ENTREGA EMOCIONAL

1014 Palavras
(Melissa) Há entregas que não acontecem no corpo. Elas acontecem quando baixamos as defesas que passamos a vida inteira construindo. Quando permitimos que alguém veja o que existe por trás do rancor, da estratégia, da máscara. E, naquela noite, foi exatamente isso que eu fiz mesmo sabendo o risco. Miguel me ligou no fim da tarde. A voz dele estava diferente. Não fria. Não controlada. Havia algo contido ali, como se ele estivesse segurando o mundo com as próprias mãos. — Preciso te ver — disse. Não perguntou se eu podia. Não explicou o motivo. Apenas disse. — Onde? — perguntei. — Em um lugar que não pertença a ninguém — respondeu. — Nem a mim. Nem a você. Aceitei antes que a razão pudesse intervir. O endereço ficava afastado do centro, perto de uma área antiga de Berlim, onde prédios históricos resistiam ao tempo e ao dinheiro. Um terraço alto, silencioso, quase esquecido. Quando cheguei, ele já estava lá. Sem terno. Sem o peso do cargo estampado no corpo. Apenas Miguel. — Você está bem? — perguntei ao me aproximar. Ele demorou alguns segundos para responder, como se estivesse organizando pensamentos. — Não sei — disse, por fim. — Mas sei que precisava estar com você. Aquilo me atingiu com força inesperada. Sentamos lado a lado, observando a cidade lá embaixo. As luzes pareciam distantes, irreais. O vento frio cortava a pele, mas nenhum de nós se moveu para ir embora. — Minha mãe percebeu — ele disse, quebrando o silêncio. Meu corpo enrijeceu. — O quê? — perguntei, embora soubesse. — A mudança — respondeu. — Em mim. Engoli em seco. — Ela sempre percebe — falei. — Sim — concordou. — E isso significa perigo. Virei-me para ele. — Miguel… — comecei, mas parei. O que eu poderia dizer? Que eu era o perigo? Que tudo aquilo tinha começado como um plano? Que o sobrenome que ele carregava tinha destruído a minha família? Ele me encarou, atento. — Diga — pediu. Respirei fundo. — Se você soubesse tudo sobre mim… — comecei — talvez não estivesse aqui agora. — Ou talvez estivesse ainda mais — respondeu. — Você não entende — insisti. — Então me ajude a entender — pediu, a voz baixa, sincera. O silêncio que se formou era pesado demais. Senti o coração bater forte no peito, denunciando o quanto eu já estava envolvida. — Minha vida não é simples — disse. — Eu carrego coisas que não se resolvem com diálogo ou tempo. — A minha também não — respondeu. — A diferença é que eu parei de fingir que consigo lidar sozinho. Aquelas palavras me desmontaram. — Você está se entregando — murmurei. — Estou escolhendo — corrigiu. — E isso assusta mais do que qualquer risco. Ele se aproximou um pouco mais, sem tocar. — Eu não quero você pela metade, Melissa — disse. — Nem quero ser uma fuga. Quero ser uma escolha consciente. Fechei os olhos por um instante. — E se essa escolha te destruir? — perguntei. — Então será minha responsabilidade — respondeu. — Não a sua. Abri os olhos e o encarei. Pela primeira vez, vi ali não o CEO, não o herdeiro, não o filho de um mafioso poderoso. Vi um homem. — Eu tenho medo — confessei. — Eu também — ele disse. — Mas não do que sinto. Tenho medo do que podem fazer com isso. Ele estendeu a mão, hesitante. — Fique comigo agora — pediu. — Só agora. Sem passado. Sem futuro. Coloquei minha mão na dele. E, naquele gesto simples, senti algo se quebrar dentro de mim. Não foi desejo. Não foi impulso. Foi entrega. Encostei a cabeça no ombro dele, sentindo o calor, o ritmo da respiração. Miguel passou o braço ao meu redor com cuidado, como se tivesse medo de me assustar. — Eu não sou boa nisso — falei. — Em confiar. — Eu não sou bom em precisar — respondeu. Sorri, mesmo com os olhos marejados. — Estamos em desvantagem — comentei. — Talvez — disse. — Ou talvez seja exatamente aí que mora a verdade. Ficamos assim por um longo tempo, sem palavras, apenas existindo. E percebi que aquela proximidade emocional era mais íntima do que qualquer toque físico que já tivéramos. Mas a culpa não desapareceu. Ela apenas se acomodou em silêncio. — Miguel… — chamei. — Sim? — Se um dia eu te machucar — comecei, com a voz trêmula — quero que saiba que nunca foi por falta de sentimento. Ele me afastou levemente para me encarar. — O que você está me dizendo? — perguntou. — Que às vezes amar alguém não impede que o caos alcance tudo — respondi. Ele segurou meu rosto com as duas mãos. — Olhe para mim — pediu. Obedeci. — Seja o que for que exista no seu passado — disse — nós enfrentamos juntos. Ou não enfrentamos de forma alguma. As palavras dele eram uma promessa perigosa. E eu sabia que não tinha o direito de aceitá-la. Mas aceitei. Aproximei-me e o beijei. Não houve urgência. Não houve pressa. Foi um beijo calmo, profundo, carregado de algo que se parecia muito com pertencimento. Quando nos afastamos, eu sabia. Eu tinha cruzado o último limite. A entrega emocional é sempre a mais irreversível. Porque o corpo pode recuar. A mente pode mentir. Mas o coração… o coração não sabe voltar. Enquanto o abraçava, sentindo o peso e a segurança daquele momento, uma verdade c***l se impôs com clareza devastadora: quanto mais eu me entregava a Miguel, mais perto eu chegava de destruí-lo. E, ainda assim, pela primeira vez desde a morte do meu pai, eu me permiti sentir algo além de ódio. Esperança. Mesmo sabendo que, no mundo dos Duarte, esperança costuma ser apenas o prenúncio da queda. Eu sabia que não tinha mais como voltar atrás e que eu teria que decidir ouvir meu coração e ficar com ninguém que por sinal mostrou ser alguém totalmente o oposto de seus pais ou continuar com minha vingança pelo meu pai.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR