Capítulo 9 – Ecos do Poder Perdido

909 Palavras
Após o retorno da Floresta Proibida, os dias passaram envoltos em um silêncio tenso. A imagem daquela mulher envolta em sombras, a runa marcada no espelho e o aviso profético pairavam em nossos pensamentos como uma tempestade se aproximando. Sabíamos que estávamos apenas no início de uma jornada muito maior. Orcânico, o sábio da floresta e mestre dos pergaminhos antigos, foi o primeiro a reagir. Ao saber do símbolo deixado na visão, seus olhos brilharam com um misto de medo e fascínio. Ele desapareceu por dias em sua torre escondida entre galhos milenares, mergulhado em tomos ancestrais cobertos de poeira e energia. — A runa que você viu — ele disse, ao finalmente emergir — é uma das mais antigas. Chama-se Rûn-Taral. É a marca do Julgamento das Raízes. A última vez que ela apareceu, um império foi destruído em sete dias. — O que isso significa para mim? — perguntei, sentindo o peso das palavras. — Significa que seu sangue contém não apenas o poder da criação... mas também da ruína. — ele me encarou profundamente. — E que alguém está tentando ativar esse lado obscuro. Com a ajuda de Orcânico, iniciamos uma nova etapa de treinamento. Ele me conduziu a lugares que eu jamais havia visto: cavernas onde a luz da floresta não tocava, nascentes que murmuravam idiomas esquecidos, bibliotecas enterradas sob as raízes de árvores eternas. Lá, aprendi a dominar aspectos da magia que estavam adormecidos — manipular energia por palavras, criar escudos vivos com minha própria essência, invocar memórias da floresta como se fossem entidades. Mas não fui a única. Arleo treinava incansavelmente com Elorik, aprimorando não apenas suas habilidades com a espada encantada, mas também seu vínculo com a floresta. Descobrimos que a marca no peito dele permitia canalizar a energia vital ao redor e usá-la como escudo ou lâmina viva. Em breve, ele não seria apenas meu guardião. Seria o guerreiro da luz. Leia, antes protegida e distante, pediu para aprender a usar ervas encantadas e rituais curativos. Sua empatia revelou um talento raro: ela conseguia sentir as dores emocionais das pessoas e aliviá-las com um toque. Pela primeira vez, senti que ela realmente estava ao meu lado. Milena despertou. Ainda frágil, mas transformada. A escuridão havia partido, mas as cicatrizes estavam presentes. Ela nos pediu para permitir sua permanência — não como prisioneira, mas como aprendiz. E com relutância, Elorik concordou. Milena treinava em silêncio. Às vezes sozinha, outras ao meu lado. Ela era observadora, precisa e dotada de uma magia estranha, que surgia apenas quando sentia amor ou raiva. Talvez, no fim, encontrasse um novo caminho. Foi nesse período que ele apareceu. Seu nome era Darek. Um jovem de cabelos escuros e olhos cor de âmbar, com um passado misterioso e uma aura calma que escondia uma força contida. Ele era um andarilho que havia ouvido os chamados da floresta após longos anos de exílio. Ao chegar, pediu abrigo — e quando seus olhos encontraram os de Milena, algo aconteceu. Milena tentou ignorá-lo. Era desconfiada, fria, e evitava qualquer ligação emocional. Mas Darek não recuava. Ele não a pressionava, apenas permanecia ali. Calado, paciente. Observando-a treinar. Oferecendo ajuda quando necessário. E aos poucos, ela começou a ceder. Primeiro com palavras, depois com sorrisos raros, e por fim, com olhares que duravam mais do que deveriam. — Você me vê como sou — disse ela uma noite, enquanto caminhavam entre as ruínas antigas. — Mesmo com toda a escuridão... você ainda fica. — Talvez seja porque a sua luz ainda não aprendeu a brilhar do jeito certo. E eu só quero estar aqui quando isso acontecer. — respondeu Darek, tocando sua mão com delicadeza. Enquanto isso, eu sentia cada vez mais equilíbrio dentro de mim. A união com Arleo se fortalecia não apenas por amor, mas por sintonia mágica. Nossos treinos juntos passavam a ser como danças entre faixas de luz e golpes precisos. À noite, deitávamos sob o céu estrelado e sentíamos as batidas dos nossos corações se sincronizarem. E em nossos momentos mais íntimos, a magia respondia, pulsando ao redor como uma promessa viva. — Você é minha luz e minha sombra — sussurrou ele, certa vez. — A única capaz de me fazer inteiro. — E você é o meu lar — respondi, entrelaçando os dedos aos dele. Durante uma cerimônia ao luar, as pedras da clareira acenderam-se espontaneamente quando dançamos juntos. Os anciãos disseram que aquilo era raro. Que era o símbolo da união sagrada entre dois corações destinados. A floresta os havia abençoado. Certa noite, durante um de meus treinos, consegui realizar algo inédito. Ao canalizar minha magia por inteiro, as faixas em minha pele não apenas brilharam — elas flutuaram no ar, formando símbolos vivos que giravam ao meu redor. As unhas se tornaram filetes de luz, e as asas pulsaram com intensidade como se a floresta batesse seu próprio coração em mim. Orcânico observava com reverência. — Você não está apenas ficando mais forte, Mayara. Você está se tornando o que os antigos chamavam de Vylereth — uma condutora entre mundos. Não sabia exatamente o que isso significava ainda, mas sentia... Que a próxima parte da nossa história nos levaria para fora da floresta. Onde o mundo dos homens ainda guardava feridas antigas. Onde a escuridão que um dia me sequestrou preparava seu retorno. Mas agora eu não estava mais sozinha. Eu tinha aliados. Eu tinha amor. E, acima de tudo, eu estava despertando completamente.
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