MITTE: O IMPÉRIO DUARTE EM MOVIMENTO

1174 Palavras
(Miguel) Mitte nunca dorme de verdade. Ela apenas diminui o ritmo, como um predador que fecha os olhos, mas mantém os sentidos atentos. Aprendi cedo a reconhecer esse silêncio falso. É nele que as decisões mais importantes são tomadas. Observo a cidade do alto, através das paredes de vidro do escritório. O céu de Berlim está pesado, cinza, como quase sempre. A vista daqui não mostra o caos — mostra controle. Prédios alinhados, ruas limpas, carros seguindo regras invisíveis. Ordem. Poder gosta de ordem. E eu fui criado para comandar. — Os números de Zurique fecharam acima do esperado: diz um dos diretores, sentado à mesa longa de madeira escura. — A aquisição foi mais eficiente do que prevíamos. — Eficiência não é surpresa. respondo, sem tirar os olhos da tela à minha frente. — Planejamento é. Alguns assentem. Outros apenas anotam. Nenhum questiona. Não porque tenham medo de mim, mas porque aprenderam que eu não falo sem razão. Meu pai sempre disse que a autoridade mais perigosa é aquela que não precisa ser imposta. Romero lá rosa Duarte nunca levantou a voz para ser obedecido. — E Singapura? pergunto. — Em andamento. As negociações finais devem ser concluídas até o fim da semana. Fecho o relatório e apoio as mãos sobre a mesa. — Então não há nada a discutir: digo. — Apenas executar. A reunião se encerra poucos minutos depois. Todos se levantam com a mesma formalidade com que se sentaram. Quando a porta se fecha, o silêncio retorna. Um silêncio que não me incomoda. Ele sempre foi meu aliado. Caminho até a janela novamente. Mitte se estende aos meus pés como um tabuleiro perfeitamente organizado. Aqui estão as sedes financeiras, os escritórios jurídicos, os centros de decisão. Aqui está o cérebro do império Duarte. Mas não é aqui que ele nasceu. O poder real não começa em prédios espelhados. Começa em lugares onde ninguém olha duas vezes. Meu pai construiu tudo isso com sangue e estratégia. Transformou medo em respeito. Violência em influência. Hoje, o mundo chama isso de conglomerado empresarial. Eu chamo de herança. — Meu filho. A voz da minha mãe soa atrás de mim, precisa como sempre. Não me viro imediatamente. Sei que ela não gosta disso, mas também sabe que não é desrespeito. É apenas quem eu sou. — Entre! digo. Ela caminha até o centro da sala. Usa um tailleur impecável, claro demais para um dia nublado. Minha mãe não se veste para agradar. Ela se veste para dominar o ambiente. — Seu pai pediu para falar com você: Ela fala cruzando as mãos à frente do corpo. — Ainda hoje. — Ele sempre pede. respondo. — Nem sempre é urgente. Ela me encara, avaliando. — Desta vez é. Finalmente me viro. Nossos olhares se cruzam. O dela é afiado, experiente. O meu, treinado para não revelar nada. — Algo específico? pergunto. — Movimento em Porto de Spree: ela responde. — Pessoas observando demais. Meu maxilar se contrai levemente. — Observadores existem em todos os lugares. — Nem todos sobrevivem. ela diz. — Seu pai não gosta de incógnitas. — Nem eu. Ela se aproxima da janela, ficando ao meu lado. — Mitte precisa continuar intocável. ela afirma. — A imagem é parte do poder. — A imagem só funciona quando o controle é real. respondo. — Se alguém está observando, significa que algo chamou atenção. — Ou alguém. ela corrige. Fico em silêncio por alguns segundos. — Já estamos investigando: digo. — Nada relevante até agora. — Ainda. ela repete, da mesma forma que sempre faz quando quer plantar uma dúvida. Minha mãe se afasta e caminha até a porta. — Jante conosco hoje : diz. — Seu pai quer você presente. — Estarei lá. Ela assente e sai. Fico novamente sozinho. Porto de Spree. O nome surge na minha mente como um ponto distante no mapa. Um bairro que não costuma cruzar o caminho de Mitte. Dois mundos que coexistem em Berlim sem realmente se tocar. Quando se tocam, algo costuma dar errado. Pego o casaco e deixo o escritório. No elevador, observo meu reflexo no espelho. Terno escuro. Postura reta. Olhar contido. A imagem que esperam de mim. O herdeiro. Ser filho de Romero lá Rosa Duarte nunca foi uma escolha. Foi uma sentença. Desde pequeno, entendi que sentimentos são negociáveis. Que laços existem enquanto servem a um propósito maior. Amor, naquele mundo, é fraqueza. Ainda assim, às vezes me pergunto quem eu seria sem o sobrenome. O carro segue pelas ruas de Mitte com fluidez. O motorista não fala. Não precisa. Chegamos à residência principal da família Duarte pouco depois do anoitecer. Segurança reforçada. Portões silenciosos. Tudo funciona como deve. Meu pai está sentado à cabeceira da mesa quando entro na sala de jantar. A presença dele domina o ambiente sem esforço. Não há necessidade de p************s. O respeito vem antes. — Miguel. ele diz, simples. — Pai. Sento-me à direita dele. Minha mãe ocupa o lugar oposto. O jantar começa com formalidades e silêncios estratégicos. Sempre foi assim. — Há movimentações que não me agradam. diz meu pai, enquanto corta a carne com precisão. — O controle depende de antecipação. — Estamos monitorando: respondo. — Nada indica ameaça direta. Ele ergue os olhos lentamente. — Ameaças raramente se anunciam. — Concordo. Minha mãe observa em silêncio, avaliando cada palavra. — Porto de Spree. ele continua. — É um lugar onde o ressentimento cria raízes. Seguro o olhar dele. — Ressentimento não constrói impérios. — Mas pode destruí-los: ele rebate. O jantar segue com mais algumas observações estratégicas. Nenhuma emoção. Nenhuma lembrança. Tudo é funcional. Quando terminamos, meu pai se levanta primeiro. — Confio em você. ele diz, colocando a mão pesada sobre meu ombro por um segundo. — Não me decepcione. — Não vou. Essa frase me acompanha desde a adolescência. No caminho de volta, peço ao motorista que dê uma volta maior. Quero ver a cidade. Mesmo que ela nunca me veja de verdade. Passamos por limites invisíveis até que percebo a mudança no ambiente. Prédios mais antigos. Luzes menos cuidadas. Porto de Spree. Observo pela janela, curioso apesar de mim mesmo. Aqui, o poder é diferente. Menos escondido. Mais cru. As pessoas carregam a vida no rosto. Não há tempo para fingimentos. Algo nesse lugar me incomoda. Talvez porque ele lembre que existem mundos fora do controle de Mitte. O carro segue adiante, e logo o bairro fica para trás. Quando voltamos às ruas limpas e ordenadas, sinto o alívio estranho de quem retorna ao próprio território. Mas a inquietação permanece. Deito-me tarde naquela noite. O silêncio do quarto é absoluto. Fecho os olhos, tentando desligar a mente. Não penso em ameaças. Nem em negócios. Penso em movimento. O império Duarte está sempre em movimento. Crescendo, se adaptando, eliminando riscos. Eu sou parte disso. Fui moldado para isso. Ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, tenho a sensação de que algo se move fora do meu campo de visão. E isso é o que mais me incomoda.
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