6. Segunda feira

1336 Palavras
NATHANIEL Acordo com o toque do despertador do meu telefone, são 6:00, como está programado para todos os dias úteis. Admiro mais um pouco a bela mulher ao meu lado e tento retirar com delicadeza meu braço da curva do seu pescoço, quando cumpro a missão sinto meu braço formigar do antebraço até a ponta dos dedos, abro e fecho minha mão algumas vezes para fazer o sangue circular. Assim que consigo sentir meu braço de novo, pulo da cama tentando ignorar a voz dentro de mim pedindo para ignorar a reunião de acionistas. Tomo um banho gelado por motivos óbvios, escovo os dentes, uso o enxaguante bucal e saio com a toalha enrolada na cintura. Entro no closet e pego o terno azul escuro que estava preparado desde ontem, uma gravata azul de um tom mais claro e calço sapatos pretos, olho no espelho arrumando o cabelo com os dedos e decido que estou pronto. Diana estava dormindo tão tranquilamente que decido não tentar acorda-lá, me aproximo devagar e deixo um beijo entre os seus cabelos, deixo um bilhete na cabeceira avisando que fui trabalhar e ela pode ficar a vontade para tomar café se assim quiser. Abro a porta do quarto, vou até a cozinha e coloco um pouco de café na xícara, preparado sempre no mesmo horário por minha cafeteira programada, e dessa forma, é impossível não apreciar os avanços da humanidade. Dirijo até minha empresa tranquilamente, por sorte o trânsito está tranquilo, vez ou outra abro um sorriso com lembranças da noite anterior. [...] – Senhor Nathaniel, a reunião está prestes a começar. – Obrigado Fani. – Desligo o computador em minha frente e levanto abotoando meu paletó. – Todos eles já estão na sala? – Quase todos já chegaram. Exceto o senhor Olda Takata, que como havia lhe comunicado anteriormente, a secretária ligou avisando que está em uma viagem com a família para seu país natal e você, é claro. – Quase poderia afirmar que ela estava sendo debochada. – Precisa que eu te acompanhe nessa reunião? – Você continua fazendo a mesma pergunta todos os meses ao longo desses anos, Estefânia. – Abro a porta para que ela saia primeiro e tranco depois que passo por ela também. – Por que odeia tanto a reunião de acionistas? – Caminhamos lado a lado até o elevador. – Simples, lá só tem um monte de velhos que não tiram os olhos de mim por ser a única mulher na sala, e claro a mais bonita desta empresa. – Ela responde jogando o cabelo por cima do ombro com a mão direita. – Entramos no elevador e ela aperta para irmos ao décimo quinto andar. – Então o que acha, como presente de casamento, nunca mais te levo para as reuniões pelo resto da sua vida. – Proponho. – Nathaniel, você acha que eu sou bürra? – Estefânia questiona virando-se pra mim e me olhando como se tivesse sido ofendida. – O que eu te fiz mulher? Bürra não acho que seja, mas louca tenho sérias dúvidas... – Falo a última parte um pouco mais baixo, porém alto o suficiente para que ela possa ouvir. – Me fazendo uma proposta barata como essa, oras. – Vira-se para frente novamente, antes de continuar falando. – Você é a pessoa mais podre rica que eu conheço, e que estará presente no meu casamento. É óbvio que vai me dar o melhor presente, como eu poderia ser tão má com você e aceitar algo que não vai te custar nem um centavo? Você passaria vergonha entre os meus amigos, tenho que pensar em você também, não só em mim. – Entendo, tudo isso para o meu próprio bem. – Retruco em um tom sarcástico enquanto caminhamos até a sala, cheia de executivos. – É claro, você é meu chefe favorito. – Muito obrigado, pela consideração. – Estefânia sorri e abre a porta para que eu entre primeiro. – É sempre uma honra, chefinho. Me direciono até a cadeira principal e Estefânia senta-se ao meu lado em seguida. – Bom dia, a todos os presentes, começaremos agora a reunião mensal. Discutiremos primeiro o rendimento das franquias. 2 horas e meia depois... – Então, é isso senhores. Nos encontramos todos novamente em outubro. – Me levanto indo até a porta e a deixo aberta enquanto aperto a mão de cada um que passa por ela. – Como sempre nos trazendo lucros, Nathaniel. – O senhor Octávio Damasceno diz ao apertar minha mão. – Seu pai estaria orgulhoso. – Eu agradeço a confiança e o incentivo, senhor Octávio. – Imagine... – Me dá alguns tapinhas nos ombros. – confiamos no seu pai quando a ideia dele parecia apenas um sonho impossível, e continuaremos do seu lado, mesmo que as vezes suas idéias de jovem pareçam avançadas demais para velhos como nós. – Termina dando um risinho e segue o mesmo caminho que os outros. Observo suas costas ligeiramente curvadas, Octávio é um dos que estava ao lado do meu pai na fundação da empresa. Meu pai sempre disse que existiam pessoas que ele confiava cegamente e que eu poderia confiar igualmente, mesmo em um mundo traiçoeiro como esse, e Octávio Damasceno era uma dessas pessoas. A confiança que ele depositou em meu pai foi tão igualmente grande, que no passado ele arriscou vendendo seu pequeno negócio de restaurante e hipotecando sua casa. Meu pai sempre ria contando essa história e dizia que era abençoado pelos amigos loucos que possuía. No entanto, a esposa de Octávio não apoiou a loucura do marido e chegou inclusive a viver separada dele por alguns meses com os filhos, contudo, logo permitiu que ele retornasse para casa quando recebeu a ligação do marido avisando que com os primeiros rendimentos ele quitou a hipoteca. Claro que ela permaneceu brava e o fez dormir no sofá algumas noites, Octávio fazia tudo como ela queria, durante esse tempo, pois a amava e seus filhos também. No fim, tudo voltou a ficar bem quando o dinheiro foi entrando cada vez mais, ele deu para ela um restaurante ainda melhor, colocou os filhos em escolas de elite e hoje é um dos homens mais ricos do país. Mas caso alguém pergunte para a senhora Laura Damasceno, ela dirá que mesmo que na época possa ter parecido loucura, ela sempre manteve a fé no marido e só o fez sofrer alguns meses para que Octávio comunicasse suas decisões para ela da próxima vez. – Para onde está viajando chefinho? – Estefânia balança a mão na minha frente e sorri igual o gato do país das maravilhas. – Fiquei pensando se não seria de bom tom dar dois presentes, um para o noivo e outro para a noiva, mas acho que eu iria parecer esnobe na frente dos seus amigos... – Tento parecer sério e saio andando na frente enquanto escuto os passos apressados atrás. – Claro que não chefe. – Fani começa a me acompanhar no mesmo ritmo. – Eles teriam inveja por verem que eu tenho o melhor chefe. Vai por mim, o senhor seria a sensação da noite. – Entro no elevador e ela aperta para o vigésimo terceiro andar, me olhando esperançosa enquanto finjo pensar com o indicador e o polegar no queixo. – Eu gosto de ser a sensação nos lugares... – Comento e o sorriso dela se abre de novo. – E com dois presentes você com certeza será chefinho. – Fani levanta os polegares para mim. – Então está decidido. Darei dois presentes para vocês. – Eeeeh. – Ela coloca a pasta que segura embaixo do braço e bate palmas. Assim que ela vira de frente para o elevador suspirando de felicidade, decido brincar com a paz dela de novo. – Mas não acha que pareceria esnobe da minha parte se os presentes dos noivos juntos custassem algo perto de um milhão? – Fani congela e saio andando do elevador, quase posso ouvir as engrenagens na cabeça dela funcionando. – Espera, pensa comigo chefinho...
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