PRIMEIRAS AMEAÇAS REAIS

1169 Palavras
(Melissa) As ameaças nunca chegam gritando. Elas sussurram primeiro, testam limites, observam reações. Aprendi isso cedo demais, ainda criança, quando o silêncio passou a ocupar o lugar da risada do meu pai. E naquela semana, eu senti o mesmo arrepio antigo percorrer minha espinha. Algo estava errado. Acordei com a sensação incômoda de estar sendo observada. O apartamento de Miguel permanecia silencioso demais, como se a cidade inteira tivesse prendido a respiração. Levantei-me devagar, caminhando até a janela. Mitte acordava com sua rotina impecável, carros alinhados, pessoas apressadas, tudo funcionando como se o mundo não estivesse prestes a ruir. Mas eu sentia. Voltei para o quarto e encontrei Miguel já acordado, sentado na cama, o celular na mão, expressão fechada. O maxilar estava tenso, os olhos escuros demais. — Aconteceu alguma coisa — falei, afirmando, não perguntando. Ele levantou o olhar lentamente. — Ainda não — respondeu. — Mas vai acontecer. Meu estômago se contraiu. — O que você quer dizer com isso? Ele respirou fundo antes de responder, como se estivesse escolhendo cuidadosamente o quanto revelar. — O Conselho das Sombras se move quando percebe instabilidade — disse. — E eu tenho dado motivos. Sentei-me ao lado dele. — Por minha causa? — perguntei. Ele não negou. — Por minha escolha — corrigiu. — Você é apenas… o catalisador. A palavra me atingiu em cheio. — Miguel, se isso colocar você em risco… — comecei. — Você não é o risco — interrompeu. — É a consequência. Houve um silêncio pesado entre nós. — O que exatamente mudou? — insisti. Ele passou a mão pelos cabelos, visivelmente irritado. — Ontem à noite — disse — um dos meus diretores recebeu uma visita. Nada oficial. Nenhuma ameaça direta. Apenas um recado. — Que tipo de recado? — perguntei, sentindo o coração acelerar. — Que o Conselho está atento às minhas distrações — respondeu. — E que espera alinhamento absoluto. — E isso nunca aconteceu antes? — questionei. — Nunca dessa forma — admitiu. Levantei-me, caminhando pelo quarto. — Então agora é real — murmurei. — Sempre foi real — ele disse, com firmeza. — Só que agora chegou perto demais de você. Meu peito apertou. — Eu não deveria estar aqui — falei. Miguel se levantou imediatamente. — Não comece — disse, em tom baixo, mas intenso. — Não vou afastar você para agradar homens que se alimentam do medo dos outros. — Não é só sobre agradar — retruquei. — É sobre sobrevivência. Ele me encarou. — A minha vida sempre esteve em risco, Melissa — afirmou. — A diferença é que agora eu me importo. A frase caiu como um peso sobre mim. Saí do apartamento naquela manhã com a sensação de que cada passo estava sendo observado. Caminhei pelas ruas de Mitte tentando manter a postura, mas meu corpo inteiro estava em alerta. Cada carro estacionado, cada rosto desconhecido, parecia potencialmente ameaçador. No meio da tarde, recebi a primeira prova de que meu instinto não estava errado. O envelope estava sobre a mesa do café onde eu costumava ir. Não havia nome. Nem remetente. Apenas um papel dobrado, pesado demais para algo tão simples. Abri com cuidado. Porto de Spree ainda sangra. O ar pareceu desaparecer dos meus pulmões. Olhei ao redor imediatamente, mas ninguém parecia prestar atenção em mim. As pessoas conversavam, riam, viviam. Eu estava sozinha com aquela ameaça silenciosa. Não era uma frase aleatória. Era um aviso. Meu pai havia morrido no Porto de Spree. Minhas mãos tremiam quando guardei o bilhete na bolsa. Saí do café sem terminar o que havia pedido, o coração disparado. A cidade girava ao meu redor, distante, irreconhecível. Não era mais apenas sobre Miguel. Era sobre mim. Sobre minha mãe. Sobre o passado que eu fingir conseguir controlar. Liguei para Miguel assim que entrei no carro. — Onde você está? — perguntei assim que ele atendeu. — Em reunião — respondeu. — O que houve? — Preciso falar com você agora — disse. — Não é seguro por telefone. Houve uma pausa curta demais para ser tranquilizadora. — Estou a caminho — afirmou. Encontramo-nos no apartamento menos de uma hora depois. Miguel fechou a porta atrás de si com força controlada, caminhando direto até mim. — O que aconteceu? — perguntou. Sem dizer nada, estendi o bilhete. Ele leu uma vez. Depois outra. O rosto endureceu de forma imediata. — Isso não veio do Conselho — disse. — Como pode ter certeza? — perguntei. — Porque isso é pessoal — respondeu. — E o Conselho não desperdiça palavras. — Então quem? — questionei. Ele respirou fundo. — Alguém querendo testar meus limites — disse. — Ou os seus. Senti um frio percorrer minha espinha. — Eles sabem quem eu sou — falei. Ele não respondeu de imediato. O silêncio foi resposta suficiente. — Miguel… — comecei, sentindo a voz falhar. — Não — interrompeu. — Você não vai carregar isso sozinha. — Eu trouxe isso para a sua vida — insisti. — Desde o início, tudo foi errado. Ele segurou meu rosto com as duas mãos. — Olhe para mim — disse. Obedeci. — Ninguém entra na minha vida sem que eu permita — afirmou. — E ninguém ameaça alguém que eu escolhi proteger sem pagar por isso. — Isso não é um jogo — falei. — É uma guerra. — Eu nasci nela — respondeu. A convicção na voz dele deveria me tranquilizar. Em vez disso, me assustou ainda mais. À noite, Miguel insistiu para que eu ficasse no apartamento, com segurança reforçada. Homens que eu nunca tinha visto antes circulavam pelo prédio, discretos demais para serem ignorados. — Eles não são funcionários comuns — observei. — Não — confirmou. — São leais. — Ao Conselho? — perguntei. — A mim — respondeu. Aquilo deveria significar algo bom. Mas significava conflito. Sentei-me no sofá, abraçando as próprias pernas, tentando organizar os pensamentos. Miguel se aproximou e se sentou ao meu lado. — A partir de agora — disse — nada será simples. — Nunca foi — respondi. — As ameaças vão escalar — continuou. — Eles sempre fazem isso. Primeiro observam. Depois pressionam. — E depois? — perguntei. Ele me encarou, sério. — Depois, ferem. Engoli em seco. — Então o que fazemos? — questionei. — Nos antecipamos — respondeu. — E não cometemos erros. Fechei os olhos por um instante. — Eu nunca quis machucar ninguém além do que já estava morto dentro de mim — murmurei. Ele passou o braço ao redor dos meus ombros. — O problema da vingança — disse — É que ela acorda monstros que não se importam com seus limites. Apoiei a cabeça no ombro dele, sentindo o peso daquela verdade. Naquela noite, dormimos um pouco. Cada ruído parecia uma ameaça. Cada sombra, um aviso. E enquanto o passado se erguia diante de nós com dentes afiados, eu entendi algo com clareza assustadora: O amor já tinha sido descoberto. E, a partir daquele momento, ele seria usado como arma.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR