(Melissa)
Há entregas que não acontecem no corpo.
Elas acontecem quando baixamos as defesas que passamos a vida inteira construindo. Quando permitimos que alguém veja o que existe por trás do rancor, da estratégia, da máscara. E, naquela noite, foi exatamente isso que eu fiz mesmo sabendo o risco.
Miguel me ligou no fim da tarde.
A voz dele estava diferente. Não fria. Não controlada. Havia algo contido ali, como se ele estivesse segurando o mundo com as próprias mãos.
— Preciso te ver — disse.
Não perguntou se eu podia. Não explicou o motivo. Apenas disse.
— Onde? — perguntei.
— Em um lugar que não pertença a ninguém — respondeu.
— Nem a mim. Nem a você.
Aceitei antes que a razão pudesse intervir.
O endereço ficava afastado do centro, perto de uma área antiga de Berlim, onde prédios históricos resistiam ao tempo e ao dinheiro. Um terraço alto, silencioso, quase esquecido. Quando cheguei, ele já estava lá.
Sem terno.
Sem o peso do cargo estampado no corpo.
Apenas Miguel.
— Você está bem? — perguntei ao me aproximar.
Ele demorou alguns segundos para responder, como se estivesse organizando pensamentos.
— Não sei — disse, por fim.
— Mas sei que precisava estar com você.
Aquilo me atingiu com força inesperada.
Sentamos lado a lado, observando a cidade lá embaixo. As luzes pareciam distantes, irreais. O vento frio cortava a pele, mas nenhum de nós se moveu para ir embora.
— Minha mãe percebeu — ele disse, quebrando o silêncio.
Meu corpo enrijeceu.
— O quê? — perguntei, embora soubesse.
— A mudança — respondeu.
— Em mim.
Engoli em seco.
— Ela sempre percebe — falei.
— Sim — concordou.
— E isso significa perigo.
Virei-me para ele.
— Miguel… — comecei, mas parei.
O que eu poderia dizer? Que eu era o perigo? Que tudo aquilo tinha começado como um plano? Que o sobrenome que ele carregava tinha destruído a minha família?
Ele me encarou, atento.
— Diga — pediu.
Respirei fundo.
— Se você soubesse tudo sobre mim… — comecei
— talvez não estivesse aqui agora.
— Ou talvez estivesse ainda mais — respondeu.
— Você não entende — insisti.
— Então me ajude a entender — pediu, a voz baixa, sincera.
O silêncio que se formou era pesado demais. Senti o coração bater forte no peito, denunciando o quanto eu já estava envolvida.
— Minha vida não é simples — disse.
— Eu carrego coisas que não se resolvem com diálogo ou tempo.
— A minha também não — respondeu.
— A diferença é que eu parei de fingir que consigo lidar sozinho.
Aquelas palavras me desmontaram.
— Você está se entregando — murmurei.
— Estou escolhendo — corrigiu.
— E isso assusta mais do que qualquer risco.
Ele se aproximou um pouco mais, sem tocar.
— Eu não quero você pela metade, Melissa — disse.
— Nem quero ser uma fuga. Quero ser uma escolha consciente.
Fechei os olhos por um instante.
— E se essa escolha te destruir? — perguntei.
— Então será minha responsabilidade — respondeu.
— Não a sua.
Abri os olhos e o encarei. Pela primeira vez, vi ali não o CEO, não o herdeiro, não o filho de um mafioso poderoso.
Vi um homem.
— Eu tenho medo — confessei.
— Eu também — ele disse.
— Mas não do que sinto. Tenho medo do que podem fazer com isso.
Ele estendeu a mão, hesitante.
— Fique comigo agora — pediu.
— Só agora. Sem passado. Sem futuro.
Coloquei minha mão na dele.
E, naquele gesto simples, senti algo se quebrar dentro de mim.
Não foi desejo. Não foi impulso.
Foi entrega.
Encostei a cabeça no ombro dele, sentindo o calor, o ritmo da respiração. Miguel passou o braço ao meu redor com cuidado, como se tivesse medo de me assustar.
— Eu não sou boa nisso — falei.
— Em confiar.
— Eu não sou bom em precisar — respondeu.
Sorri, mesmo com os olhos marejados.
— Estamos em desvantagem — comentei.
— Talvez — disse.
— Ou talvez seja exatamente aí que mora a verdade.
Ficamos assim por um longo tempo, sem palavras, apenas existindo. E percebi que aquela proximidade emocional era mais íntima do que qualquer toque físico que já tivéramos.
Mas a culpa não desapareceu.
Ela apenas se acomodou em silêncio.
— Miguel… — chamei.
— Sim?
— Se um dia eu te machucar — comecei, com a voz trêmula
— quero que saiba que nunca foi por falta de sentimento.
Ele me afastou levemente para me encarar.
— O que você está me dizendo? — perguntou.
— Que às vezes amar alguém não impede que o caos alcance tudo — respondi.
Ele segurou meu rosto com as duas mãos.
— Olhe para mim — pediu.
Obedeci.
— Seja o que for que exista no seu passado — disse
— nós enfrentamos juntos. Ou não enfrentamos de forma alguma.
As palavras dele eram uma promessa perigosa.
E eu sabia que não tinha o direito de aceitá-la.
Mas aceitei.
Aproximei-me e o beijei. Não houve urgência. Não houve pressa. Foi um beijo calmo, profundo, carregado de algo que se parecia muito com pertencimento.
Quando nos afastamos, eu sabia.
Eu tinha cruzado o último limite.
A entrega emocional é sempre a mais irreversível.
Porque o corpo pode recuar.
A mente pode mentir.
Mas o coração…
o coração não sabe voltar.
Enquanto o abraçava, sentindo o peso e a segurança daquele momento, uma verdade c***l se impôs com clareza devastadora:
quanto mais eu me entregava a Miguel,
mais perto eu chegava de destruí-lo.
E, ainda assim, pela primeira vez desde a morte do meu pai, eu me permiti sentir algo além de ódio.
Esperança.
Mesmo sabendo que, no mundo dos Duarte, esperança costuma ser apenas o prenúncio da queda. Eu sabia que não tinha mais como voltar atrás e que eu teria que decidir ouvir meu coração e ficar com ninguém que por sinal mostrou ser alguém totalmente o oposto de seus pais ou continuar com minha vingança pelo meu pai.