a final do campeonato na Sicília

1036 Palavras
Abigail O avião tocou o solo quente da Sicília com um leve solavanco. Do lado de fora da janela, o sol dourava os campos de oliveiras, e o céu parecia mais azul do que em qualquer outro lugar. Havia algo de imponente e ancestral naquele lugar — uma força invisível, quase como se a terra carregasse segredos demais para um coração humano suportar. A competição internacional de luta livre havia escolhido a Sicília como palco para a final daquele ano. Para mim, não poderia haver cenário mais simbólico: a ilha era o lar dos fantasmas que eu tentava enterrar. O local do evento era uma antiga arena adaptada para receber os atletas. Um palco circular, com arquibancadas ao redor, luzes brilhantes e câmeras de transmissão em todos os ângulos. A atmosfera estava carregada de tensão e expectativa. As melhores lutadoras do mundo estavam ali. Mas eu não tinha medo de nenhuma delas. O que me assustava, na verdade, era a possibilidade de revê-lo. Lourenço. A Sicília era o território dele. O trono dele. O passado dele. O mesmo que me deixou sem uma palavra, como se tudo que vivemos tivesse sido só um acidente de percurso. Desde sua partida de Reims, França, eu me transformei. A garota apaixonada havia se tornado uma mulher forjada na dor e treinada na disciplina. Cada golpe que eu dava era como uma conversa interrompida com ele. Cada suor derramado era um grito abafado por saudade. Mas agora... eu estava pronta. — Você tem chances reais de vencer — disse Miguel, meu treinador, enquanto ajustava minhas bandagens. — Mas vai precisar manter a cabeça fria. Elas vão te provocar, te testar. Não entre no jogo emocional. Assenti em silêncio. Estava focada, centrada, mas o coração batia como um tambor desgovernado. O ginásio estava lotado. A plateia vibrava a cada nome anunciado. Quando chamaram o meu, senti um arrepio. — Abigail Martins, filha do campeão Afonso, representando Brasil e França. — a voz do apresentador ecoou. Pisei no tatame como se estivesse entrando em uma guerra pessoal. Meu uniforme era simples, porém marcante: preto com detalhes em dourado. No meu peito, bordado em vermelho, havia um símbolo que eu mesma escolhi: uma fênix renascendo das cinzas. A luta foi dura. Minhas adversárias vinham de treinamentos militares, academias renomadas, e carregavam títulos anteriores. Mas eu tinha algo a mais: dor. A dor que me moldou nos últimos meses. Venci a primeira, a segunda, e fui avançando como uma tempestade silenciosa. Na semifinal, tomei um golpe na costela que me tirou o ar por alguns segundos. Contudo, recuperei-me. Sempre me levanto. — Você vai entrar na final — Miguel me disse, com um sorriso cansado. — Só mais uma luta, Abigail. Fechei os olhos. Respirei fundo. E entrei na arena novamente. A final. As luzes se apagaram e um feixe iluminou o centro do palco. A multidão aplaudia, os tambores soavam alto, o calor siciliano parecia incendiar minha pele. Minha oponente era uma russa de dois metros de altura, ombros largos e olhar gélido. Mas nada me intimidava mais do que o que meus olhos encontraram na arquibancada... Lourenço. Ele estava ali. De pé, com terno preto, os olhos cravados em mim como se o tempo tivesse parado. Ao lado dele, o que parecia impossível: Pietro. Por um segundo, meu mundo girou. Os dois irmãos. O passado e o presente. O garoto que partiu meu coração na adolescência e o homem que me deixou sem explicações. Eu queria correr. Gritar. Chorar. Mas estava ali por mim. Por tudo que suportei. Por tudo que lutei para conquistar. O juiz apitou. E o combate começou. A russa atacava com força bruta. Eu respondia com agilidade e técnica. Cada golpe era como atravessar um labirinto de memórias. Pietro me empurrando contra a parede. Lourenço me beijando sob as estrelas. O silêncio. A mágoa. O abandono. Mas ali, naquele ringue, eu não era a Abigail deles. Eu era a Abigail minha. Na reta final da luta, ela tentou um golpe giratório, mas deixei que a força dela a levasse para o chão. Com um movimento rápido, a imobilizei. O juiz contou: — Um... dois... três! E a arena explodiu em aplausos. Eu venci. Venci a luta. Venci a mim mesma. Horas depois, já no vestiário, ainda com o suor secando na pele, escutei batidas leves na porta. — Entre — disse, sem pensar. Lourenço entrou. Meu coração parou por um instante. Ele parecia mais tenso, mais sério. Mas ainda era ele. — Parabéns pela vitória — falou com a voz grave. — Você foi incrível. — Você veio até aqui só para dizer isso? — perguntei, tentando conter a dor que ameaçava transbordar. — Eu vim... porque precisava te ver. Porque preciso te contar algo. Algo que talvez mude tudo. Me encostei na parede, cruzando os braços. Meu corpo doía, mas não tanto quanto minha alma. — Fala logo, Lourenço. Ele hesitou. — Pietro... é meu irmão mais novo. O mundo girou. — O quê? — Eu não sabia que vocês se conheciam. Que ele fez parte do seu passado. Que ele te machucou. Só descobri recentemente... quando vi uma foto antiga de vocês dois em sua festa de quinze anos. — Você está brincando comigo, né? — ri, sem humor. — Isso é um tipo de piada sádica? — Não. E se eu tivesse sabido, jamais teria me envolvido com você. — Mas você se envolveu. E sumiu sem dar explicações. — Minha mãe estava à beira da morte. Precisei voltar às pressas. Foi covarde não me despedir, eu sei. Mas não consegui suportar a ideia de te ver sofrendo com mais uma ausência. — E agora o que você quer, Lourenço? Ele se aproximou, os olhos queimando nos meus. — Quero lutar por você. Mesmo que isso signifique enfrentar o passado, meu irmão... ou a mim mesmo. Porque quando te vi hoje naquela arena, percebi que você não é minha salvação... você é minha maldição. E ainda assim, eu te escolheria de novo. Fiquei ali, sem palavras. Sabia que aquele momento mudaria tudo. E, pela primeira vez, a Abigail que renasceu no ringue... não sabia se o próximo passo seria o amor ou mais uma guerra.
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