Carta de Teresa pouco antes de ingerir uma superdosagem de benzodiazepínico.
"Talvez se eu nunca tivesse tido acesso ao Alprazolam, um poderoso benzodiazepínico, eu nunca descobriria que alguns comprimidos são capazes de frear o tamborilar frenético, descompassado e descolado da realidade, do meu coração. Aliás, sou toda coração, desde que me lembro.
Quando penso em mim, eu posso me descrever como uma criança que tinha ideias muito criativas, imaginação fértil e, mais do que isso, ideias frutíferas e produtivas.Amava gibis e não sendo o bastante ler livros e gibis desde muito nova, eu criei o meu próprio gibi com folhas A4. Fiz os desenhos (para isso, nunca tive o menor talento), mas construí as histórias, as falas, um roteiro que me agradava. Escrevi com minhas próprias mãos, a história que eu gostaria de ler e ainda não havia encontrado nos gibis. Lembro da minha tia, que também foi minha professora no jardim de infância, me dizendo que desde quando eu não sabia escrever, eu já criava histórias e pedia que ela as escrevesse para mim. Me recordo também como no ensino fundamental eu criei uma história de terror e suspense que seria dividida em capítulos. Eu lia para os meus colegas em voz alta, e eles me pediam por mais capítulos. Foi a primeira vez que me senti escritora.Em 2016, eu publiquei um livro no w*****d, também do gênero suspense (meu favorito), na maiora plataforma de autores independentes. Recebi mais de 250 mil leituras e ganhei um prêmio da plataforma na categoria "estreia autoral".Eu recebia mensagens via inbox sobre quando teriam novos capítulos, e também propostas de editoras. Então me sentia ainda mais escritora. Só que eu já era, mesmo antes do reconhecimento de terceiros. Eu já era bem ali, naquele momento do passado, tão pequena no jardim I, pedindo que minha tia escrevesse uma história que eu mesma inventei. Talvez eu tenha nascido assim, apaixonada por histórias e por palavras. Porque elas sempre me encontram e eu sempre vou de encontro a elas. Numa tentativa de me salvar.Foi a partir delas que eu encontrei libertação em tantos momentos, que nada é mais simples do que revirar meu quarto e achar papéis, diários e cadernos cheios de escritos. Escritos em que eu exponho tudo o que eu sinto, com letras um tanto ilegíveis porque, em alguns momentos, as palavras simplesmente iam saltando do meu imaginário para a folha de papel, numa velocidade absurda que a minha mão não conseguia dar conta de acompanhar.A escrita acalmou minha ansiedade, minhas questões com transtornos de humor, desde a infância. Infelizmente, chegou um momento em que ela, por si só, não era mais suficiente. Colocar em palavras a angústia, já não a fazia ir embora como antes. Iniciei os tratamentos psiquiátrico (medicamentoso) e psicoterapêutico, e vivo neles, há um bom tempo. Porque parece que essas cápsulas mágicas conseguem apaziguar o tamborilar frenético do meu coração.A aceleração das ideias, a intensidade do medo, a sensação de que algo terrível vai acontecer a qualquer momento, e que não existe paz ou segurança em lugar algum.Escrever já não dava conta de frear esses impulsos. Para mim, não significa, nem jamais significará que ela não tenha sua eficácia terapêutica (inclusive, recomendo a todos), mas tratar dos nossos adoecimentos psíquicos é um trabalho. Gosto do termo "trabalho do luto" quando perdemos alguém, porque é mesmo um trabalho. Composto de estágios, recordações e elaborações. Mudar é sempre trabalhoso. Não há milagre. Não há milagre nas cápsulas mágicas, nem na minha escrita terapêutica. Há trabalho. Dói saber. Especialmente quando se está cansada demais dessa dinâmica. Desse trabalho não remunerado e desgastante.No entanto, a escrita exerce um poder sobre mim que vai muito além de uma estratégia terapêutica. É com a escrita que eu demonstro amor a quem amo, é com a escrita que eu crio histórias — e sempre amei histórias — é com ela que eu organizo o que está confuso. Com a escrita eu sinto de um jeito mais potente e profundo, que sou um corpo presente no mundo. Deixando algo especial nele, em minha breve passagem."