Pré-visualização gratuita 1 - O Maestro do Abismo
O d***o era dono de muitos nomes; todos eles de domínio público, nenhum deles capaz de descrever sua verdadeira natureza. Há milênios, antes do exílio, ele fora a própria personificação da Luz, os tambores da fundação do mundo. Mas a ideia de se curvar a esculturas de barro e sopro divino? Aquilo nunca desceu bem por sua garganta de querubim.
Como todo filho que ousa desafiar o regente, ele foi expulso do coro. Enviado para as profundezas, Lúcifer tornou-se o motor térmico da Terra, acorrentado ao núcleo para garantir que o mundo dos homens continuasse girando enquanto ele governava um subsolo de miséria e enxofre.
Por eras, ele colheu almas tão perversas quanto o próprio cerne, um trabalho burocrático e exaustivo. De vez em quando, pelas fissuras da crosta, ele se permitia sussurrar. Ele nunca obrigava; apenas encorajava os pecados que a humanidade já carregava no sangue como uma herança maldita. Através dessas fendas, ele assistia ao declínio. E, p***a, como ele desejava voar de volta ao Trono apenas para gritar ao Pai que ele sempre estivera certo: a humanidade estava desmoronando sob o peso da própria ignorância.
Para os devotos, o fim seria o Apocalipse Bíblico — uma piada de mau gosto para Lúcifer. Ele não aceitaria o papel de vilão coadjuvante na peça teatral do "Velho". Para ele, o fim do mundo significava apenas mais combustível para suas fornalhas fedidas.
Mas Lúcifer não odiava tudo o que vinha da superfície. Ele tinha uma fraqueza pela dor transformada em arte, como o blues de Robert Johnson. E, ao contrário do que dizia a lenda das encruzilhadas, Johnson nunca pisou no Inferno. Ele era apenas um homem louco e genial que aprendera a fazer o violão chorar. Lúcifer pessoalmente riscara o nome dele da lista de cobrança — um gesto de bondade estética, ou ao menos era assim que ele justificava sua clemência.
Naquele momento, ele estava há vinte minutos tentando sintonizar as correntes magnéticas do planeta para reencontrar a frequência daquele blues antigo. Não era uma tarefa simples, mesmo para um ex-mestre de coro, mas era possível. Contudo, no meio da estática de rádio e do estalar das chamas, uma voz quebrada o fez estacar.
"Deus... Qualquer um… Por favor... Salve minha mãe. Ela é a única que me restou."
Era uma voz feminina, mezzo-soprano, mas o timbre estava devastado por soluços que interrompiam a frase sem permissão. Aquela prece não era fé; era pura distorção harmônica. Era dor.
"Eu faço qualquer coisa. Me leve no lugar dela. Por favor."
Lúcifer franziu o cenho, o movimento fazendo as correntes de platina e fogo rangerem no núcleo.
— Mas o que é isso? O Velho parou de responder aos seus favoritos?
Ele tentou girar o dial imaginário, buscando os acordes de Crossroad Blues para abafar o lamento, mas a vibração daquela garota era potente demais. Ela não estava apenas rezando; ela estava sacudindo os alicerces do trono dele. Era uma nota pura e desesperada, deslocada naquele ambiente saturado de morte.
— Então quer dizer que o Papai saiu da cidade? — ele murmurou, ajeitando a postura no trono de pedra.
Desta vez, ele não buscou a rádio do passado ou o canal das orações humanas. Ele forçou sua percepção para uma frequência que não acessava há milênios. A frequência que vibrava no alto, acima das nuvens e do julgamento.
Ele estava sintonizando a rádio de seus irmãos.
Já fazia anos que ele não abria aquele campo. E no passado, seus irmãos eram barulhentos, mas naquele instante... O céu estava em silêncio.