleur impecável, claro demais para um dia nublado. Minha mãe não se veste para agradar. Ela se veste para dominar o ambiente.
— Seu pai pediu para falar com você: Ela fala cruzando as mãos à frente do corpo.
— Ainda hoje.
— Ele sempre pede. respondo.
— Nem sempre é urgente.
Ela me encara, avaliando.
— Desta vez é.
Finalmente me viro. Nossos olhares se cruzam. O dela é afiado, experiente. O meu, treinado para não revelar nada.
— Algo específico? pergunto.
— Movimento em Porto de Spree: ela responde.
— Pessoas observando demais.
Meu maxilar se contrai levemente.
— Observadores existem em todos os lugares.
— Nem todos sobrevivem. ela diz.
— Seu pai não gosta de incógnitas.
— Nem eu.
Ela se aproxima da janela, ficando ao meu lado.
— Mitte precisa continuar intocável. ela afirma.
— A imagem é parte do poder.
— A imagem só funciona quando o controle é real. respondo.
— Se alguém está observando, significa que algo chamou atenção.
— Ou alguém. ela corrige.
Fico em silêncio por alguns segundos.
— Já estamos investigando: digo.
— Nada relevante até agora.
— Ainda. ela repete, da mesma forma que sempre faz quando quer plantar uma dúvida.
Minha mãe se afasta e caminha até a porta.
— Jante conosco hoje : diz.
— Seu pai quer você presente.
— Estarei lá.
Ela assente e sai. Fico novamente sozinho.
Porto de Spree.
O nome surge na minha mente como um ponto distante no mapa. Um bairro que não costuma cruzar o caminho de Mitte. Dois mundos que coexistem em Berlim sem realmente se tocar. Quando se tocam, algo costuma dar errado.
Pego o casaco e deixo o escritório. No elevador, observo meu reflexo no espelho. Terno escuro. Postura reta. Olhar contido. A imagem que esperam de mim.
O herdeiro.
Ser filho de Romero lá Rosa Duarte nunca foi uma escolha. Foi uma sentença. Desde pequeno, entendi que sentimentos são negociáveis. Que laços existem enquanto servem a um propósito maior. Amor, naquele mundo, é fraqueza.
Ainda assim, às vezes me pergunto quem eu seria sem o sobrenome.
O carro segue pelas ruas de Mitte com fluidez. O motorista não fala. Não precisa. Chegamos à residência principal da família Duarte pouco depois do anoitecer. Segurança reforçada. Portões silenciosos. Tudo funciona como deve.
Meu pai está sentado à cabeceira da mesa quando entro na sala de jantar. A presença dele domina o ambiente sem esforço. Não há necessidade de p************s. O respeito vem antes.
— Miguel. ele diz, simples.
— Pai.
Sento-me à direita dele. Minha mãe ocupa o lugar oposto. O jantar começa com formalidades e silêncios estratégicos. Sempre foi assim.
— Há movimentações que não me agradam. diz meu pai, enquanto corta a carne com precisão.
— O controle depende de antecipação.
— Estamos monitorando: respondo.
— Nada indica ameaça direta.
Ele ergue os olhos lentamente.
— Ameaças raramente se anunciam.
— Concordo.
Minha mãe observa em silêncio, avaliando cada palavra.
— Porto de Spree. ele continua.
— É um lugar onde o ressentimento cria raízes.
Seguro o olhar dele.
— Ressentimento não constrói impérios.
— Mas pode destruí-los: ele rebate.
O jantar segue com mais algumas observações estratégicas. Nenhuma emoção. Nenhuma lembrança. Tudo é funcional. Quando terminamos, meu pai se levanta primeiro.
— Confio em você. ele diz, colocando a mão pesada sobre meu ombro por um segundo.
— Não me decepcione.
— Não vou.
Essa frase me acompanha desde a adolescência.
No caminho de volta, peço ao motorista que dê uma volta maior. Quero ver a cidade. Mesmo que ela nunca me veja de verdade. Passamos por limites invisíveis até que percebo a mudança no ambiente. Prédios mais antigos. Luzes menos cuidadas. Porto de Spree.
Observo pela janela, curioso apesar de mim mesmo. Aqui, o poder é diferente. Menos escondido. Mais cru. As pessoas carregam a vida no rosto. Não há tempo para fingimentos.
Algo nesse lugar me incomoda.
Talvez porque ele lembre que existem mundos fora do controle de Mitte.
O carro segue adiante, e logo o bairro fica para trás. Quando voltamos às ruas limpas e ordenadas, sinto o alívio estranho de quem retorna ao próprio território.
Mas a inquietação permanece.
Deito-me tarde naquela noite. O silêncio do quarto é absoluto. Fecho os olhos, tentando desligar a mente. Não penso em ameaças. Nem em negócios.
Penso em movimento.
O império Duarte está sempre em movimento. Crescendo, se adaptando, eliminando riscos. Eu sou parte disso. Fui moldado para isso.
Ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, tenho a sensação de que algo se move fora do meu campo de visão.
E isso é o que mais me incomoda.