Abigail
O sol da tarde atravessava as janelas do hotel, dourando os lençóis ainda amarrotados da noite anterior. A brisa quente da Sicília carregava um aroma de lavanda e sal, e por um instante, tudo parecia calmo. Intenso, mas calmo.
Abigail acordou com o corpo agarrado ao de Lourenço, um sorriso se formou em seus lábios.
Lourenço ainda dormia ao meu lado, o corpo nu coberto até a cintura. Seus traços pareciam mais suaves no sono, como se por alguns minutos deixasse de ser o homem sombrio que o mundo conhecia. O homem que me enlouquecia. Que me devorava. Que me fazia esquecer de tudo… ou quase tudo.
Deslizei para fora da cama, vestindo rapidamente a camisa dele e indo até o frigobar. Minhas pernas ainda tremiam da noite passada, mas minha mente começava a clarear. E junto com a clareza, vinha uma inquietação que eu não sabia explicar.
Foi então que vi. Um envelope caído no chão, próximo ao pelito de Lourenço. Curiosa, peguei-o sem pensar. Dentro, havia um documento, seguido de uma carta escrita em italiano.
O nome “Romano ” apareceu várias vezes no papel. E embaixo do brasão dourado, estava escrito com letras em negrito: Don Lourenço Romano, chefe da Famiglia.
Meus dedos gelaram. O sangue pareceu recuar do meu rosto.
Don? Chefe da máfia?
— O que você está fazendo? — a voz dele soou grave e inesperada às minhas costas.
Virei-me de súbito, ainda segurando os papéis. Ele já estava de pé, os olhos estreitos cravados em mim.
— É verdade? — perguntei, a voz tremendo. — Você é o Don da máfia italiana?
Ele respirou fundo. Passou as mãos pelos cabelos e não tentou negar.
— Sim. Eu sou.
— Meu Deus… — soltei os papéis como se queimassem meus dedos. — Você mentiu pra mim, Lourenço! Me envolveu, me fez te amar… e escondeu isso o tempo todo!
— Eu nunca menti sobre o que sinto — disse ele, se aproximando. — Só omiti o que sou... porque sabia que você fugiria.
— E você tinha razão! — gritei, me afastando. — A minha avó viu sua família toda ser assassinada por mafiosos! Ela odeia a máfia. Ela odeia tudo o que você representa!
Ele parou. Como se a palavra “avó” tivesse atingido algum ponto vulnerável.
— E você? — perguntou, com a voz mais baixa agora. — Você me odeia também?
Minha garganta se apertou.
— Eu… não sei. Eu não sei mais nada.
Peguei minha bolsa. Vesti minha calça às pressas. Eu precisava sair dali. Precisava respirar, pensar, correr — fugir daquele homem que agora era ao mesmo tempo meu céu e meu inferno.
Minha vó contavam história assustadoras sobre a máfia italiana e agora estou diante o chefe deles.
— Abigail — ele chamou, a voz mais dura agora. — Para onde você pensa que vai?
— Embora. Eu preciso ir embora, Lourenço. Eu não posso ficar com alguém que vive num mundo de sangue e dor. Eu não posso olhar pra você e não lembrar do que minha avó passou, do que aconteceu no passado . Eu não sou como você.
Ele cruzou os braços, o rosto sombrio, frio, calculado. O Don emergia ali, diante de mim, em toda sua magnitude perigosa.
Dei um passo para traz sentido um arrepio subir pelo meu corpo.
— Agora você é minha. E nunca mais vai embora.
— O quê? — recuei, sentindo a espinha gelar.
Ele se aproximou com passos lentos e firmes. Os olhos escuros como carvão queimando de raiva e desejo.
— Você passou da linha, Abigail. Deitou na minha cama. Gritou meu nome. Deixou que eu entrasse no seu corpo e no seu coração. Agora você faz parte da minha vida, da minha família, da minha casa. E ninguém sai disso impunemente.
— Eu não sou uma prisioneira! — berrei.
— Não — ele disse, segurando meu pulso com firmeza. — Você é minha mulher.
— Eu não pertenço a você! Grito.
— Ah, mas pertence sim. Desde o momento em que você gemeu meu nome naquela noite, desde a primeira lágrima que caiu no meu peito, desde o instante em que eu me vi perdidamente apaixonado por você. Eu deixei de ser só o Don. Me tornei um homem capaz de largar tudo… menos você.
Senti meu coração bater forte. Uma parte de mim queria fugir. A outra… queria ceder.
Porque, apesar do medo, havia amor. E apesar da fúria, havia desejo.
Ele me puxou pela cintura com força, colando nossos corpos.
— Se você quiser fugir, tente — sussurrou contra meu pescoço. — Mas saiba que eu vou atrás. Em qualquer lugar do mundo. Porque quando a máfia ama, ela não desiste. E eu… te amo.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Eu não sabia se era de dor ou rendição.
— Eu não quero viver nesse mundo, Lourenço…
— Então transforme-o comigo. — Ele ergueu meu rosto com os dedos. — Eu sou o Don, mas por você… eu seria só Lourenço. Pelo menos quando estivermos entre quatro paredes.
Eu fechei os olhos. As palavras dele ecoaram em mim como uma corrente impossível de quebrar. Eu o amava. Deus, como eu o amava. Mas também o temia. Temia o que ele era, o que ele fazia, e o que eu me tornava quando estava em seus braços.
— Me deixa pensar… — pedi, a voz quebrada.
Ele me soltou devagar, como se lutar contra si mesmo lhe exigisse mais do que qualquer guerra que já travara.
— Você tem até a noite pra decidir. Mas saiba… se tentar fugir, Abigail, não vou te procurar como um homem apaixonado. Vou atrás de você como o Don que sou. E ninguém tira o que é meu.
Ele pegou o paletó no cabide, lançou-me um último olhar e saiu pela porta, deixando o quarto silencioso... e meu coração em chamas.