I'm so happy
'Cause today I've found my friends
They're in my head
I'm so ugly
But that's okay, 'cause so are you
We broke our mirrors
•••
Teresa conheceu um cara em uma boate, dessas abarrotadas de pessoas, em que ninguém consegue transitar sem se esbarrar. Era Junho, então inicialmente o clima junino pedia forró e afins. Ele a chamou para dançar, ao que ela respondeu que não sabia, mas dançou mesmo assim. O cara era bonito e, principalmente alto. Já fazia alguns meses que Teresa havia adquirido uma certa obsessão por homens altos (todos os seus ex namorados eram baixinhos). Ela topou dançar, de um jeito desajeitado mas, pouco importou a sua habilidade ou não para danças juninas. Teresa estava muito bonita. Havia feito preenchimento lábio há mais de uma semana então comumente encarava o próprio reflexo no espelho para checar se o resultado estava mesmo muito bom. Ainda sentia que sua boca não estava carnuda o suficiente. Acontece que pensar que qualquer coisa em sua vida era suficiente, era algo demasiado difícil para uma pessoa cujo exercício da gratidão e da aceitação sempre foram plenamente renegados. Esqeucidos na caixinha dos sentimentos... dos bons sentimentos. Substituídos pela insatisfação constante, visão deturpada de si mesma, desejo constante de ter o que não se tem (como todo mundo, é claro, não há nenhum comportamento alienígena aqui). A sociedade de consumo, midiática, da obsolência programada dos produtos, dos corpos, dos padrões, certamente são os principais culpados, e não Teresa se encarando no espelho para checar se seus lábios estavam volumosos o bastante.
Ela também havia recém feito luzes no cabelo, e vestia um dos seus vestidos preferidos, com uma jaqueta de couro preta, pois era inverno, mesmo que na Bahia, e um salto que lhe dava ares de mulher madura, adulta, muito segura de si.
A dança se transformou em beijo, em trocas de redes sociais, e em um encontro no decorrer da semana, que a fez notar como ainda era apegada ao passado. Ao transarem, Teresa pensava a todo instante em duas pessoas específicas que lhe marcaram muito, e esses flashbacks involuntários a incomodavam. Será que todos faziam isso? Será que isso era um traço borderline? Esse apego aos afetos passados. No entanto, ela deu o melhor de si, e tentou focar totalmente naquela pessoa que estava ali diante dela. Uma pessoa com ideias, com uma personalidade, com uma história, e com traços que ela deveria conhecer. Ele era atraente e ambos tinham interesses em comum.
Dormiram juntos, e no outro dia de manhã, ao se despedirem, Teresa sentiu seu coração se inflamar de expectativas. Nada novo sob o sol. Imaginava como seria a conhecer a família dela que morava em outra cidade, ou mesmo o que fariam sendo de religiões diferentes, ou como seriam as saídas com os seus amigos. Pensou em cada pequeno detalhe de um relacionamento que não existia. Então se deu conta do que se tratava esse planejamento tão antecipado, irreal, ilusório, tão pouco firmado na realidade mesma das coisas como elas são. Se tratava do seu desejo desenfreado de ter alguém.
É, Teresa era boa em mentir para si mesma. Em dizer que estava ótima sendo solteira há bem mais de um ano, curtindo a própria companhia e focando em seus objetivos profissionais. Só que chegou a hora de ser sincera consigo mesma, porque só a verdade liberta (mais um clichê que deve estar presente em trilhões de textos por aí), mas é isso. Querendo ou não, é isso. Amamos mentir para nós mesmos porque a verdade dói, e como bons seres humanos, dotados da capacidade de autoproteção, de defesa, de fuga da dor e busca pelo prazer, nós mentimos como defesa. Mentimos para nós mesmos, mentimos para o outro mas, sempre como defesa. Sempre fuga da dor.
Só que essa dor nada mais é do que a realidade em si, e ela nos persegue. Simplesmente corre atrás de nós como onça selvagem caçando uma presa. A realidade te encontra mesmo quando você não quer vê-la. E te machuca, mesmo quando você desejaria que ela tivesse sumido para bem distante.
Teresa sabia que estava, novamente, assim como em outras vezes, se precipitando, criando ilusões, relacionamentos que podem nunca vir a acontecer, preocupações que não deveriam existir porque não condizem com a realidade em que ela está inserida. Por pura carência. Por puro desejo de se sentir completa. Como doía não se sentir completa e ainda precisar de alguém que lhe trouxesse essa falsa sensação de completude.
Mesmo assim, como é libertador reconhecer que é disso que se trata esses planejamentos sem embasamento. O futuro iria dizer se esse encontro geraria frutos ou não passaria de beijos em uma boate, uma dança desajeitada, e um s**o que foi prazeroso, mas sem amor. Teresa sentia muita falta do s**o com amor, com i********e, com olhar nos olhos. Parecia, às vezes, que nunca mais ela teria isso de novo. Esse pensamento lhe afligia, porém, a afligia muito mais a ideia de continuar mentindo e enganando a si mesma.
Esse sujeito, pode até ser mesmo incrível e querer o meu bem, pensou Teresa, contemplando as luzes da cidade, da sua janela, enquanto acendia um cigarro mentolado e escutava Peabiru do Almir Sater, mas ele não é mais importante do que a realidade. Eu quero me agarrar nela, dessa vez. Mais do que isso, eu quero me agarrar em mim, num abraço apertado dado em si mesma. Quero ter certeza de que, quem quer que entre em minha vida, nunca será com o intuito de me completar, porque já sou completa. Teresa lembrou das medicações...
Sobre o lítio, sinto que a sua função estabilizadora do humor tem contribuído para tantos insights positivos sobre a minha vida, minhas escolhas e minhas percepções. Só não quero permitir que o lítio ganhe todo o mérito disso. As sinapses são minhas, a neuroplasticidade é minha, das minhas narrativas transformadoras. É o lítio quem me permite pensar com mais clareza, mas o ser pensante por trás das duas doses diárias de lítio, sou eu. Determinou Teresa, apagando o que restou do cigarro, preparando-se para dormir.