Escolher sempre fez parte da minha vida.
Desde cedo, fui treinado para isso: escolher alianças, estratégias, sacrifícios. Escolher quem prospera e quem cai. Quem permanece e quem é descartado. No meu mundo, escolhas não são emocionais são políticas, calculadas, frias.
Ou pelo menos eram.
Naquela manhã, ao entrar na sala reservada do Conselho das Sombras, percebi que não se tratava mais de negócios. O ar estava pesado demais para isso. Os homens sentados à mesa não me olhavam como herdeiro ou CEO. Olhavam como alguém que precisava ser contido.
Controlado.
— Vamos começar — disse Klaus, sempre o primeiro a se sentir autorizado a falar. — O império precisa de clareza.
Sentei-me na cabeceira, sem tirar o casaco.
— Clareza costuma ser um eufemismo para imposição — respondi. — Seja direto.
Alguns trocaram olhares rápidos. Romero estava à minha direita, silencioso demais. Minha mãe, à esquerda, elegante e imóvel como uma peça de xadrez que ainda não havia sido movida.
— Há preocupações — continuou Klaus. — Decisões recentes têm sido tomadas sem consulta adequada.
— Decisões operacionais — corrigi. — Dentro da minha alçada.
— Não quando envolvem riscos externos — rebateu outro conselheiro. — E pessoas externas.
Ali estava. O ponto real.
— Digam o nome — falei, sem paciência.
O silêncio durou um segundo a mais do que o necessário.
— Melissa Montez — disse minha mãe, finalmente.
O som do nome dela naquela sala causou um efeito imediato. Meu peito apertou, mas meu rosto permaneceu impassível.
— O que exatamente ela representa para o Conselho? — perguntei.
— Uma variável — respondeu Klara. — Não mapeada. Não controlada.
— Pessoas não são ativos — retruquei.
Ela sorriu, sem humor.
— No nosso mundo, tudo é ativo ou ameaça — disse. — E ela se enquadra perigosamente nas duas categorias.
Romero pigarreou.
— Filho — começou — o Conselho não está pedindo que você termine nada. Está pedindo cautela.
— Cautela costuma ser o primeiro passo para coerção — respondi. — O segundo é o ultimato.
Klaus se inclinou para frente.
— Então vamos poupar tempo — disse. — Você precisa se afastar dela.
A frase caiu como uma lâmina sobre a mesa.
— Não — respondi, simples.
Alguns murmúrios surgiram.
— Miguel — insistiu Klara — isso não é pessoal. É política.
Foi ali que algo mudou dentro de mim.
— Não — repeti, agora mais firme. — É exatamente o contrário. Vocês querem transformar o que é pessoal em política.
— O império vem antes — disse um dos homens.
— Sempre veio — concordei. — Mas isso não significa que eu precise sacrificar tudo o que me torna humano para mantê-lo de pé.
— Humanidade é luxo — retrucou Klaus.
— Não — corrigi. — Humanidade é limite. E limites evitam monstros.
Minha mãe me encarou com frieza absoluta.
— Você está se expondo — disse. — Está escolhendo fraqueza.
— Estou escolhendo consciência — respondi. — Algo que este Conselho parece ter esquecido.
Romero finalmente me encarou de verdade.
— Se insistir nisso — disse ele — haverá consequências.
— Sempre há — respondi. — Mas não todas são ruins.
Levantei-me lentamente.
— Melissa não será tocada — declarei. — Nem direta, nem indiretamente. Qualquer movimentação contra ela será interpretada como ataque a mim.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
— Você está colocando uma mulher acima do império — disse Klaus, incrédulo.
Olhei para cada um deles antes de responder.
— Estou colocando limites acima da corrupção — disse. — E escolhas acima do medo.
Minha mãe se levantou também.
— Você está cometendo um erro histórico — disse.
— Talvez — respondi. — Mas será meu.
Saí da sala sem esperar resposta. O coração batia acelerado, mas não havia arrependimento. Apenas uma clareza estranha, quase assustadora.
Eu tinha escolhido.
Horas depois, estava no carro, atravessando Berlim sem perceber o trajeto. Minha mente não estava nos contratos, nem nos relatórios, nem nas ameaças veladas do Conselho.
Estava nela.
Quando estacionei em frente ao prédio de Melissa, já sabia que aquela escolha precisava ser dita. Não como p******o. Como verdade.
Ela abriu a porta surpresa ao me ver.
— Miguel? — perguntou. — Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu tudo — respondi.
Entrei e fechei a porta atrás de mim. Ela me observava com atenção, percebendo que algo estava diferente.
— O Conselho me pressionou — falei. — Minha família também.
Ela empalideceu levemente.
— Por minha causa? — perguntou.
— Sim.
O silêncio se instalou.
— E o que você fez? — ela questionou, quase num sussurro.
Aproximei-me, parando a poucos passos dela.
— Eu escolhi você.
Os olhos dela se arregalaram.
— Miguel… você não sabe o que está dizendo.
— Sei exatamente — respondi. — Sei o que isso custa. Sei o que pode provocar. E ainda assim, escolhi.
Ela balançou a cabeça, confusa.
— Você não pode colocar tudo em risco por mim.
— Já coloquei — disse. — E faria de novo.
Ela respirou fundo, visivelmente abalada.
— Por quê? — perguntou. — Por que faria isso?
Cheguei mais perto.
— Porque política eu entendo — falei. — Poder eu domino. Estratégia eu controlo. Mas o que sinto por você… isso não obedece regras antigas.
Ela desviou o olhar, emocionada.
— Isso não vai terminar bem — disse.
— Talvez não — concordei. — Mas vai ser verdadeiro.
Toquei o rosto dela com cuidado.
— Seja o que for que você esteja escondendo de mim — continuei — eu enfrento. Mas não aceito que decidam por mim quem eu posso amar.
Os olhos dela se encheram de lágrimas contidas.
— Miguel… — começou.
— Não — interrompi. — Agora é minha vez de falar sem recuar.
Segurei as mãos dela.
— Eles podem jogar política, medo e manipulação. Eu escolho você. Acima disso tudo.
Ela fechou os olhos por um segundo, como se aquela declaração fosse pesada demais.
Quando os abriu, havia algo novo ali.
Algo perigoso.
Esperança.
E naquele instante, eu soube:
a maior ruptura do Império Duarte não seria financeira, nem estratégica.
Seria emocional.
E eu tinha acabado de provocá-la.