(Melissa)
Há noites em que o sono não vem.
Não porque eu esteja cansada demais, mas porque minha mente se recusa a descansar. Ela trabalha sozinha, silenciosa, juntando peças que ainda não sei exatamente como encaixar.
Essa é uma dessas noites.
O Porto de Spree está quieto demais quando me levanto da cama e caminho até a janela. As luzes dos prédios antigos refletem no rio ao longe, tremendo como se até elas hesitassem em permanecer. Cruzo os braços junto ao corpo e respiro fundo. Aqui, tudo parece mais próximo da realidade. c***l, mas honesta.
Em Mitte, tudo é fachada.
Sento-me à escrivaninha e ligo o notebook. A tela ilumina o quarto com um brilho frio. Já sei exatamente o que vou procurar, mesmo fingindo para mim mesma que ainda estou apenas observando. A verdade é que, desde que pisei naquele bairro, algo se moveu dentro de mim. Um desconforto estranho. Uma sensação incômoda de que o inimigo não é tão simples quanto eu gostaria que fosse.
Digito o sobrenome que me acompanha desde a infância.
Duarte.
Os resultados surgem rápido demais. Empresas, conselhos, prêmios, entrevistas. Tudo muito limpo. Muito organizado. Um império construído para parecer legítimo aos olhos do mundo. Navego sem pressa, absorvendo cada detalhe, cada palavra cuidadosamente escolhida.
E então ele aparece na tela.
O herdeiro.
Fecho o notebook por um segundo, como se o gesto pudesse conter algo dentro de mim. Abro novamente. Encaro a imagem com mais atenção agora. Terno escuro, postura impecável, olhar sério. Não há sorriso. Não há excesso. Nada que denuncie emoções.
Ele parece… inalcançável.
Inclino a cabeça levemente, analisando. Homens criados no poder aprendem cedo a esconder o que sentem. São ensinados a controlar tudo ao redor, inclusive a si mesmos. Isso não acontece sem custo. Sempre há rachaduras. Sempre há falhas.
Só é preciso saber onde procurar.
Abro uma entrevista. Leio cada resposta com atenção. Ele fala de negócios, expansão internacional, responsabilidade social. Palavras bem colocadas. Frases neutras. Nada pessoal. Nada íntimo. Ele não se revela.
Isso me irrita mais do que deveria.
— Quem é você de verdade? Murmuro, sozinha no quarto.
Fecho a página e me recosto na cadeira. Não posso me permitir curiosidade vazia. Cada interesse precisa ter um propósito. Cada pensamento precisa ser funcional. Foi assim que sobrevivi até aqui.
Levanto-me quando ouço passos no corredor. A porta se abre devagar.
— Ainda acordada? Minha mãe pergunta, com a voz baixa.
— Sim.
Ela entra e fecha a porta atrás de si. Usa um robe simples, cabelos presos de maneira prática. O rosto carrega cansaço, mas também atenção. Ela sempre percebe quando algo em mim está diferente.
— Não consegui dormir? Constata.
— Não quis. Respondo.
Ela se aproxima da escrivaninha e lança um olhar rápido para o notebook aberto, sem se deter em detalhes.
— Há coisas que o silêncio da noite amplia. Nem sempre é saudável enfrentá-las sozinha. Ela Diz
Cruzo os braços.
— Eu estou bem.
Minha mãe se senta na beira da cama, mantendo a postura ereta, quase formal. É assim que ela fala quando entra em territórios perigosos.
— Melissa, permita-me ser direta. Eu sinto que você está se aproximando de algo que pode sair do seu controle. Ela fala
— Eu sei exatamente o que estou fazendo.
— Seu pai também achava que sabia. Ela responde, sem elevar a voz.
— Ele confiava demais na própria leitura das pessoas.
Engulo em seco, mas não desvio o olhar.
— Eu não confio. digo.
— Eu observo.
Ela me encara por alguns segundos, avaliando não só minhas palavras, mas o que existe por trás delas.
— Observar pode se transformar em envolvimento: Ela afirma.
— E envolvimento, em risco.
— Eu não atravessei nenhuma linha. Respondo com firmeza.
— Ainda.
Ela suspira, apoiando as mãos no colo.
— Só peço que se lembre de que há mundos que não permitem retorno: diz.
— Uma vez dentro, não há saída limpa.
— Eu sei disso desde os doze anos, minha mãe.
O silêncio se instala entre nós. Denso, carregado de tudo o que já perdemos.
— Descanse. ela diz por fim, levantando-se.
— O amanhã sempre cobra seu preço.
— Boa noite.
Ela sai do quarto sem dizer mais nada. Fico olhando para a porta fechada por alguns segundos antes de desligar o notebook. Deito-me, mas o rosto dele continua surgindo na minha mente. Frio. Contido. Calculado. Perigoso.
No dia seguinte, Berlim acorda cinza novamente. Saio cedo, caminhando pelas ruas do bairro com passos tranquilos. Preciso manter a normalidade. Preciso ser invisível. Trabalho, estudo, rotina. A vida que construí para não levantar suspeitas.
Mas, por dentro, tudo se move.
Durante a tarde, volto a Mitte. Não para procurar alguém. Apenas para observar mais uma vez. O bairro à luz do dia revela ainda mais sua arrogância silenciosa. Pessoas entram e saem de prédios espelhados como se nada pudesse tocá-las.
Passo em frente a um edifício específico. Reconheço o símbolo discreto próximo à entrada. Um dos centros administrativos do império Duarte. Segurança reforçada. Vidros escuros. Movimento controlado.
Paro do outro lado da rua, fingindo mexer no celular.
Imagino como deve ser crescer ali dentro. Ser preparado desde cedo para comandar. Para obedecer. Para não questionar. Imagino um menino aprendendo que sentimentos atrapalham decisões. Que fraquezas são exploradas.
Imagino o homem que isso criou.
Sinto algo estranho no peito e me irrito comigo mesma. Não vim aqui para imaginar. Vim para entender o cenário. Apenas isso.
Dou meia-volta e sigo caminho. Não cruzo olhares. Não entro em lugar nenhum. Não deixo rastros.
Quando volto para casa, já está anoitecendo. Encontro minha mãe na cozinha, preparando algo simples para o jantar.
— Seu dia foi tranquilo? ela pergunta, sem me olhar diretamente.
— Foi.
— Cumpriu sua rotina?
— Sim.
Ela assente, como se anotasse mentalmente cada resposta.
— Isso é importante. diz.
— A normalidade protege.
— Eu sei.
Jantamos em silêncio. Um silêncio menos pesado do que o da noite anterior, mas ainda cheio de coisas não ditas. Depois, recolho os pratos e sigo para o quarto.
Deito-me mais cedo dessa vez. Fecho os olhos, tentando afastar pensamentos inúteis. Mas ele volta. Sempre ele. Não como desejo. Não como curiosidade ingênua. Como uma peça-chave.
O herdeiro não é apenas o filho do inimigo.
Ele é a porta.
E, pela primeira vez, entendo que não será suficiente apenas observá-lo de longe.
Mais cedo ou mais tarde, nossos caminhos vão se cruzar.
E quando isso acontecer, nada será simples.