AMOR ANTES DA VERDADE

1223 Palavras
(Melissa) Havia um tipo de silêncio que só existia quando duas pessoas fingiam que não havia nada errado. Era nele que eu vivia agora. O apartamento de Miguel em Mitte parecia diferente quando eu estava ali com mais frequência. Não porque os móveis tivessem mudado ou porque a vista tivesse perdido a imponência da cidade organizada, fria e perfeita mas porque eu já não me sentia apenas uma visitante. Eu me sentia parte. E isso me aterrorizava. Estava sentada perto da janela, observando Berlim lá embaixo, quando ouvi passos atrás de mim. Miguel não disse nada de imediato. Apenas se aproximou, apoiando as mãos no encosto da cadeira, inclinando-se levemente sobre mim. — Você sempre observa a cidade como se estivesse se despedindo — comentou. Engoli em seco. — Talvez eu só esteja tentando entendê-la — respondi. — Ou tentando decidir se pertence a ela — completou. Virei o rosto para encará-lo. O olhar dele estava atento demais. Miguel sempre percebia mais do que dizia. Era isso que o tornava perigoso… e irresistível. — Você acha que alguém realmente pertence a um lugar? — perguntei. Ele pensou por um instante. — Acho que pertencemos às pessoas — disse. — Não aos mapas. O coração bateu mais forte do que deveria. — E quando as pessoas são temporárias? — questionei, em tom neutro demais para ser honesto. Ele se afastou um pouco, cruzando os braços. — Então escolhemos se vale a pena viver o tempo que nos é dado — respondeu. Aquela conversa parecia simples, mas não era. Havia camadas demais escondidas ali. Verdades não ditas, medos camuflados, perguntas que eu não tinha coragem de fazer. Nem respostas que eu queria ouvir. Miguel se aproximou novamente, agora de frente para mim. Tocou meu queixo com dois dedos, erguendo meu rosto com cuidado. — Você está distante — disse. — Mesmo quando está aqui. — Talvez eu só esteja aprendendo a estar — murmurei. Ele me observou por alguns segundos longos, como se estivesse decidindo algo internamente. Então se inclinou e me beijou. Não foi um beijo urgente. Foi lento, profundo, carregado de algo que já não podia ser chamado apenas de desejo. Suas mãos seguraram meu rosto com firmeza, como se quisessem me manter ali, ancorada naquele momento. Eu correspondi sem reservas. Porque era mais fácil beijá-lo do que dizer a verdade. Quando nos afastamos, ele encostou a testa na minha, respirando fundo. — Eu não sei o que você esconde — disse em voz baixa. — Mas sei que não está aqui por acaso. Meu corpo inteiro ficou em alerta. — Você confia em mim? — perguntei, quase num sussurro. Ele não respondeu de imediato. — Confiança não é algo que eu conceda com facilidade — disse por fim. — Mas estou disposto a construir. Aquilo foi pior do que uma acusação. Porque eu sabia que estava destruindo algo antes mesmo de ele existir por completo. Naquela noite, ficamos juntos de um jeito diferente. Não houve pressa. Não houve jogos. Miguel me despiu como se estivesse lendo cada centímetro do meu corpo, como se quisesse memorizar algo que temia perder. E eu deixei. Porque, naquele instante, eu queria esquecer quem eu era fora daquele apartamento. Entre lençóis e silêncios, ele se tornou vulnerável de um jeito que eu nunca tinha visto. Os gestos eram firmes, mas havia cuidado. Controle, mas também entrega. Quando tudo terminou, fiquei deitada ao lado dele, observando seu perfil relaxado. Miguel parecia mais jovem assim, longe do mundo, longe das decisões que carregava. — Você já pensou em como tudo seria se não houvesse passado? — perguntei, quebrando o silêncio. Ele abriu os olhos, encarando o teto. — O passado sempre cobra — respondeu. — Mas nem sempre define. Meu peito apertou. — E se definir? — insisti. Ele virou o rosto para mim. — Então enfrentamos — disse com convicção. — Juntos. A palavra ecoou em mim como um alerta. Juntos. Se ele soubesse. Virei-me de lado, de costas para ele, fingindo cansaço. Miguel não insistiu. Apenas passou o braço ao redor da minha cintura, puxando-me para perto. Fechei os olhos. E, pela primeira vez, desejei não lembrar de nada. No dia seguinte, acordei sozinha. Miguel havia saído cedo, como fazia quando precisava assumir o papel que o mundo esperava dele. Encontrei um bilhete sobre a mesa da cozinha. Reuniões o dia inteiro. Volto à noite. Não desapareça. Sorri sem humor. Desaparecer parecia, ironicamente, a única coisa honesta que eu poderia fazer. Saí do apartamento com o coração pesado e caminhei pelas ruas de Mitte sem destino certo. As pessoas passavam apressadas, alheias ao conflito que se desenrolava dentro de mim. Para elas, eu era apenas mais uma mulher bonita andando pela cidade. Para mim, eu era uma bomba-relógio. Sentei-me em um café discreto e pedi algo que m*l toquei. Minha mente insistia em voltar para a mesma pergunta: até quando? Até quando eu conseguiria sustentar aquela mentira? O telefone vibrou. Uma mensagem da minha mãe. Precisamos conversar. Meu estômago se contraiu. Ela sabia. Sempre sabia. Voltei para casa no Porto de Spree no fim da tarde. O lugar parecia ainda mais distante da minha realidade atual. Minha mãe estava sentada à mesa, postura ereta, olhar sério. — Você está se envolvendo — disse, sem rodeios. — Eu sei — respondi. — Com ele — completou. Não neguei. — Você lembra por que viemos para Berlim? — perguntou. — Lembro — respondi, a voz mais firme do que eu me sentia. — Todos os dias. — Então por que parece estar esquecendo? — questionou. — Porque ele não é apenas o sobrenome — falei. — Ele é uma pessoa. Minha mãe fechou os olhos por um instante. — Pessoas fazem escolhas — disse. — E escolhas têm consequências. — Eu sei — repeti. — O amor não muda o sangue — ela continuou. — Nem apaga o que foi feito. Levantei-me abruptamente. — Eu não estou tentando apagar nada — falei. — Só… não quero viver apenas para o passado. Ela me encarou, com algo entre tristeza e compreensão. — O passado não vai pedir permissão quando decidir voltar — disse. — Cuidado, Melissa. Saí antes que as lágrimas traíssem o pouco controle que ainda me restava. Naquela noite, voltei para Mitte. Miguel me esperava. — Você sumiu hoje — comentou. — Eu precisei pensar — respondi. Ele se aproximou, segurando minhas mãos. — Pensar em quê? Olhei para ele, realmente olhei. O homem poderoso. O herdeiro. O perigo. O homem que eu estava aprendendo a amar antes de revelar quem realmente era. — Em nós — disse. Ele sorriu de leve. — E o que decidiu? Respirei fundo. — Que talvez algumas verdades precisem esperar — respondi. — Pelo menos até sabermos se o que sentimos é real. O sorriso dele desapareceu lentamente, substituído por algo mais sério. — Eu não gosto de verdades adiadas — disse. — Mas gosto ainda menos da ideia de perder você. Meu coração se partiu um pouco. — Então estamos apostando alto — murmurei. — Sempre aposto alto — respondeu. — Principalmente quando vale a pena. Ele me puxou para um abraço forte, como se quisesse me proteger de algo invisível. E, naquele momento, eu permiti. Escolhi o amor antes da verdade. Mesmo sabendo que, quando ela viesse, não pediria desculpas.
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