Quando Teresa tinha 10 anos, a emissora de televão SBT reprisava a novela Pantanal (da extinta TV Manchete, exibida nos anos 90, bem antes de Teresa nascer). Os pais dela nunca a proibíram de assistir novelas, quaisquer que fossem, mesmo sendo muito nova. Uma de suas memórias mais marcantes, foi de quando, aos 4 anos de idade, chorou com a cena final da novela Porto dos Milagres. Havia uma cena especificamente, em que uma mulher se enforcava. Essa imagem nunca saiu da memória de Teresa.
Naquela época, essas imagens impactaram Teresa que, mesmo tão criança e com tão pouca compreensão acerca daqueles acontecimentos, sentiu dor, lamentou aquela cena, de modo tão empático. Teres, naquela época, jamais poderia imaginar que, muitos anos depois, assim como Cecília a personagem em Porto dos Milagres, ela iria desejar fazer o mesmo. Diversas vezes.
Em 9 de Junho de 2008, Teresa tinha 10 anos, e seu costume de assistir novelas até tarde ainda era um hábito bem estabelecido. Teresa era fascinada por histórias que se cruzavam de maneira inesperada, por amores que podiam ser eternos, por destinos traçados, dramas que tornam a vida menos monótona, reviravoltas que deixam tudo menos entendiante. Não sei se, naquela época, tão nova, Teresa já era uma pequena border. Viciada em sentir. E não suficiente, sentir intensamente.
Também havia o fator que aqui acho importante considerar: Teresa encarnava esses personagens. Tudo bem, isso é coisa de criança. Quem nunca imaginou que seria um ser herói e quebrou os dentes ao cair no chão após perceber que não sabia voar?
A personagem de Teresa e sua incorporação, com apenas 10 anos, era Juma Marruá. Teresa era motivo de piada na escola, porque ficava sentando como Juma sentava e, mais do que isso, abria os dentes como sinal de que estava com "reiva".
Juma era o grande e eterno amor da vida de Teresa, uma onça pura e encantada. Filha de Maria Marruá, sozinha, isolada, morando em sua tapera, defendendo-se dos possíveis perigos, com sua espingarda sempre a postos. Vigilante, sempre em alerta. Era assim que Teresa vivia no decorrer da sua infância. Se ela tivesse uma espingarda, certamente deixaria debaixo da cama, para se proteger dos inúmeros perigos imaginários que a sua psique ansiosa e assustada, acreditava que existiam.
Diário de Teresa
25/05
Deitada em minha cama, refleti sobre meu desejo de finalmente morar sozinha, como se escondida em minha tapera, longe dos perigos. Assim como Juma. Pensei no meu profundo fascínio por essa personagem, e o que, simbolicamente, ela representava para mim. Nesse caso, os perigos, dos quais eu me defenderia com "reiva", seriam as invasões, as opiniões, as tentativas enfadonhas de me ajudarem a sair desse buraco. Um buraco que eles sequer conhecem. Nunca foram. Nunca visitaram. É enfadonho ouvir discursos - com as melhores das intenções - de pessoas que não sentem o que você está sentindo. E tudo bem, afinal, são com boas intenções e eu, com toda certeza, também não sou capaz de sentir o que eles sentem, mesmo que eu presuma que sim. Pura filosofia, e aquele blá-blá-blá clichê e cafona de que cada ser humano é um universo.
Eu pagaria uma vida de ida e volta para esse vazio profundo, essa distorção da realidade e essa falta de sentido na vida. Pagaria essas passagens para que os que me rodeiam, voltassem com suas apuradas impressões. Talvez me vissem de um jeito novo. Talvez, deixassem de agir sem o devido tato e compreensão que só possui quem vivencia essas mesmas duras e voláteis emoções.
Se essa viagem de ida e volta acontecesse, talvez seja até possível que eles compreendessem quando não queremos mais viver. Só que, com toda sinceridade, não estou aqui para entrarmos novamente nos assuntos sobre ideações suicidas. O lítio tem me ajudado a afasta-las. E meu objetivo nesses escritos, ora em primeira pessoa, ora como narrador observador, é que encontremos, juntos, um caminho. E vamos conseguir.
Eu sei que talvez você já tenha pensado nisso... em acabar de vez com tudo. Para ser franca, eu pensei, planejei, e quase executei há minutos atrás. No entanto, cá estou redigindo essas palavras que, quem sabe te produzam acalento.
O acalento de saber que vai passar, embora não pareça. Eu estava determinada a dar um ponto final, e agora estou fazendo aquilo que mais amo em minha vida: escrever. Eu espero que você, leitor, encontre a sua paixão, porque ela existe. E lhe digo mais, não se trata de uma pessoa, um grande amor. Se trata de algo que você construírá com suas próximas mãos, e então perceberá que o amor está em tudo e mais além. Gosto de pensar naquela cena do filme Ghost em que os dois, juntos, fazem um vaso com barro, como lapidando um objeto em conjunto. As quatro mãos construindo algo novo, do barro. Como Deus ao nos fazer. Como tudo que é feito a partir de uma matéria que parece nada, até se tornar algo imenso. Como quando a gente se sente um nada, nos momentos de crise depressiva. Apenas um pouco e qualquer quantidade de barro, esperando uma lapidação que demora, ou não. Nunca dá para saber, ou prever. Essa é a dura verdade do Borderline, eu sou um mistério para mim mesma. Uma matéria, um pouco de barro, se lapidando com as mãos alheias, meio solta, meio morta.
Então respiro um instante, passo os meus olhos sobre todas essas letras e trechos... lembro das coisas construídas por minhas mãos e imaginação. Então vem o lampejo, que é do que esse livro se trata. Não são mãos alheias modelando o vaso. Eu me destruo e então me reconstruo com as minhas próprias mãos.
Eu sinto muito por ser assim tão ingrata e arredia. Sei, por exemplo que não posso beber exageradamente por fazer uso da sertralina e do lítio, além do alprazolam (em excesso e de maneira inapropriada, devido a dependência do benzodiazepínico) para conseguir uma miserável paz de espírito. Quando meus amigos me confrontam sobre minha irresponsabilidade com o exagero quanto a quantidade de álcool que bebo aos finais de semana, me sinto como passarinho preso na gaiola.
Se não posso ficar insana, fazer loucuras sem sentido, esquecendo por algumas horas que o mundo real existe, que os problemas estão à espreita e retornarão na segunda-feira. Se não tenho essa válvula de escape que utilizo desde os 14 anos (meu início precoce das bebedeiras), como vou me divertir? E, mais do que isso, como vou, finalmente, fugir de mim?
Meu corpo já desenvolveu uma tolerância absurda ao uso do alprazolam, o que significa que mesmo doses exorbitantes, não causarão mais nenhum grande relaxamento. Apenas ficarei grogue como estou me sentindo agora, cambaleando pelos cantos da casa, mas completamente consciente. Exceto por palavras que troco, sem perceber, e logo corrijo por me dar conta de que meu cébrero já não está funcionando do modo mais adequado.
Sobre Juma Marruá, tatuei recentemente (em uma crise eufórica em que também pintei o cabelo e fiz preenchimento labial), uma onça pintada que ficou incrivelmente linda.
Com todas essas mudanças eu me senti linda, e senti por um momento que toda aquela euforia e alegria não passariam. Mas passaram.
Como um elefante pesado que se apodera do seu corpo, não lhe deixando levantar, tomar banho, fazer higienes básicas. Um elefante que eu vou apelidar de Border. Acho h******l quando nos denominam de "borders", porque, primeiramente, me chamo Teresa, e border é só uma parte significativa do que eu sou mas, não me define. Eu não vou me deixar ser definida por isso. Quando o elefante Border me invade, eu sinto vontade de me agachar onde quer que eu esteja, porque a força vai embora de forma instantânea, e eu só consigo pensar: ele voltou.
Mal posso descrever o pesar dessa visita, que as vezes dura 3 ou 4 dias, até uma semana. Então vou me recuperando aos poucos, com cuidado, com medo de esboçar felicidade demais e ele decidir me visitar de supetão. Tento manter a apatia como se dissesse "ei, nem estou feliz assim, não precisa vir estragar tudo".
Tatuar a onça pintada, simboliza p******o, força, cuidado com o seu território. Também simboliza Juma, apegada a sua tapera, defendendo-se sozinha dos desconhecidos que apareciam em seu território. Simboliza força, coragem, independência e solitude. Tudo isso, Juma me ensinou com seu jeito de ser. Registrar em minha pele esse simbolismo, é sempre me recordar que eu jamais perderei a esperança de perseguir esses mesmos atributos.
Para ser bem sincera, eu já me considero forte e guerreira. Pelo simples fato de ainda insistir em estar viva.