Capítulo 17

1381 Palavras
- Engraçado a gente se encontrar logo aqui. Se o d***o não tinha um rosto, podia associar o rosto de Gael á ele. Pelo menos era assim que o via, não pelo fato dele querer me matar, ainda, mas pelo fato dele ter feito o nome dele dentro do Complexo do Alemão e fora. Não era por acaso que seu vulgo era Monstro. Levanto me virando devagar para ele. Me odiando pelo fato de ter deixado minha arma no porta-luvas do carro. - Vai em frente - digo com a voz firme, mesmo meu coração estando acelerado dentro do meu peito. Ele ergue uma sobrancelha, estreitando os olhos - Me mata. Não era isso que você ia fazer quando estivesse na minha frente? - Ele desvia por um segundo o olhar para minha barriga, voltando em seguida para meus olhos. - Tu acha mermo que sou essa pessoa? - Você me garantiu que iria fazer isso, Gael. Ele dá um meio sorriso. - Não achei que o negócio da gravidez fosse real. - E agora parece real pra você? - Ergo a camiseta branca que vestia por cima da legging, mostrando a barriga redonda. - Tá parecendo que já vai parir. - A cada dia que passa, fica mais perto - Olho para minha barriga - Não vejo a hora de saírem logo. - Uma barriga um pouco grande pra uma criança. - São duas crianças - Ressalto, abaixando a camiseta. Gael coça o lado da cabeça, demonstrando que estava surpreso. - Vou ser pai duas vezes - murmura. Abro a minha boca para dizer o contrário. Parecia ser uma boa hora para isto, entretanto, não sabia se ele estava armado e do que era capaz de fazer comigo. - É - Acabo confirmando, acreditando que dessa forma iria ganhar tempo, tempo o suficiente para estar na Argentina, longe dele e do tráfico. Só precisava de pelo menos mais um mês. - Tá enterrando o quê ali? - Ele pergunta, olhando para meu buraco ainda no começo e o saco de lixo. - Nada demais. - Se me dizer o que é. Posso até ajudar você com esse buraco. Coloco uma mecha de cabelo atrás da orelha, quando o vento a tira do lugar, colocando as mãos na cintura. - Não é nada demais - Dou de ombros - Só os ossos da minha irmã. Ele ergue as sobrancelhas. - E você tem irmã? - pergunta surpreso, me dando a entender que ele não sabia da existência dela. Mas não era o suficiente para me convencer. Era o Gael, as coisas só ficavam encobertas até quando ele queria. E até aquele momento, ele era meu inimigo. - Tenho 6 na verdade. 5 . Agora. Ele franze o cenho. - Por quê tá enterrando ela aqui? - É barril perder irmão - diz sério, desviando o olhar para chão - Um bagulho doido. Inclino a cabeça para o lado. - Já perdeu algum irmão? Silêncio. Ele estreita os olhos, olhando para o mar ao lado. - Não devia tá aqui sozinha - Havia sido burrice sair do morro sem nenhum soldado me acompanhado. Gael era a prova disso - Tem que terminar esse negócio aí e voltar pro morro logo. - O seu morro - Olho ele com atenção, esperando que esboçasse sua real intenção de estar ali na minha frente, sem tentar me matar, nem que fosse afogada - Não é? Ele dá dois passos na minha direção, me fazendo recuar instintivamente. - Vou ter meu morro de volta na hora certa. Era uma afirmação e vindo de Gael poderia dizer que estava sim, planejando me matar, talvez depois que os bebês nascessem, pelo menos sua consciência não pesaria tanto. Ele passa por mim, com seu corpo esbarrando lentamente no meu, se colocando ajoelhado diante do rascunho do buraco. Em pouco tempo, ele cava um buraco meramente fundo, abrigando ali dentro os ossos de Maria Júlia. Quando a areia os cobre, sinto que finalmente ela estaria em “paz”. - Tem mais alguém pra enterrar? - Ele pergunta, limpando a areia dos joelhos e das mãos. - Você é perito nisso, não é? - Ele mantém a cabeça baixa, com um sorriso estranho no rosto. - Não deduz o quê você não sabe, Antônia. - Não tô deduzindo. Longe de mim. Só estou repetindo o quê me disse - Dou de ombros - Matou ela. Depois enterrou em uma cova rasa. Mas não é a primeira pessoa que você matou, não foi? Ele anda rapidamente na minha direção, nos deixando apenas separados pela minha barriga. - Como foi a primeira vez que matou uma pessoa? - pergunta me olhando com atenção. Ergo meu queixo, sustentando seu olhar - Ou ainda não matou ninguém? - Não sujo minhas mãos. - Então prefere que os outros faça? - É pra isto que têm os soldados. - Mas essa não é a função deles, tá ligada? Devia saber disso. Cada um no morro, tem sua função. Se eles sai das funções deles, desanda tudo. Vira uma verdadeira bagunça. André era um soldado, que havia sido promovido para gerente das armas mas, que acabou na minha cama. Então de alguma forma, as palavras de Gael faziam muito sentido. - Vou mudar o Complexo do Alemão - digo convicta - Já comecei com algumas modificações. Em algumas partes, havia conseguido algumas melhorias. Não eram muitas. Tentava ajudar os moradores de todas as formas que conseguia. - Não tem como mudar o Complexo do Alemão. Não tem como fazer uma revolução - diz sério - Sempre vai ser aquilo ali que você tá vendo. As pessoas dali, não querem ser mudadas. - Diz isso por que nunca deu atenção aos moradores. - Nunca fui aspirante a Robin Hood. - Prefiro ser comparada a Mulher Maravilha. - Feminista - Comenta, me olha de cima a baixo - Têm coisas que nunca mudam. Sempre se impondo. - Só me imponho quando algo me incomoda. - Foi por isso que me tirou do poder? Estava incomodando você? - pergunta devagar, movendo os lábios de modo sedutor. - Não fui eu que entreguei você pra polícia. Diferente do que fez com o Marco. Ele tenciona o maxilar, movendo a cabeça de um lado para o outro. - Ele é um traidor. Mereceu o quê teve. - Pelo menos ele não perdeu o morro - digo com um sorriso. - E quem disse que perdi o morro? - questiona baixo - Você só está na liderança, por quê quero - Sussurra em meu ouvido - Já era pra estar morta, só que eu mesmo vou fazer isso. Engulo em seco, mantendo minha postura, sem querer deixar que havia conseguido me abalar. - Por quê não faz agora? - digo desafiadora, o fazendo se afastar. Lhe dou um sorriso - Tô aqui, Gael. - Meus filhos sairiam prejudicados se tentasse alguma coisa contra você agora. Bingo! Então ele queria mesmo me matar. - Então teoricamente, só tenho um mês de vida. - Dá tempo de você fazer muita coisa. Finjo que estou pensativa. - Tem razão - digo por fim, forçando um sorriso - Pelo menos você é misericordioso e vai deixar eu curtir o final da minha gestação. Ele estende o braço, tocando com as pontas do dedo a lateral da minha barriga. - Vou cuidar deles. Estreito os olhos. Nem ferrando que deixaria Gael criar aqueles bebês. Se ele eu não tinha estrutura para criar aquelas crianças, ele também não tinha. - Já tô tranquila em saber disso - Pisco o olho, hesitante em lhe dar as costas, mas quando dou, começo a andar em direção ao meu carro. Gael me segue em silêncio, fechando a porta do carro, quando entro no mesmo. Apoio meu cotovelo na janela aberta, fixando meu olhar nele. Não havia mudado muito desde a última vez que o vira, continuava da mesma forma, podia dizer que até mais...gostoso. Pego o pirulito no painel do carro, estendendo para ele. - Aceite como um sinal de trégua por enquanto - Ele olha para o pirulito em forma de coração. - Trégua aceita - diz ao pegá-lo, dando um passo para trás. Ligo o motor do carro dando partida, olhando para ele antes de sair dali.
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