A brisa cortava suave por entre as árvores que ainda estavam de pé. O cheiro da terra queimada se misturava ao frescor da manhã recém-nascida. O acampamento improvisado estava silencioso, exceto pelos murmúrios de feitiços curativos vindos das curandeiras, que se ajoelhavam em torno do corpo de Kael. Mayara observava de longe, o coração apertado, mas determinada a não perder o foco.
Ela segurava com firmeza o pequeno recipiente mágico que criara, onde uma parte da escuridão de Milena pulsava, viva e inquieta. A sombra se debatia como uma criatura selvagem enjaulada, tentando escapar, se expandir, se multiplicar. Mas o feitiço de contenção que Mayara havia lançado era sólido — uma mistura de luz e sabedoria ancestral que aprendera com os manuscritos de sua mãe.
Ela sabia que não tinha muito tempo. A sombra era apenas uma fração do que ainda se escondia em Milena — e pior, do que se aproximava. Havia algo maior, algo que se alimentava da fraqueza, da dor, e da dúvida.
— “Você vai me ajudar a entender...” — murmurou para o pote encantado, enquanto sentava em posição de meditação.
Enquanto isso, os guardiões encerravam os últimos confrontos. Os monstros sombrios que haviam sido invocados por Milena estavam enfraquecendo, sendo empurrados para o esquecimento pela força conjunta dos guerreiros mágicos. Aurora, uma das guardiãs da água, havia invocado uma onda prateada que apagava qualquer rastro de trevas por onde passava. Ethan, com sua lâmina de vento, cortava com precisão cada criatura que ainda ousava resistir. Leia, firme como sempre, fazia os escudos mágicos se tornarem muralhas intransponíveis.
Kael, deitado entre almofadas e folhas medicinais, lutava pela vida. A espada enfeitiçada que o atingira parecia drenar não apenas seu sangue, mas sua energia vital. As curandeiras, lideradas por uma mulher elfa de nome Lyra, tentavam de tudo. Ainda assim, o rosto dele estava pálido demais. Silencioso demais.
Mileena, sentada a alguns metros dali, observava com olhos vazios. Sua consciência parecia ter voltado parcialmente. Ela reconhecia Kael. Chorava por ele. Mas ainda havia dentro dela o resquício da escuridão, amarrada como correntes invisíveis, impedindo-a de se aproximar ou reagir.
Foi quando Mayara se levantou.
Ela caminhou lentamente até Milena, segurando o recipiente onde a sombra ainda pulsava. Os guardiões a observaram de longe, prontos para agir, mas confiavam em sua rainha.
— “Eu sei que você está aí dentro, Milena.”
A garota não respondeu. Apenas observava o vidro, os olhos arregalados.
— “Isso aqui é apenas uma parte do que você carrega... mas também é a prova de que podemos vencer.”
A sombra dentro do pote reagiu com violência, escurecendo o frasco. Um estrondo ecoou ao redor, como se a escuridão gritasse.
— “Eu vou estudar essa essência. E vou descobrir como libertar você disso.” — Mayara deu um passo à frente, com firmeza. — “Você é uma de nós. E não importa o quanto as trevas tenham tentado te enganar... eu não vou desistir de você.”
Mileena tremeu. Seus lábios se entreabriram, como se quisesse dizer algo. Mas não conseguiu. Lágrimas silenciosas escorriam.
Naquele momento, o céu acima do acampamento se abriu levemente, revelando uma pequena faixa de luz dourada. Era como se o mundo mágico respondesse à promessa de Mayara. Como se uma nova esperança estivesse sendo plantada ali.
Lyra se aproximou discretamente da jovem rainha.
— “Ele ainda está fraco... mas há vida.” — disse, referindo-se a Kael. — “Sua presença o fortalece. Continue falando com ela. E com ele.”
Mayara assentiu.
Ela olhou para o céu, depois para os seus companheiros, feridos mas vivos. Para Milena, que lutava silenciosamente contra si mesma. E então, para o frasco de escuridão que pulsava em suas mãos.
Ela sabia: a guerra ainda não havia terminado.
Mas naquele instante, pela primeira vez em muito tempo, ela acreditou que a luz venceria.