Pré-visualização gratuita Capítulo 1 — O Morro que Respira
O Morro do Alemão acordava devagar, como um gigante preguiçoso que espreguiça entre a névoa da manhã. Os barracos se acendiam um a um, janelas se abrindo para o sol que subia por trás das antenas, e o cheiro de café passado na hora se misturava ao som distante de um funk que ainda rolava de alguma festa que não tinha acabado. Ali em cima, a vida tinha um ritmo próprio, uma batida que ninguém de fora entendia.
Na casa de tijolos à vista, pintada de azul-claro, o Pastor Elias já estava de pé antes do g**o. Homem de mãos grossas e voz grave, ele abria a Bíblia na mesa da cozinha enquanto Dona Ruth, sua mulher, virava ovos na frigideira. Os cabelos dela, já grisalhos nas têmporas, eram presos num coque frouxo, e os olhos verdes, os mesmos que ela tinha dado às três filhas, brilhavam com a paciência de quem criou três mulheres dentro de um morro.
As três ainda dormiam, cada uma no seu canto da casa pequena. Mariana, a mais velha, tinha vinte e seis anos, cabelos compridos e lisos que ela prendia num r**o de cavalo sempre que ia para o quartel. Maiara, do meio, vinte e quatro, cortava os cabelos curtos e ondulados, e já estava de jaleco quando o sol raiava, porque o plantão no hospital não esperava ninguém. E Marília, a caçula, vinte e dois, com aquela cabeleira comprida e ondulada e a franja que caía sobre os olhos verdes, era a que o pai mais protegia, a menina dos olhos dele.
O Pastor Elias olhou para a foto da família na parede, suspirou e fechou a Bíblia. "Senhor, guarda as minhas três filhas", murmurou. Ele não sabia, naquela manhã, que o morro que ele chamava de pacificado ainda guardava segredos que iam testar a fé de todos eles.