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Paquetá Narrando
Fazia cinco anos que eu tinha aprendido a contar o tempo de um jeito diferente. Não pelos dias, não pelos meses, nem pelas datas. Eu contava pelos anos que tinham passado desde que minha vida deixou de ser como era. Cinco anos. Cinco anos desde a última vez que eu andei sem pensar que precisava andar, desde a última vez que subi uma escada correndo, atravessei o morro sem precisar de ninguém, entrei em um carro sozinho e saí dele sem calcular cada movimento. Cinco anos desde que eu descobri que o meu corpo podia me trair. Ou talvez não tenha sido o meu corpo. Talvez tenha sido tudo que eu fiz antes dele chegar naquele estado.
Eu tinha acabado de sair do escritório. Passei horas ali dentro, como fazia praticamente todos os dias. Papelada, telefone, reunião, cobrança, dinheiro entrando, dinheiro saindo, problema de um lado, problema do outro. O Complexo do Alemão não parava. E eu também não. Era assim que eu gostava. Ou pelo menos era assim que eu precisava acreditar que gostava. Trabalhar era uma forma de não pensar. Quanto mais tempo eu passava dentro daquele escritório, menos tempo tinha para lembrar que, quando as portas se fechavam e o movimento diminuía, existia uma parte de mim que ainda não tinha aprendido a aceitar o homem que eu era agora.
Empurrei a cadeira até a janela e parei. Dali eu conseguia enxergar uma parte do Complexo, as luzes começavam a aparecer nas casas, gente indo e vindo, moto subindo, carro descendo, vozes espalhadas pelas vielas. O morro continuava vivo. E eu continuava no comando. Isso era importante. Talvez mais importante do que deveria. Eu precisava provar para mim mesmo que ainda conseguia, que a cadeira não tinha tirado meu poder, que eu ainda era capaz de decidir, que os homens ainda me respeitavam, que quando eu falava, as coisas aconteciam. Porque, às vezes, a sensação de impotência vinha sem avisar. E quando vinha, era como se alguém arrancasse o chão debaixo de mim. Eu odiava aquela sensação. Odiava precisar de alguém para alcançar alguma coisa. Odiava precisar que o Vogas empurrasse minha cadeira quando eu estava cansado demais. Odiava depender de outras pessoas para coisas que antes eu fazia sem sequer pensar. Então eu trabalhava. Trabalhava até não conseguir mais. Trabalhava porque, enquanto eu estivesse resolvendo problema dos outros, não precisava olhar para os meus.
Passei a mão pelo rosto e respirei fundo. Foi quando meus olhos pararam sobre a estante. A fotografia. Eu poderia ter colocado qualquer coisa ali. Uma arma, um documento, uma garrafa, qualquer merda. Mas estava ela. Veridiana. Meu peito apertou antes mesmo que eu conseguisse desviar o olhar. Cinco anos. E ainda bastava uma fotografia, uma única fotografia, para me fazer voltar para um lugar onde eu não queria mais estar.
Ela tinha vinte anos quando entrou na minha vida. Eu tinha vinte e quatro. E eu não acredito que exista uma forma bonita de explicar o que aconteceu entre nós. Foi amor à primeira vista, pelo menos da minha parte. Eu bati o olho nela e alguma coisa aconteceu. Ela me deu confiança, um sorriso, uma conversa, depois outra. E quando eu percebi, já estava procurando por ela, esperando por ela, querendo saber onde estava, com quem estava, o que estava fazendo. No começo, parecia que ela sentia o mesmo. Ela saía comigo, dormia comigo, passava noites na minha casa, ia comigo para os bailes da comunidade, para os pagodes, para as festas. Eu falava sobre o que sentia, coisas que eu nunca tinha falado com ninguém. Fui abrindo portas dentro de mim que sempre mantive trancadas. E ela entrou. Eu achei que tinha deixado. Talvez esse tenha sido meu primeiro erro.
Porque, com o tempo, Veridiana começou a mudar. Ou talvez eu tenha começado a enxergá-la diferente. Ela foi ficando mais fria, mais distante, e começou a falar cada vez mais sobre liberdade. Ela dizia que era como um pássaro, que tinha nascido para voar, que não queria viver presa, que nunca aceitaria um relacionamento que colocasse sua vida dentro de uma prisão. Eu dizia que não queria prendê-la. Nunca foi essa a minha intenção. Eu só queria construir uma família com ela. E, para mim, quando duas pessoas decidem construir uma vida juntas, algumas coisas precisam mudar. Não dava para ela sair sozinha para o asfalto, para lugares onde eu não conhecia ninguém e não podia protegê-la. Não era desconfiança. Era proteção, pelo menos era assim que eu enxergava. No morro, eu sabia quem era quem, sabia quem podia chegar perto, sabia quem podia representar perigo. No asfalto, eu não tinha esse controle. E eu precisava proteger a mulher que estava comigo.