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Abigail
A brisa quente da noite siciliana soprava pelas janelas do carro estacionado à beira do penhasco. Dali, o mar escuro se estendia até o infinito, e as luzes da cidade de Palermo cintilavam distantes, como se fossem estrelas despencadas do céu.
Lourenço estava ao volante, me observando em silêncio. O motor desligado, o rádio mudo. O único som era a batida acelerada do meu próprio coração e o eco das palavras que eu ainda lutava para dizer.
Eu precisava terminar aquilo. Por mais que doesse. Por mais que meu corpo inteiro gritasse para fazer o oposto.
Lourenço é irmão de Pietro o mesmo que me causou muita dor, assim como o irmão Lourenço também foi um canalha.
— Acabou, Lourenço — sussurrei, com os olhos fixos no horizonte. — A gente não pode continuar assim. Você e eu… somos tempestades demais no mesmo céu.
Ele apertou o volante com força, a mandíbula tensa. Mas não disse nada.
— Você me deixou. Sumiu. Me escondeu verdades. E agora volta, me confunde, e depois me joga na mesma sala com seu irmão... como se nada tivesse acontecido.
— Abigail…
— Não! — cortei. — Eu te amei. Ainda amo. Mas não posso mais viver nessa corda bamba. Não posso mais me perder em você e depois me reerguer sozinha.
Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu as engoli com o pouco orgulho que me restava. Abri a porta do carro antes que ele tentasse me impedir.
— Vai embora, Lourenço. Me esquece.
Fechei a porta com força e caminhei pela estrada de pedras até o hotel. Cada passo era uma luta para não desmoronar. Quando finalmente cheguei ao meu quarto, tranquei a porta e desabei.
Chorei em silêncio.
Deitada sobre o edredom branco, abracei o travesseiro que ainda guardava o cheiro dele. Me encolhi como uma garota assustada tentando proteger o próprio coração. Como podia um homem me quebrar tanto e ainda assim me fazer querer ele com todas as minhas forças?
Naquela noite, dormi pouco. Ou quase nada. A insônia me abraçou com a mesma força que Lourenço me abraçava nas noites em que me dizia que eu era diferente, que ele sentia algo real. m*l sabia eu o quanto a dor também podia ser real.
O sol da manhã invadiu o quarto através da cortina m*l fechada. Me levantei devagar, com a cabeça pesada e os olhos inchados. Fui ao banheiro, lavei o rosto, tentei respirar fundo.
Mas antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo... a porta do quarto foi escancarada.
— Lourenço?! — gritei, assustada.
Ele entrou como uma tempestade, os olhos inflamados, os cabelos bagunçados pelo vento, a respiração ofegante como se tivesse subido todos os andares correndo.
— Eu tentei te deixar, Abigail. Juro que tentei. Mas eu não consigo. — Sua voz era uma mistura de raiva, desejo e desespero. — Você quer que eu vá embora, mas é impossível quando tudo em mim pede por você.
— Saia! — tentei recuar, mas ele já estava perto demais.
— Não — ele disse, firme, fechando a porta atrás de si. — Hoje não.
Em três passos ele me encurralou contra a parede. Senti o calor do corpo dele colado ao meu, sua respiração quente no meu pescoço, o cheiro inebriante da colônia misturado à raiva e à urgência.
— Você me jogou no inferno ontem — ele rosnou. — E mesmo assim, tudo o que eu queria era estar dentro de você.
Antes que eu pudesse responder, ele me beijou.
Um beijo selvagem, faminto, como se estivéssemos nos punindo e nos curando ao mesmo tempo. Suas mãos seguraram meu rosto com força, como se tivesse medo que eu desaparecesse.
Minha resistência derreteu com o calor daquele toque. Eu o empurrei uma, duas vezes... mas acabei puxando-o para mais perto. Com raiva. Com saudade. Com desejo.
Eu sou uma fraca quando Lourenço me toca, eu desejo este homem mais que tudo.
Ele me levantou como se eu não pesasse nada, me carregando até a cama com os olhos cravados nos meus. Me deitou ali com cuidado e selvageria ao mesmo tempo, arrancando a camisa que usava e revelando o corpo que tantas vezes me dominou nos lençóis.
— Eu devia te odiar — sussurrei, com os olhos marejados. — Mas tudo o que eu quero agora é sentir você.
— Então sente — ele respondeu, abrindo minha blusa devagar, como quem desembrulha um segredo. — Sente cada maldição que eu carrego... porque você também é minha maldição, Abigail.
E então ele me possuiu.
Com fome, com raiva, com ternura escondida entre os gemidos. Nossos corpos se encaixaram como peças quebradas tentando se curar. Seus lábios desceram pelo meu pescoço, por meus s***s, por minha barriga. E quando ele finalmente mergulhou dentro de mim, soltei um grito abafado que misturava dor e alívio.
Ele se movia como se estivesse lutando contra o mundo, mas também como se estivesse fazendo amor com o próprio céu.
Eu o arranhei. Gemi. O puxei para mim como se quisesse que ele se fundisse ao meu corpo. E ele me deu tudo. Cada estocada era um pedido de perdão. Cada beijo era uma promessa muda. Cada toque dizia o que as palavras não conseguiam.
Horas depois, deitada no peito dele, com os lençóis emaranhados ao redor, eu chorei de novo. Mas dessa vez, em silêncio.
— Você vai embora de novo? — perguntei, com a voz fraca.
— Não — ele respondeu. — Agora, se você me mandar embora de novo, vai ter que me arrastar pela porta.
Sorri com os olhos fechados. Ainda havia dor. Ainda havia dúvidas. Mas também havia desejo. Havia nós dois.
E naquele momento, isso era tudo o que eu precisava.