Capítulo 14 – Ecos da Escuridão

1053 Palavras
Os gritos cessavam aos poucos. O som das espadas, do choque entre magia e trevas, dava lugar ao silêncio pesado que envolvia a clareira onde se travara a batalha. As últimas criaturas feitas de pura escuridão se dissolviam em fumaça n***a, vencidas pelo poder combinado dos doze guardiões e da jovem herdeira mágica que agora se erguia no centro do campo. Mayara segurava firme o frasco que criara com sua própria magia, onde parte da sombra de Milena ainda se debatia, tentando escapar. Dentro daquele recipiente mágico, a escuridão pulsava como um coração sombrio, viva, inquieta, enfurecida. Ela sabia que aquilo não era apenas um fragmento qualquer — era um elo. Uma pista. Um caminho para compreender a origem de toda a corrupção que tomava sua irmã. — Está seguro? — perguntou Aurora, aproximando-se com cautela, os cabelos ruivos presos numa trança desalinhada pela batalha. — Por enquanto. — Mayara respondeu, a voz firme, mas com os olhos perdidos naquela energia dançante. — Eu nunca tinha sentido algo tão… antigo. Os guardiões se aproximaram em silêncio. Alguns carregavam ferimentos leves; outros, cicatrizes mágicas que demorariam a desaparecer. Mas todos estavam vivos. Vitoriosos. Do outro lado do campo, Kael havia se ajoelhado ao lado de Milena, que ainda estava caída, inconsciente, envolta em vestígios da escuridão que Mayara não conseguira extrair. Ao lado deles, quatro curandeiras de vestes douradas e verdes, vindas diretamente do Templo da Cura do Norte, estendiam as mãos sobre o peito do homem amado por Milena, cuja vida pendia por um fio. — O nome dele é Elian — revelou Kael, ao se aproximar brevemente de Mayara. — Era um dos nossos melhores aliados antes de tudo isso acontecer. Antes dela. Mayara assentiu. Não culpava Milena. Não completamente. A força que se agarrava à sua irmã não era natural. Algo, ou alguém, havia conduzido aquela escuridão até ela. Manipulado. Corrompido. — Vamos montar acampamento aqui por esta noite — disse Mayara aos guardiões. — Precisamos descansar. E preciso estudar isso... — ela ergueu o pequeno frasco novamente. — Entender o que estamos enfrentando. --- O acampamento foi montado sob o céu estrelado. Pequenas tendas surgiram por entre os arbustos, e o som dos encantamentos de proteção ecoava como canções suaves entre os que ainda sabiam usá-los. Fogos baixos foram acesos, suficientes apenas para aquecer e iluminar, sem chamar atenção de inimigos que talvez ainda rondassem a floresta. Kael permaneceu ao lado de Elian. As curandeiras faziam um revezamento de energias, transferindo luz vital para tentar manter a respiração do rapaz estável. Milena, por sua vez, dormia sob efeito de um encantamento de repouso. Era a única forma de mantê-la contida. Mesmo inconsciente, sua presença ainda parecia atrair sombras. Mayara sentou-se dentro de um círculo de proteção feito com runas antigas desenhadas no chão. Em seu colo, o frasco de sombras se retorcia, como se aquilo tentasse escapar a qualquer custo. — Vamos conversar — murmurou ela, aproximando os dedos da superfície do vidro encantado. — Eu quero entender o que você é. Como se respondesse à provocação, o frasco vibrou. Mayara inspirou fundo e começou a sussurrar um feitiço de análise. Seu corpo brilhou levemente, e seu olhar foi tomado por uma luz dourada que se espalhou pelas veias de seus olhos. As imagens vieram de forma fragmentada. Um campo em chamas. Um trono feito de ossos. Uma criatura sem rosto, mas com olhos brancos como neve, sentada nele. Vozes antigas sussurravam coisas que Mayara não compreendia totalmente, mas uma palavra se repetia. "Abyssus." Ela recuou, rompendo a conexão com um suspiro arfante. O frasco escureceu como se também tivesse sentido a dor da revelação. Aurora, que havia permanecido ao seu lado em silêncio, perguntou: — O que foi isso? — É mais antigo do que qualquer coisa que vimos, Aurora. Essa magia… ela não pertence a esse mundo. É como se alguém tivesse cavado fundo demais. E o que encontrou, saiu. E se espalhou. — Isso quer dizer que Milena foi... escolhida? — Talvez. Ou talvez tenha sido apenas vulnerável no momento certo. Um vento gélido soprou pela clareira, trazendo consigo o perfume das folhas de lótus que floresciam à beira do rio sagrado. Era um sinal de que a floresta estava em alerta. A magia do local parecia despertar novamente, como se os velhos deuses da natureza tivessem finalmente se incomodado com a profanação que a escuridão representava. Kael se aproximou, com o rosto cansado e manchado de suor. — Ele está vivo. Por pouco… Mas as curandeiras dizem que ele precisa de mais tempo. Talvez semanas. Mayara assentiu, mas seus olhos não se desviavam do frasco. — A luta não acabou, Kael. Milena ainda carrega parte disso dentro dela. E se alguém está por trás disso... precisa ser detido. Antes que outros sejam corrompidos como ela. — Você acha que esse tal “Abyssus” está por trás? — Eu não sei se esse é um nome ou um lugar. Ou ambos. Mas é o que a escuridão sussurra quando é tocada. Kael olhou para o céu por um momento, buscando algum sinal entre as estrelas. — Talvez devêssemos buscar ajuda com os magos da Lua Escarlate. Eles têm acesso a registros antigos. Podem nos ajudar a descobrir o que está por vir. Mayara considerou por um instante. — Sim… mas antes disso, precisamos garantir que Milena não caia novamente. Precisamos trazê-la de volta. --- Horas depois, enquanto todos dormiam, exceto as sentinelas, Milena abriu os olhos. Ela não se movia. Seu corpo estava imóvel como pedra. Mas seus olhos fitavam as estrelas, e uma lágrima escorria silenciosa, traçando um caminho brilhante em sua bochecha. Em seu interior, ainda sentia a escuridão gritando. Uma parte dela queria lutar, se libertar, gritar. Mas a outra… a outra sentia saudade da dor. Do poder. Da promessa de ser invencível. Até que ouviu um som. Uma canção. Fraca, mas familiar. Era Mayara, que recitava uma antiga melodia mágica perto do fogo. Uma melodia de cura. De lembrança. De amor. A canção que a mãe delas cantava quando ambas eram pequenas. A escuridão, mesmo forte, não pôde silenciar aquilo. E por um breve momento, muito breve, os olhos de Milena brilharam não de preto, mas de azul. Mayara viu. E sorriu. O fogo crepitou mais alto. A esperança havia sido reacendida.
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