Capítulo 9

1142 Palavras
*Sophia Hale POV* O Atlas era elegante, enorme. Pistas de dança, bares em cada canto. Zonas VIP. Música grave a vibrar no corpo antes mesmo de chegar aos ouvidos. O tipo de sítio onde tudo parecia caro. “Meu Deus…” ouvi Lily sussurrar, quase em êxtase. Reconheceu alguém. Depois outro. E mais outro. Os gritinhos nervosos começaram. Discretos, mas impossíveis de ignorar. “Aquele é o…”, “Não acredito que aquela seja a…”, “Sophia, olha ali—” No entanto, por baixo daquele entusiasmo, eu conseguia ver o desconforto dela. Ombros ligeiramente tensos. O sorriso um pouco forçado demais. Eu também estava desconfortável — mas tinha aprendido a esconder isso. Aquilo era quase um treino. A pista de dança cheia de corpos a suar, metade já comandados pelo álcool. Ali não era permitido filmar ou fotografar; se o fizéssemos, ficávamos sem telemóvel. Não que alguém não pudesse enviar algo antes disso. Mas ninguém parecia interessado. Ali dentro, todos tinham demasiado a perder. Dinheiro. Influência. Aparências. Era uma mistura de luxo e decadência cuidadosamente controlada. Reconheci algumas caras famosas. Não sou completamente alheia a tudo. Mas nunca fui do tipo que coleciona nomes ou escândalos. Era suposto, trabalhando na Verity Agency, eu saber exatamente quem eram os magnatas da cidade, os herdeiros, os rostos que vendem capas e polémicas. Mas eu não angario clientes. Não ando atrás deles em eventos. A empresa distribui as contas, as equipas apresentam projetos e o cliente escolhe. Simples. Mas ultimamente só temos ficado com os restos. As contas pequenas. As desinteressantes. Eu não gosto de perder. Muito menos quando é injustamente. Prefiro trabalhar com marcas do que com egos. Marcas não acordam num dia mau e decidem destruir a própria reputação numa entrevista. Marcas não se apaixonam pelo próprio reflexo. Pessoas… são imprevisíveis. A menos que seja necessário. E neste momento, era. Erik Brooks. Não queria um autógrafo. Não queria uma foto. Queria perceber padrões. Preferências. Fragilidades. O que o movia naquela vida caótica. Se ele sequer tinha ouvido a proposta da minha equipa ou se o diretor a tinha arquivado antes de chegar até ele. Algo me dizia que não tinha sido apresentada. E eu não sou ingénua. Mas também não sou estúpida. Conhecia a fama dele. Aproximar-me ali, naquele ambiente, podia ser interpretado da forma errada. E eu não podia fazê-lo arrepender-se. Quer dizer… podia. Mas perderia o cliente. Fomos dançar por um bocado, até que deixei os pombinhos entretidos um com o outro na pista e fui até ao bar pedir uma bebida. Com álcool, claro. Se estamos aqui, porque não alinhar no jogo? Caminhava segura, o vestido vermelho a abraçar-me como uma segunda pele. Um dos meus preferidos. Feito para virar cabeças — e eu sabia disso. Saltos altos, postura alinhada, queixo ligeiramente erguido. Não preciso de atenção. Mas sei usá-la. Senti olhares a seguirem-me enquanto atravessava a multidão. Homens. Mulheres. Não me incomoda. Aprendi há muito tempo a caminhar como se o espaço me pertencesse. Se alguém queria olhar, que olhasse. Encostei-me ao balcão e sorri ao empregado. Aquele sorriso especial que sei que afeta o sexo oposto. Não vulgar. Não fácil. Só o suficiente. m*l tinha pedido a minha bebida quando senti presença demasiado perto. Demasiado invasiva. E então veio o gesto que eu odeio. Uma mão na minha cintura. Eu sei que aquele tipo de lugar convida a estes gestos. Mas ali dentro havia espaço. Não estávamos espremidos como sardinhas. O Atlas era seletivo e caro. Ninguém precisava de invadir ninguém para circular. “Posso pagar-te uma bebida?” disse ele junto ao meu ouvido, perto demais. Virei-me devagar. Mas sem sorrir. Ele não era feio. Pelo contrário. Bonito. Bem vestido. Seguro de si. O problema dele, ter invadido o meu espaço privado cedo demais. “Não.” respondi, com um meio sorriso controlado. “Mas podes tirar a tua mão da minha cintura.” Eu sei que muita gente aceita estes toques como algo normal. Parte do jogo. Parte do ambiente. Eu não sou assim. Ele sorriu. Mas a mão continuou onde não devia. “Tens a certeza?” Inclinei ligeiramente a cabeça. “Absoluta.” Ele não retirou a mão. Suspirei, cansada, e afastei-a eu mesma da minha cintura. “Sabes quem eu sou?” perguntou. Ah. Claro. Não consegui evitar revirar os olhos. Como se eu fosse cair aos pés dele por um nome ou uma conta bancária. Sorri-lhe sarcasticamente. “E tu sabes quem eu sou?” Ele franziu o sobrolho, a tentar encaixar-me numa lista mental de nomes importantes. Não vai encontrar nada. Não sou atriz. Não sou influencer. Não sou herdeira de fortuna nenhuma. Sou só alguém que não tem muita paciência. Encolhi os ombros e peguei na minha bebida, deixando claro que o assunto estava encerrado. Virei-me para voltar para junto da Lily quando embati contra algo sólido. Muito sólido. Soltei mentalmente um palavrão. Por um segundo, tive a absurda sensação de que a parede tinha decidido mudar de sítio. Levantei o olhar devagar. A parede tinha olhos. Escuros. Ele era alto. Não sou propriamente baixa, mas vi-me a erguer ligeiramente o queixo para sustentar o olhar. Ombros largos. Traços masculinos bem definidos. Barba ligeiramente por fazer, como se tivesse coisas mais importantes com que se preocupar do que espelhos. Havia algo nele. Não era apenas presença física. Era… peso. Uma espécie de gravidade silenciosa que fazia o espaço à volta parecer menor. Perigoso. A mesma vibração de lobo mau que eu já tinha sentido antes. O que não fez sentido foi o sorriso. Quando ele sorriu, o contraste foi quase desconcertante. Não era arrogante. Não era insinuante. Era quente. Calmo. Controlado. “Peço desculpa.” Disse-o como se tivesse sido ele a chocar comigo, e não o contrário. Como se eu não tivesse quase entornado a bebida em cima dele. Assenti, talvez um segundo mais lenta do que o habitual. O sorriso ainda estava lá. E isso irritou-me ligeiramente. Porque aquela aura de perigo combinava mais com frieza do que com simpatia. E, ainda assim… aquele contraste funcionava. Demasiado bem. Interessante. Sorri. Não o sorriso do empregado. Não o sarcástico do outro i****a. Um mais neutro. Medido. “Eu é que peço desculpa”, respondi. Enquanto falava, já estava a decidir. Ignorá-lo e voltar para a pista de dança, para o lado dos pombinhos? Ou ficar? Questão difícil, certo? Ele ainda não tinha dado uma de homem das cavernas. Não me tinha tocado sem permissão. Não tinha invadido o meu espaço, tirando quando lhe dei um encontrão. Limitava-se a olhar — intenso, sim — mas contido. Olhei-o novamente avaliando todo aquele pedaço de mau caminho, colocava no bolso o homem que, minutos antes, tinha invadido o meu espaço. Era uma beleza diferente, mais masculina, mais rude. Mais interessante. Até agora, só pontos a favor.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR