É OFICIAL

1073 Palavras
Miguel Oficializar algo sempre foi fácil para mim. Assinaturas, comunicados, anúncios estratégicos. Tornar algo público nunca me causou hesitação desde que não envolvesse sentimentos. Mas naquela manhã, diante da cidade despertando além das janelas de vidro do meu escritório, percebi que não havia contrato capaz de me preparar para o que estava prestes a fazer. Assumir Melissa não era apenas dizer “estamos juntos”. Era expor um ponto fraco. E eu nunca havia permitido isso. — Tem certeza? — Romero perguntou, apoiado na mesa, os braços cruzados. — Não estaria aqui se não tivesse — respondi. Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos grisalhos. — O Conselho vai interpretar isso como provocação. — Eles já estão provocados — respondi. — Isso é apenas honestidade. A palavra soou estranha na minha boca. Honestidade raramente tinha espaço no meu mundo. Peguei o celular e reli a mensagem que Melissa havia enviado minutos antes: “Se for grande demais para você, ainda dá tempo de recuar.” Sorri de leve. Ela ainda não entendia que, quando eu escolhia, não existia meio-termo. — Prepare o comunicado — disse a Romero. — Nada sensacionalista. Nada vago. Apenas o suficiente. — “Miguel Duarte assume relacionamento sério” — ele murmurou. — Nunca achei que veria esse dia. — Nem eu — admiti. Horas depois, quando a notícia começou a circular nos círculos certos não na mídia aberta, mas nos bastidores onde o poder realmente se move senti o impacto quase físico. Chamadas perdidas. Mensagens cifradas. Silêncios calculados. O império reagia. Mas nada disso importava tanto quanto o que viria a seguir. Estacionei em frente ao prédio dela com uma estranha sensação de nervosismo. Não medo. Expectativa. Quando Melissa abriu a porta, me olhou como se já soubesse. — Você fez — disse. — Fiz. Ela respirou fundo e deu espaço para eu entrar. — Oficializar não torna as coisas mais fáceis — ela disse, caminhando até a janela. — Nunca fez — respondi. — Apenas mais reais. Ela cruzou os braços, o corpo tenso. — Você está se expondo por minha causa. — Não — corrigi. — Estou me expondo por minha escolha. Aproximei-me devagar. — O mundo sempre soube quem eu era nos negócios — continuei. — Agora vai saber quem eu sou quando escolho alguém. Ela me encarou, os olhos carregados de emoção e conflito. — E se isso te custar tudo? — perguntou. — Então ainda assim terá valido — respondi. Ela balançou a cabeça, como se lutasse contra algo interno. — Isso me assusta — confessou. — A mim também — admiti. E foi ali que percebi: assumir Melissa não me tornava apenas poderoso diante do mundo. Tornava-me vulnerável diante dela. --- Melissa Quando Miguel Duarte entrou oficialmente na minha vida, senti o peso da realidade cair sobre meus ombros. Não era mais um segredo. Não era mais um espaço seguro entre paredes fechadas. Era público. E tudo o que é público pode ser atacado. — Você tem ideia do que fez? — perguntei, andando de um lado para o outro. — Tenho — ele respondeu, calmo demais para alguém que acabara de provocar um terremoto político. — Miguel, as pessoas que cercam você não jogam limpo — disse. — Elas usam tudo. Tudo mesmo. — Inclusive você — ele completou. Parei. — Sim — respondi. — Principalmente eu. O silêncio que se instalou era denso, carregado de verdades não ditas. Senti o medo rastejar pelo meu peito, não por mim, mas por ele. — Eu não sou apenas uma mulher comum — falei, com cuidado. — Há coisas sobre mim que… Ele se aproximou. — Eu sei — disse. — E ainda assim estou aqui. — Você não sabe tudo — retruquei. — Ainda — ele corrigiu. Olhei para ele, tentando encontrar qualquer sinal de dúvida. Não havia. — Isso não é justo — murmurei. — Você está me dando um lugar que pode me destruir. — Ou nos fortalecer — disse. — Juntos. Juntos. A palavra ecoou dentro de mim como uma promessa e uma ameaça. — A partir de agora — continuei — tudo o que eu fizer reflete em você. Cada passo, cada escolha errada. — Sempre refletiu — respondeu. — A diferença é que agora eu não vou fingir que não vejo. A sinceridade dele me desmontava mais do que qualquer declaração romântica. — Eu não sou invulnerável, Miguel — confessei. — E amar você me deixa ainda menos. Ele tocou meu rosto com delicadeza. — Eu não quero que você seja invulnerável — disse. — Quero que seja verdadeira comigo. Senti um nó se formar na garganta. — Oficializar isso — continuei — torna tudo mais perigoso. — Também torna mais difícil nos afastar — ele respondeu. Sorri, sem humor. — Você é estrategista até no amor. — Não — ele disse. — Sou apenas um homem que decidiu parar de fugir. Aquela frase me atingiu em cheio. Porque eu ainda fugia. --- Miguel Naquela noite, deitados juntos, percebi algo que jamais experimentei antes. Silêncio sem tensão. Presença sem jogo. — Eles vão testar você — falei. — Vão tentar te intimidar. — Eu sei — respondeu ela. — Já estou sentindo. — Se quiser recuar… — comecei. Ela se virou para mim. — Não termine essa frase — disse. — Não agora. Assenti. — Então vamos ser claros — falei. — Não prometo segurança absoluta. Não prometo um caminho fácil. — Mas promete verdade? — ela perguntou. — Sempre que eu souber dela — respondi. Ela sorriu, cansada. — Isso é mais do que muitos oferecem. Passei o braço em volta dela, sentindo o peso e o conforto daquela proximidade. Pela primeira vez, não era apenas o CEO, o herdeiro, o estrategista. Era um homem que havia assumido uma relação — e, com ela, a possibilidade de perder. E isso me tornava mais humano do que jamais fui. --- Melissa Enquanto ele dormia, observei seu rosto relaxado e senti o conflito rasgar meu peito. A relação agora era oficial. E, com isso, cada mentira que eu ainda carregava se tornava mais pesada. Amá-lo já era perigoso. Mas amá-lo enquanto escondia verdades… isso era quase imperdoável. Toquei sua mão com cuidado. — Me perdoa — sussurrei, sem que ele ouvisse. Porque, a partir daquele momento, nossa relação não era apenas amor. Era vulnerabilidade compartilhada. E o tempo estava se esgotando para a verdade vir à tona.
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