Te imagino como o oceano, amplo, imenso, vai além do horizonte que podemos alcançar com os olhos. Sua prima já te comparou com o sol, que a tudo ilumina, o astro rei o qual todos os planetas orbitam ao redor. Ela disse isso ao se tratar da sua relação com os seus amigos, que são quase como seus fiéis escudeiros, e você é mesmo o astro rei, respeitável e líder do bando. No entanto, embora respingos dessa descrição recaiam sobre nossa relação, não-relação no momento, eu pensei ontem em uma outra analogia. Te via imenso como um oceano, misterioso, cheio de fragmentos que eu desconhecia, com ondas que eu não seria capaz de pular. Me via como um pequeno coral desse mar, cheio de buracos-cicatrizes, deixadas pelas marcas das águas sempre em movimento, como você. No entanto, o coral, ali fincado na areia, não se mexe, aguenta os buracos-cicatrizes deixados pela água e pelo tempo. Fincada na areia, eu me recuso a sair, a ir para outro lugar. Não há outro lugar para um coral, senão no oceano. Era assim que eu pensava. Quantas vezes, ao seu lado na cama, antes de dormir, orei e pedi para Deus que você nunca me deixasse. Para onde um coral iria se o oceano o deixar?
Acontece que, quando a maré baixa, as pessoas olham os corais, e descobrem neles, pedras bonitas, algumas até preciosas. Quando a maré baixa, o coral é visto, não é mais encoberto pela imensidão do oceano. As pessoas exploram os corais, sentem curiosidade em vê-los, tiram fotos, descobrem mistérios antes escondidos pelo mar. Foi assim quando você partiu, quando a maré baixou, e eu me fiz vista. Então as pessoas diziam que viam um brilho diferente em mim, e diziam que nunca conheciam aquele "meu lado" antes. Qual lado? O lado das pedras bonitas e até preciosas que a maré permite ver quando baixa. Os sorrisos, as danças, a minha simpatia e cordialidade sempre escondidas pelos buracos-cicatrizes que você constantemente deixava. Eu dançava, com um novo par, e esse par me ensinava a ser feliz com as pequenas e também com as grandes coisas. Esse novo par, me fazia rir dos pequenos detalhes, dançava comigo, me via pular, gritar, rir e perguntar, um dia, em Trancoso, "Então isso é ser feliz?". Esse par era oceano também. Mar de águas cristalinas, por seu excesso de transparência. Como eu. Esse mar de águas cristalinas, nunca encobriu o coral, ao contrário, viu beleza no coral e o fez sempre exposto para que todos o olhassem. Esse mar, queria que os outros também vissem as suas pedras bonitas, os seus sorrisos e danças. Esse mar queria compartilhar com o mundo a beleza do coral. Foi com esse par dançante, alegre e m*l visto pelas pessoas que não sabem da sua grandeza, que eu me reconheci. Através desse par, eu me encontrei, perdida que estava, em meio às ondas devastadoras que me causavam buracos a todo momento. Buracos que eu tentava contornar com esperança, com persistência, com o sonho encantado e não concretizado, de que viveríamos juntos para sempre. Me dói não conseguir mais ter raiva das cicatrizes, porque o perdão foi pedido, e eu perdoei. Não há mais raiva. Enquanto havia raiva, eu conseguia seguir em minha doce ilusão de que você não habitava mais em mim, que a vida havia ido em frente e agora só restava uma mágoa e nada mais. Bastou o ódio ir embora, que tudo retornou. Me sinto coral de novo, coberta por buracos, dessa vez, não causados por você, mas pela falta que você faz. Quando estava comigo, havia uma constante falta, a falta da sua atenção, do seu respeito e da sua admiração, uma falta que me fazia buracos imensos. Hoje, os buracos parecem ainda mais perversos, pois se tratam, simplesmente, da falta que a falta faz.
Escrito em 25/07/2022:
Escrevo tudo isso enquanto peço a Cristo, aos santos que sou devota, como São Pedro, Santa Maria mãe de Deus, Santo Agostinho, Santa Teresinha e outros que já ouvi falar. Pedindo que intercedam da igreja celestial por um único pedido, uma única prece: ter você de volta.
Eu não sei como isso vai acontecer, mas Deus tem formas misteriosas e surpreendentes de agir, e eu confio nessas formas. Só que você me conhece às vezes melhor que eu mesma, e sabe da minha agonia, da minha ansiedade e impulsividade. Eu quero tudo na hora, tudo pra ontem. Enfio os pés pelas mãos, me lançando no abismo sem pensar, falo sem pensar. Talvez daí minha identificação com São Pedro. Mas se ele foi digno das chaves do céu, seu coração deve ser bom. Como você me disse que o meu era.
Desde aquela nossa conversa eu não sei o que fazer. Quando você me disse que ainda sonha comigo, e eu aqui sonhando que invado sua casa, como se estivesse de um jeito simbólico te invadindo. Como se houvesse uma conexão quase que sobrenatural entre nós. No fundo, eu sinto que nasci para ser sua. Eu sinto isso nos sonhos que são sempre tão reais. Em todos os meus sonhos você tá vivendo uma indecisão terrível, entre o certo e o duvidoso. Uma dúvida entre eu e ela. Sempre há esse componente nos meus sonhos e sinceramente não sei se é isso que se passa no seu coração, mas se for, é loucura isso invadir os meus sonhos. Como se eu tivesse uma conexão tão bizarra com você a ponto de sonhar com o que você sente. Eu invado sua casa, eu te invado, no universo onírico. Eu te busco, te procuro. Me dói quase nunca te ver, me dói as vezes lembrar de quando eu chorava e você contava piadas ruins. Me dói não pegar no seu cabelo, no seu nariz fino, no formato perfeito da sua boca. Eu lembro com uma precisão assustadora o momento que você cantou uma música cuja letra tinha "seu corpo sem defeitos" e você virou pra mim e disse que pensava isso de mim. Eu acho que não tive reação. Era tão lindo escutar isso. Lembro de dormir em seu quarto em um rock na sua casa, e você entrar no quarto, me cobrir e dizer "princesa", estando bebado. Eu escutei e fingi continuar dormindo porque achei tão fofo e ao mesmo tempo tão engraçado. Eu amava te chatear e depois te encher de beijos até que você se derretesse e se entregasse. Eu sinto falta da maciez dos seus lábios, do seu nariz fino, sinto falta de quando você me imitava dentuça. Quando assistia quilos mortais aos domingos. Eu sinto falta de cada risada i****a. Só que mais do que sentir falta de todas essas coisas e tantas outras, eu sinto que você mora em mim. Como se fosse um hospedeiro. Um hóspede que se recusa a sair do meu peito. Tem 2 anos, e tanta coisa aconteceu, mas eu não consigo deixar de pensar que ainda vou entrar na igreja com meu buquê, um terço feito por sua mãe e você estará no altar à minha espera. E então eu vou sentir que tudo fez sentido. Eu vou sentir que demos a volta por cima e só precisávamos nos distanciar por uns anos pra nós darmos conta dos nossos próprios erros, e conseguir dar continuidade àquilo que nunca teve fim. Um recomeço de duas pessoas verdadeiramente maduras. Eu passei a acreditar em almas gêmeas quando me dei conta de que em 2 anos, você segue grudado em meu peito, como se nada ou ninguém fosse capaz de te tirar. Eu sinto que sou sua. Totalmente sua. Eu só queria que Deus me ouvisse. Eu só queria que algo mágico acontecesse. E você estivesse na porta da minha casa para que eu olhasse no fundo dos seus olhos amendoados, o quanto você é o amor da minha vida e eu mudaria qualquer coisa por você.