ENTRE A VINGANÇA E O SENTIMENTO

1235 Palavras
(Melissa) Nunca pensei que o amor pudesse doer antes mesmo de ser vivido por completo. Acordei naquela manhã com o peso de duas vidas dentro de mim. Uma era feita de memórias, promessas quebradas, sangue derramado e um nome que ecoava como uma sentença: Duarte. A outra era recente, frágil e perigosamente viva construída nos silêncios de Miguel, no jeito como ele me olhava quando achava que eu não percebia, no cuidado contido que ele demonstrava mesmo tentando manter distância. Levantei devagar da cama em Mitte, tomando cuidado para não acordá-lo. Miguel dormia de lado, o rosto relaxado, algo raro para alguém que vivia em constante estado de alerta. Observei-o por alguns segundos longos demais, gravando cada detalhe como se já soubesse que aquilo poderia ser temporário. Ele parecia… humano. E isso era o que mais me destruía. Caminhei até a janela e abri levemente a cortina. Berlim despertava em tons frios, organizada, indiferente ao caos que me consumia por dentro. Pensei no Porto de Spree, na casa simples onde cresci, na voz da minha mãe me alertando desde sempre que o passado nunca dorme de verdade. Ela estava certa. Eu é que escolhi ignorar. A vingança sempre foi clara, objetiva, quase confortável. Eu sabia exatamente o que odiar, quem culpar, o que desejar em silêncio todas as noites. O plano havia sido simples no início: me aproximar, observar, ferir onde mais doesse. Miguel seria o caminho até Romero. Um meio, nunca um fim. Mas o problema do amor é que ele não respeita planos. Ou estratégias. Ou ódio herdado. Virei-me ao ouvir movimento atrás de mim. Miguel acordava lentamente, passando a mão pelo rosto, ainda preso entre o sono e a realidade. Quando seus olhos encontraram os meus, algo suave atravessou sua expressão. — Você acordou cedo — disse ele, a voz baixa, rouca. — Não consegui dormir — respondi. Ele se sentou na cama, encostando-se na cabeceira, observando-me com atenção. Aquela atenção silenciosa sempre me deixava exposta demais. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou. Hesitei. Quantas vezes eu ainda hesitaria antes de dizer a verdade? — Só pensamentos — respondi. — Eles não me deixaram em paz. Ele assentiu, como se entendesse mais do que eu dizia. — Pensamentos costumam ser traiçoeiros — comentou. — Especialmente quando se acumulam. Aproximei-me da cama, sentando-me na beirada. Miguel estendeu a mão e tocou meu pulso com cuidado, como se estivesse pedindo permissão para entrar em algo mais profundo. — Você está distante — disse. — Mesmo aqui. Meu peito apertou. — Eu estou tentando conciliar coisas — falei. — Coisas que não combinam? — questionou. Olhei para nossas mãos unidas. A dele firme. A minha trêmula. — Coisas que se anulam — murmurei. Ele franziu levemente a testa, mas não insistiu. Miguel tinha esse controle irritante de saber quando avançar e quando recuar. Talvez fosse isso que o tornasse tão perigoso para mim. — Se precisar de espaço… — começou. — Não — interrompi, rápido demais. — Não é isso. Porque não era. O problema não era estar com ele. O problema era quem ele era. E quem eu deveria ser. Mais tarde, caminhei sozinha por Mitte. Precisava de ar. De distância. De silêncio. O bairro parecia um reflexo do mundo de Miguel: prédios elegantes, pessoas bem vestidas, tudo funcionando com precisão calculada. Ali, nada parecia fora do lugar. Exceto eu. Passei por vitrines luxuosas e cafés discretos, sentindo-me uma intrusa em um território que não me pertencia. Pensei em como seria fácil odiá-lo se Miguel fosse apenas o herdeiro frio que eu imaginara no início. Se ele fosse apenas o sobrenome, apenas o legado, apenas o filho de Romero La Rosa Duarte. Mas ele não era. Ele era o homem que me escutava em silêncio. Que me tocava com cuidado. Que me olhava como se eu fosse um risco que valia a pena correr. E isso me fazia sentir culpada. Cada sorriso que eu devolvia era uma traição ao meu pai. Cada beijo, um pedido de desculpas que eu nunca poderia fazer. Cada noite ao lado dele, um passo a mais rumo a um abismo sem volta. Sentei-me em um banco próximo ao rio, observando a água escura seguir seu curso indiferente. Pensei no meu pai. Em como ele me carregava nos ombros quando eu era pequena. Em como sua risada ecoava pela casa. Em como tudo acabou de forma brutal, injusta, definitiva. — Eu não esqueci — sussurrei, como se ele pudesse ouvir. — Só estou… cansada de odiar. As lágrimas vieram sem aviso. Limpei o rosto rapidamente, respirando fundo. Eu não podia me permitir fraquejar. Não agora. Não quando tudo começava a se complicar. "O telefone vibrou. Uma mensagem da minha mãe." Você está se afastando do que prometeu. Fechei os olhos. Ela sempre sabia. Voltei para o apartamento no fim da tarde. Miguel estava na cozinha, mangas da camisa dobradas, mexendo algo no fogão com uma concentração inesperada. A cena era tão doméstica que doeu. — Você cozinha? — perguntei, tentando soar leve. Ele sorriu de lado. — Pouco — respondeu. — Mas aprendi a não depender sempre dos outros. — Isso explica muita coisa — comentei. Ele riu, um som baixo, raro. — Onde você foi? — perguntou. — Andar — respondi. — Precisava pensar. Ele assentiu. — Pensar é perigoso — disse. — Costuma nos levar a lugares que evitamos. Aproximei-me dele, encostando na bancada. — E você? — perguntei. — Nunca evita? Ele me encarou. — Evito sentir — respondeu com honestidade brutal. — Ou evitava. Meu coração acelerou. — E agora? — perguntei. — Agora sinto mesmo assim — disse. — Mesmo sabendo que pode dar errado. O silêncio que se formou entre nós era denso demais. — Miguel… — comecei, mas parei. Ele me observava com atenção total. — O que você não está dizendo? — perguntou. A pergunta me atravessou como uma lâmina. Eu poderia dizer tudo ali. Poderia quebrar o encanto, rasgar o véu, colocar sangue sobre a mesa. Poderia acabar com aquilo antes que se tornasse irreversível. Mas eu não consegui. — Tenho medo — falei, escolhendo a única verdade possível naquele momento. Ele se aproximou, tocando meu rosto. — Eu também — admitiu. — Mas não vou recuar por isso. Fechei os olhos, sentindo o toque dele como um pedido silencioso. — Eu não sei quanto tempo consigo sustentar isso — sussurrei. — Sustentar o quê? — perguntou. — Essa divisão — respondi. — Entre o que sinto… e o que devo. Ele apoiou a testa na minha. — Talvez o que você sente seja mais verdadeiro do que o que te ensinaram a dever — disse. Aquilo quase me fez desmoronar. O beijei antes que pudesse pensar melhor. O beijo foi intenso, carregado de urgência e conflito. Não havia leveza ali. Havia necessidade. Medo. Escolhas sendo adiadas. Quando nos afastamos, eu estava ofegante. — Isso não apaga nada — falei. — Eu sei — respondeu. — Mas também não precisa destruir tudo. Encostei a testa em seu peito, ouvindo o coração dele bater forte. Um coração que eu deveria atingir. Um coração que eu estava aprendendo a amar. Ali, envolvida pelos braços do homem que representava tudo o que eu deveria odiar, entendi a verdade mais c***l de todas: A vingança me deu propósito. Mas o amor me deu vida. E eu não sabia mais qual deles estava disposta a perder.
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