Capítulo 20 — O passado começa a emergir
(Miguel)
O passado nunca surge de uma vez.
Ele se infiltra. Primeiro como ruído distante, depois como uma lembrança inconveniente, até que, quando menos esperamos, se impõe com a força de algo que sempre esteve ali, apenas aguardando o momento certo.
Depois do bilhete, nada mais era coincidência.
Eu estava no meu escritório em Mitte quando percebi que o Conselho das Sombras havia mudado o tom. Não nas palavras essas continuavam calculadas, mas nos gestos. Reuniões convocadas sem aviso. Silêncios prolongados. Olhares que demoravam um segundo a mais do que o necessário.
Era assim que eles começavam.
Fechei a porta do escritório e caminhei até o cofre embutido na parede. Digitei o código e retirei uma pasta antiga, grossa, marcada apenas com um símbolo discreto: uma sombra circular.
Arquivos que eu evitara durante anos.
Sentei-me à mesa e respirei fundo antes de abri-la. Não porque tivesse medo do conteúdo, mas porque, no fundo, eu já sabia o que encontraria.
Thomas Montez.
O nome estava ali, impresso em relatórios frios, acompanhado de datas, locais, observações escritas por homens que jamais pisaram no Porto de Spree. Homens que não viam pessoas, apenas obstáculos.
Passei os olhos pelas páginas, sentindo um peso crescente no peito.
Atividade suspeita.
Conexões fora do eixo autorizado.
Risco potencial à expansão no setor portuário.
Era assim que a vida de um homem era resumida.
Não havia menção a uma filha. Nem a uma esposa. Apenas a um “alvo neutralizado”.
Fechei os olhos por um instante.
Meu pai havia assinado aquilo.
Romero La Rosa Duarte não precisava sujar as próprias mãos. Ele delegava. Sempre delegou. O sangue nunca chegava até ele apenas os resultados.
E agora, a filha do homem morto dormia sob a minha p******o.
Senti algo próximo de náusea.
— Você finalmente abriu essa pasta — disse uma voz atrás de mim.
Não precisei me virar para saber quem era.
— Há quanto tempo está aí? — perguntei.
— Tempo suficiente — respondeu Romero, caminhando até a mesa sem pedir permissão.
Ele observou os documentos espalhados com um interesse quase entediado.
— Achei que nunca teria coragem — comentou.
— Coragem não tem nada a ver com isso — retruquei.
— Tem a ver com consequências.
Ele sorriu de lado.
— Sempre as consequências — disse.
— Você pensa demais nelas.
Levantei-me lentamente.
— Thomas Montez — falei, encarando-o.
— O que exatamente ele fez para merecer morrer?
Romero me olhou como se a pergunta fosse infantil.
— Ele interferiu — respondeu.
— No que não devia.
— Ele tinha uma família — continuei.
— Todos têm — disse ele, indiferente.
— Isso nunca impediu nada.
O silêncio que se formou entre nós era pesado.
— A filha dele está envolvida comigo — falei, sem rodeios.
O olhar de Romero se alterou pela primeira vez. Apenas um segundo. Mas foi o suficiente.
— Então é isso — murmurou.
— A distração tem nome.
— O nome dela é Melissa — respondi.
— E ela não é uma distração.
Romero deu um passo à frente.
— Você está esquecendo quem manda — disse, em tom baixo.
— E por quê.
— Talvez esteja na hora de questionar isso — retruquei.
Ele riu, um riso curto, sem humor.
— O poder não se questiona, Miguel — afirmou.
— Ele se exerce.
Antes que eu pudesse responder, ele se virou e saiu, deixando o aviso no ar como uma ameaça velada.
O passado havia sido oficialmente acionado.
Quando cheguei ao apartamento naquela noite, encontrei Melissa sentada no sofá, abraçando uma almofada. Ela levantou o olhar assim que me viu, e a tensão em seus olhos confirmou o que eu já suspeitava.
— Eles sabem — disse ela, antes mesmo que eu falasse.
— Mais do que antes — confirmei.
Sentei-me à sua frente.
— Preciso te contar algumas coisas — falei.
Ela assentiu, em silêncio.
Respirei fundo.
— Seu pai não morreu por acaso — comecei .
— Houve um dossiê. Relatórios. Decisões frias.
Ela fechou os olhos por um instante, como se estivesse se preparando para o impacto.
— Eu sempre soube — disse.
— Só nunca tive provas.
— Agora temos — respondi.
— E isso muda tudo.
— Muda como? — perguntou, a voz firme demais para alguém à beira do abismo.
— Coloca você no centro de uma guerra que nunca foi sua — falei.
Ela soltou uma risada curta, amarga.
— Sempre foi minha — disse.
— Eu só fingia que não.
Aproximei-me, segurando suas mãos.
— Melissa, o Conselho não vai parar — falei.
— Nem meu pai.
— E você? — ela perguntou.
— Vai parar?
A pergunta ficou suspensa entre nós.
— Não — respondi.
— Não agora.
Ela me observou com atenção.
— Então o passado venceu — disse.
— Não — corrigi.
— Ele apenas deixou de ser ignorado.
Ela se levantou, caminhando até a janela.
— Tudo que eu construí até aqui foi em cima desse ódio — murmurou.
— E agora ele está se misturando com algo que eu não consigo controlar.
Aproximei-me por trás, mantendo uma distância respeitosa.
— O passado explica — falei.
— Mas não precisa decidir tudo.
Ela se virou, os olhos brilhando com algo perigoso.
— Decide sim — disse.
— Sempre decide.
Naquele momento, entendi com clareza absoluta:
O passado não queria apenas ser lembrado.
Ele queria cobrar.