Acordo com o som irritante do meu celular gritando a todo vapor. Quem está me ligando a uma hora dessas? Tento abrir os olhos, mas está difícil, uma vez que estou com a sensação de que não dormi nada na noite anterior. Com muita dificuldade, consigo me sentar na cama e constato que é o despertador do celular. Gustavo não voltou ontem à noite, fato que me deixa chateada porque mais uma vez fui deixada de lado enquanto a outra parte de mim parece aliviada por poder ter tido uma noite tranquila de sono.
Levanto-me da cama e obrigo o meu cérebro a passar os comandos para os meus pés para que eles consigam me levar até o banheiro.
Depois de tomar um banho relaxante, vestir o meu mais novo uniforme, que consiste em uma blusa branca com um lenço horroroso embutido na gola e um conjuntinho preto de saia e blazer. Olho-me no espelho, fazendo uma careta, e constato que pareço mais uma aeromoça com o coque bem feito e usando saltos altos.
Resolvo colocar uma sombra em minhas pálpebras para acentuar os meus olhos verdes e esfumaçá-los um pouco. Na boca, opto por um batom nude.
Pego as minhas marmitas com frutas e legumes para comer de três em três horas e a minha bolsa, saindo logo em seguida de casa.
A empresa fica no Centro do Rio e moro no Grajaú, fato que me faz pegar um ônibus até lá, fato que me permite alguns minutos para escutar a playlist do meu celular.
Ao chegar no prédio em que trabalho, cumprimento as recepcionistas e entro no elevador. Viro-me para o espelho e vejo que meus cabelos parecem um emaranhado castanho, provavelmente proveniente do vento do ônibus. Ajeito como posso com a ponta dos dedos, pensando no quanto eles estão compridos ao baterem na altura de minha b***a.
Assim que chego em meu andar, saio do elevador dando de cara com as mesmas recepcionistas do escritório. Dou um "bom dia" para todas e como sempre recebo os habituais sorrisos amarelos.
Nada de novo...
Ando até a presidência e sento-me em minha cadeira. Depois de pedir a Bernadete para guardar a minha marmita na geladeira, preparo a agenda de Andrew e de Marla.
Por volta das nove horas, minha chefe entra em seu escritório, e pouco tempo depois, Andrew aparece na recepção segurando dois copos grandes de café. Observo-o entrar na sala de Marla, demorar alguns minutos lá dentro e sair logo em seguida.
— Good morning, senhorita Teixeira — ele m*l olha para mim, entrando em sua sala feito um trovão. Um sorriso de escarnio surge em meus lábios e reviro os olhos.
— Bom dia, doutor! — Automaticamente, mostro o meu dedo do meio para a porta, já fechada, de seu escritório, e penso: Tomara que tenha um péssimo dia!
Nesse momento, arregalo os olhos. Procuro por câmeras pelos cantos da recepção, porém, por sorte, não vejo nenhuma. O telefone toca, e reconheço o ramal do meu chefe.
— Presidência — falo sem vontade.
— Me passe a minha agenda. — E simplesmente desliga na minha cara. Aff, que cara grosso!
Faço o que me pede, enviando a bendita agenda virtual para ele e para Marla através do e-mail, e em seguida pego o meu celular:
Grupo daZamigas.
(Eu 09:22) Vocês não sabem da última
(Luce 09:24) Oi migas, amo vocês. Fala logo, merda!
(Laura 09:24) Oieeee saudades. Credo Luce, quanto amor.
(Luce 09:25) p***a de amor o caraio. Fala logo! E pelo amor de papai. Se for para falar sobre o gigolô sem cacife do Gustavo, eu vou fazer questão de te tirar a libido!
(Eu 09:27) Cruzes, eu hein, tá bom, confesso que fiquei com ele anteontem, mas a teia já tava grande, amiga, releva. Não deu para aguentar
(Luce 09:28) Tomara que caia a sua perseguida ou aquilo q ele chama de p*u! E garanto que deve ser pequeno!
(Laura 09:29) Você é má, Luce kkkkk fala amiga, antes que tu desista.
(Eu 09:31) Vira essa boca para lá, Luce, eu hein. Praga! Kkk Bom, vocês não fazem ideia quem é o meu mais novo chefe. Alguma sugestão?
(Luce 09:31) Ainda não me deram bola de cristal, criatura
(Laura 09:32) Sei não. Fala logo, amiga! Não é a Izabela, não, né? Vai que o marido dela... sei lá.
(Luce 09:33) Ahahahhaha coitado do corno kkkkk além de corno e burro, vai morrer pobre.
Izabela é minha ex cunhada, irmã de Gustavo. Ela trabalhava na mansão junto comigo e Laura, porém era apaixonada pelo Nikolas. Ela tentou fazer algumas intrigas entre os dois e, no fim, Nikolas acabou colocando-a no lugar dela como funcionária da casa; era isso ou rua. Todavia, com o tempo, ela conseguiu trabalho noutra casa de família, e parece que de tanto dar em cima do patrão, conseguiu fazê-lo se divorciar da esposa dele e casar-se com ela. O cara tem o triplo de sua idade, mas cada um carrega a cruz que merece. E, nesse caso, eu realmente sinto pena dele.
(Eu 09:33) Antes fosse ela! Lembram do Andrew, amigo do Nick? Bom, é exatamente ele.
(Laura 09:34) O queeeeê?
(Luce 09:34) Sério???? O tesudo, garanhão, Deus de Asgard e dono do sorriso mais perfeito do mundooooo? Aquele homem com cara de "vou te f***r devagar e sempre"???? Mulher, e tu tá pensando no gigolô sem cacife???
(Laura 09:34) Luce, menos!
(Luce 09:35) Como menos, mulher?? Mais, muito mais, multiplica senhor!
(Eu 09:35) Ele nem tá tudo isso! — minto.
(Laura 09:36) Porraaa kkkk sério, mas e aí? O que tu falou? O que ele falou, Duda?
(Eu 09:36) O que ele falou? Ele é um babaca, Lau. Está sendo um grosseirão. Totalmente diferente da época de ter sido seu padrinho de casamento! E para melhorar, ainda tem a minha outra chefe, que parece ser pior que ele, e há rumores que eles se pegam dentro e fora da empresa.
(Luce 09:36) Amiga, se ele é grosseiro, cê precisa descobrir a grossura, entende?
(Eu 09:36) Eca, Luce! Credo! kkkk
(Laura 09:37) kkkkkkkkkkkk p***a Luce, só você, sério kkkkkkkkkkkk mas, Duda, cê lembra que falavam a mesma coisa da Izabela e do Nick, né? E no final, não tinham nada!
(Eu 09:37) Pois acho que é verdade! Mesmo porquê, que se dane também.... Eles que são brancos que se entendam...
(Luce 09:37) Quero nem saber, preciso de mais detalhes, temos que sair no sábado!
(Laura 09:38) Por mim, tudo bem.
(Eu 09:39) Por mim, também. Bom, meninas, preciso voltar a trabalhar.
(Laura 09:40) Beijinhos...
(Luce 09:40) Ebaaaa! Bjos.
A parte da manhã passa rapidamente. À tarde, Marla entra na sala de Andrew e tranca-se lá dentro com ele por horas.
No começo, achei que estivessem tendo alguma reunião, mas quando escuto a quantidade de gemidos que vem de lá de dentro, tento focar no que diz respeito ao meu trabalho, mas está meio complicado no momento.
Ligo no mesmo instante para Beth.
— Oi — diz ao me atender.
— Me distraia! — falo simplesmente. Ela fica muda por alguns minutos e logo depois começa a rir descontroladamente.
— Eles estão transando de novo? — gargalha.
— Isso é sério mesmo? Eu não estou tendo um pesadelo, não? Não é fruto da minha imaginação? — Ela responde que não. — Tem certeza? — pergunto rindo, e é nesse momento que escuto Marla gritar o nome de Andrew alto demais. Arregalo os olhos e me limito a rir ainda mais.
— Meu Deus! O barulho tá alto, sabia? — falo baixinho enquanto Beth gargalha do outro lado da linha.
— p***a, sorte sua que ele viajará no fim de semana. Ficará alguns dias fora.
— Sério? Ai, menos m*l, eu não iria aguentar mais um dia assim.
Ouço Marla soltar um rosnado, como se fosse um gato no cio, e tampo os meus ouvidos com ambas as mãos.
— Cara, isso é sempre que a Marla está na empresa, se acostume!
— Me acostumar? Isso é insano demais. Será que foi por isso que a última secretária se mandou? — pergunto com certa curiosidade no assunto.
— A Dulce? Não.... Ela se aposentou, coitada. Estava velha demais! Acho que deveria até se animar quando rolava algo, porque aquela lá não deveria conseguir fazer mais nada. — ela ri mais alto ainda.
— Coitada da senhorinha, porque com certeza ouvir a Marla gemer igual a um animal no cio não é música para os ouvidos de ninguém.
Depois de um certo tempo, o barulho diminui e em seguida desligamos o telefone. Não quero que eles saiam da sala e me encontrem falando no telefone apenas para constatar o óbvio. Procuro algo na tela do computador para tentar disfarçar o meu constrangimento. Acredito que meu rosto esteja da cor de um tomate.
Depois de alguns minutos, Marla sai da sala com os cabelos desarrumados e com os lábios vermelhos e inchados.
Passa um longo tempo, e finalmente Andrew sai da sala vestido com o mesmo terno preto que vestia mais cedo, porém, ao contrário de sua sócia, seus cabelos estão impecavelmente arrumados em um coque alto e seu terno perfeitamente ajustado em seu corpo. Seus olhos azuis me fitam e noto um brilho a mais neles. Ele passeia as mãos pela barba espessa e encaminha-se para fora.
Me distraio olhando para o seu porte e noto o quanto ele parece alto e forte mesmo trajando o seu terno. Ainda que seu corpo seja atlético, ele ainda possui coxas moderadamente grossas e ombros largos. Seu andar impecavelmente elegante, apenas me faz lembrar dos gemidos que saiam de sua sala, e acabo me imaginando no lugar de Marla.
Droga, Duda, está pensando merda!
++++
À tardinha, assim que observo que são cinco horas da tarde, desligo o meu computador e pego a minha bolsa para ir embora. Olho para a porta do escritório o meu chefe e suspiro alto. Será que em algum dia conseguiremos nos entender profissionalmente sem que haja esse buraco entre nós? Sem mais alternativas, encaminho-me até a recepção principal e noto que já não tem mais ninguém. Aperto o botão do elevador, porém constato que esqueci a minha marmita.
— Merda! — sibilo voltando em direção à presidência. Assim que viro no segundo corredor, bato de frente com uma parede de músculos e quase tombaria para trás se não fosse por duas mãos fortes que me seguram habilmente.
À primeiro momento, sinto apenas o frescor de uma loção suave inebriar as minhas narinas. Abro os olhos lentamente e tamanho é meu susto ao dar de cara com o meu chefe com os cabelos revoltos, as pontas douradas batendo praticamente em meu rosto, e suas safiras cristalinas parecendo bem atentas.
— Desculpe, doutor. — Sinto muitas bochechas coradas. Noto que ele está usando apenas uma blusa social branca, que está aberta nos primeiros botões, e um colete cinza. Estamos com nossos rostos próximos demais e observo quando seus olhos recaem sobre os meus lábios.
— Tudo bem, senhorita Teixeira. Acontece... — Um fio de voz rouco sai de sua garganta.
Sinto o meu coração acelerar quando me perco no oceano azul que são seus olhos. Aonde suas mãos ainda seguram a minha pele com firmeza, sinto seus dedos roçarem lentamente, e, sob a luz fraca do corredor, o meu raciocínio se torna ainda mais difícil. O quente de seu hálito em meu rosto, apenas causa uma combustão gostosa em meu corpo e m*l consigo sentir as minhas pernas.
— Eu preciso...
— Eu sei... — Ele não diz mais nada quando se afasta de mim bruscamente e caminha em direção a diretoria.
Respiro fundo e saio do escritório em seguida. f**a-se a minha marmita!