o grito que não quer calar

928 Palavras
Abigail A noite caiu sobre Palermo, abafada, silenciosa e carregada de lembranças. O quarto do hotel estava escuro, mas meus pensamentos não me deixavam dormir. A ameaça de Lourenço ecoava nos meus ouvidos, misturada com o som do mar ao longe e o latejar do meu coração. “Agora você é minha, e nunca mais vai embora.” Fechei os olhos e a imagem dele me veio com nitidez — os olhos intensos, a voz grave, a possessividade escondida sob o desejo. Um homem perigoso. O Don da máfia. E, ao mesmo tempo, aquele que me fazia sentir viva. Mas então, na escuridão do meu quarto e da minha alma, as histórias da minha avó voltaram como um vendaval. Valentina. O nome dela parecia ter sido escrito com sangue e sobrevivência. Desde pequena, ela me contava histórias que eu, na infância, achava exageradas demais para serem verdade. Mas agora, sentindo o peso do mundo que Lourenço escondia por trás de seus beijos, eu compreendia cada palavra que minha avó tentava me enterrar no coração. — Eles vieram numa noite de tempestade, Abigail — minha avó dizia, sentada na varanda da casa na França, o olhar perdido no tempo. — Eu tinha seis anos. A casa estava cheia. Meus irmãos brincavam, minha irmã mais velha penteava os cabelos, e papai lia um jornal perto da lareira. Mamãe cantarolava baixinho na cozinha. Lembro de como ela apertava minhas mãos pequenas enquanto falava. Os olhos, sempre doces, escureciam com a lembrança. — Primeiro foi o som dos pneus. Depois, os gritos. E então… os tiros. Fechei os olhos. Mesmo tantos anos depois, eu ainda conseguia lembrar da entonação exata de sua voz. Grave. Ferida. Sobrevivente. — Eles invadiram a casa com armas e olhos famintos. Não queriam apenas matar. Queriam fazer sofrer. Vi minha mãe ser arrastada pelos cabelos. Meus irmãos, deitados no chão, chorando. Um deles tentou correr… levou três tiros nas costas. As lágrimas sempre desciam quando ela contava aquela parte. E mesmo sendo uma garotinha, eu sabia que aquele horror estava gravado em sua carne. — Eu corri para o quarto. Me escondi atrás da cortina. Mas um dos homens me viu. Ele riu. Disse que criança não devia estar viva. E apontou a arma. Meu corpo estremecia ao lembrar. Cada detalhe daquela história parecia viver em mim. — Foi então que eu pulei. Do segundo andar. Quebrei o braço. Mas não morri. Eles pensaram que eu tinha... e foram embora. As freiras do convento me encontraram naquela madrugada, caída, suja de sangue, chorando e chamando por minha mãe. Abri os olhos. Meu peito doía como se as balas ainda estivessem atravessando minha família — porque aquela dor não era só da minha avó. Era minha também. Valentina foi adotada por uma família rica da França, os Duval. Cresceu em meio ao luxo, mas sempre carregou a sombra daquele m******e. Ela me criou com regras rígidas, com valores inegociáveis. E o maior de todos era: nunca se envolva com mafiosos. — Eles são monstros — ela dizia, sempre que um filme ou notícia sobre a máfia aparecia. — Eles vestem ternos caros, dizem palavras bonitas, mas por dentro são feitos de sangue e ambição. Eu não entendia, na época. Mas agora… tudo fazia sentido. Como eu podia amar alguém que representava exatamente o que destruiu a família da minha avó? Como podia deitar ao lado de um homem que talvez liderasse pessoas como aquelas que atiraram em crianças, que enforcaram mães, que riram enquanto sangue escorria pelas escadas? Chorei. Chorei com a alma. Cada lágrima que caía era uma mistura de raiva, culpa e desespero. Eu não era mais aquela menina que ouvia as histórias com medo. Agora, eu era parte do problema. Parte do mesmo mundo que destruiu Valentina. Me levantei. Olhei minha imagem no espelho. Havia uma mulher ali. Forte. Mas também confusa. Lourenço. Como ele pôde me envolver assim? Como teve a coragem de me amar sabendo o que eu carregava? Mas, talvez, ele não soubesse. Talvez... ele não fizesse ideia do passado da minha avó. Peguei o celular e liguei para ela. Mesmo sabendo que era madrugada na França. Ela atendeu com a voz sonolenta, mas firme. — Abigail? Aconteceu alguma coisa? Demorei a responder. Só chorei. Ela soube imediatamente. — Quem foi que te machucou, minha filha? — Vó… — sussurrei. — A senhora se lembra das histórias da máfia? Da sua família? — Como poderia esquecer? — Vó… e se eu te dissesse que me apaixonei por um homem… que é um Don? O silêncio dela foi maior do que qualquer grito. — Abigail… — ela finalmente disse, com a voz trêmula. — Diga que é mentira. — Eu não sabia, vó. Eu juro. Ele nunca me falou. Eu só descobri agora. E… eu tentei fugir, mas ele me impediu. Ele disse que eu sou dele. Ela chorou do outro lado da linha. Choro seco, de quem conhece a dor de perto. — Fuja. Pelo amor de Deus, Abigail. Eles dizem que amam. Dizem que protegem. Mas é mentira. Quando você menos esperar, ele vai escolher a máfia… e não você. — Eu não sei se consigo. — Você tem que conseguir — ela disse firme. — Ou vai acabar como minha mãe. Como meus irmãos. Como todos que confiaram num deles. Fechei os olhos. A decisão pesava sobre mim como um punhal encostado na garganta. Mas uma coisa eu sabia: a verdade havia me acordado. E agora eu precisava agir. Nem que fosse para enfrentar o próprio Don da máfia italiana.
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