Assim que entro em meu quarto, a primeira coisa que faço é tomar outro comprimido. Conseguindo dessa vez, o efeito desejado, um pouco mais forte que esperava.
Fui puxada para um sono profundo. No qual, mesmo querendo acordar, minhas pálpebras estavam pesadas demais, então, só me entreguei de vez ao sono.
- Maria - Ouço a voz de Lidiane ao longe, só que insistente - Maria, você tomou quantos comprimidos?! Acorda! - Forço minhas pálpebras a se abrirem, conseguindo apenas semicerrá-las, vendo Lidiane completamente embaçada na minha frente.
Apertando os olhos, sento com dificuldade, o sono ainda presente, impossibilitando que ficasse sentada sem querer deitar novamente.
- Você ainda vai se matar - diz irritada, tentando me fazer levantar - Tá dormindo faz dois dias!
Passo a mão pelo meu rosto, sentindo meu braço pesado, forçando minhas pernas a me colocar de pé.
- Gael vai fazer isso quando eu parir - digo grogue.
- Acho que ele vai fazer isso antes.
Franzo o cenho, parando de andar após alguns passos.
- Por quê?
- Não tá ouvindo? - É então que noto os tiros ao longe, a gritaria, música alta, associando por alguns segundos a um possível fluxo - Estão comemorando a volta dele.
Mais que p***a!, minha mente grita.
Passo novamente a mão pelo meu rosto, sentindo o medicamento tentar me fazer dormir novamente.
- Preciso tomar um banho.
- É capaz de você se afogar no chuveiro.
- Preciso de um banho! - digo um pouco mais alto, irritada.
Lidiane me leva para o banheiro. Me ajuda a me despir e me vigia enquanto tomo banho.
Aos poucos meu corpo começa a reagir, não o suficiente, mas pelo menos conseguia manter meus olhos abertos.
A última lembrança de Gael vem fresca em minha mente. Estávamos na praia, ele me deu até o nascimento dos bebês, tínhamos uma trégua; Ele não poderia simplesmente tomar para si o morro, sem ao menos me comunicar.
- Vai gastar a água do mundo inteiro mesmo? - Lidiane questiona, com os braços cruzados, de frente para o boxe.
Ignoro sua pergunta, fechando o registro do chuveiro, para em seguida vestir meu roupão.
Enquanto me vestia, precisei parar por alguns instantes, quando me sentia zonza demais ou tinha a impressão que simplesmente meu corpo iria “desligar”.
Maldita a hora que havia tomado dois comprimidos, penso novamente, após depois de alguns minutos, conseguir terminar de vestir o vestido acima dos joelhos, justo ao corpo.
- O certo seria a gente dar o fora daqui - diz Lidiane de repente - Não vale a pena a gente colocar mais em risco.
Me viro para ela, após calçar a rasteirinha que estava mais próxima.
- A gente não vai embora.
Ela me olha chocada, balançando devagar a cabeça de um lado para o outro.
- Você só pode tá louca! - Esbraveja - Gael tá no morro! Sabe o quê isso significa?! Acabou!
- Não acabou! - grito de volta - Ele não vai fazer nada comigo! - Assim ainda pensava eu, este era minha última carta e estava colocando todas minhas esperanças nela.
Lidiane começa a andar de um lado para o outro apreensiva.
- Como você pode ter tanta certeza disso?
- Só confia em mim.
- Não dá!
E eu sabia disso. Confiar em mim. Era como confiar num leão, que poderia ferir a qualquer momento.
- Vou dar um jeito nisso.
- Nossa, tô até mais tranquila ao saber disso - diz sarcástica.
Paro na porta do quarto, para olhar para ela.
- Quando a gente tiver na Argentina, vai me agradecer.
Cada passo que dava, era um verdadeiro sacrifício. Ainda não sentia completamente minhas pernas, que estavam pesadas demais e praticamente tinha que arrastar meus pés para conseguir me locomover.
Precisei dirigir em velocidade completamente baixa, para minha segurança. Não queria causar um acidente, ainda por cima grávida. Isto acabou que me fazendo demorar para chegar na praça principal, aonde tinha uma verdadeira festa, com direito a chuvas de tiro vindo de metralhadoras.
O sangue ferveu em minhas veias e quando me dei conta, já estava em pé diante daquela cena ridicularmente patética.
- Mais que p***a é essa?! - grito, fazendo os tiros pararem e não demorando muito a música. Os sorrisos deram lugar a expressões sérias e pensativas - Vocês sabem quanto custa cada bala que estão desperdiçando, p***a?! Se a polícia invadir o morro agora, todo mundo morre, por quê não tem munição suficiente!!
Gael sai do meio do grupo calmamente, parando na minha frente.
- Racionamento de munição é as mudanças que falou?
Cruzo os braços.
- É o primeiro passo.
Ele olha ao redor.
- Não vi muitas mudanças.
- O número de soldados não é o suficiente?
- Não impediram minha entrada - Estreito os olhos. Claro que não, alguns ali não via a hora dele voltar para o morro.
- Não terá uma segunda vez - Ele assenti com os lábios franzidos, causando um breve silêncio - Posso saber o que tá fazendo aqui?
- Vim fazer uma visita.
- Visita - repito.
- Ver como as coisas estão - Como se ele não soubesse - E já vi que não andam muito bem.
Inclino a cabeça para o lado, erguendo uma sobrancelha.
- Por quê?
- Tem brecha na segurança. Os soldados não ficam em seus postos. A pouca droga que tem, estão vendendo em pontos sem muito acesso - Ele lista - Quer mais?
- As coisas saíram um pouco de controles estes dias - Dou de ombros.
- Me parece que você não tem controle nenhum - diz passando por mim.
Olho para os soldados em minha frente.
- Ainda tão fazendo o quê na minha frente?! Vão procurar o quê fazer! - digo séria, conseguindo que se dissipassem, junto com alguns moradores.
Tento seguir Gael o mais rápido que posso, falhando nesse quesito.
- Se quisesse matar você hoje, já estava morta - diz ele, quando consigo acompanhá-lo.
Fato número 1.
- Pelo menos decidiu manter a trégua.
- Tempo o suficiente pra arrumar a bagunça que fez - Ele continua a andar, me fazendo permanecer no mesmo lugar.
- Se vai andar pelo morro todo, então é melhor fazer isso de carro.
Ele se vira para mim.
- Se queria me dar uma carona, devia ter falado de outro jeito.
Ergo o queixo, erguendo uma sobrancelha.
- Tô grávida, quase parindo, não posso ficar andando por aí não.
Ele dá de ombros.
Giro meus calcanhares, indo em direção do meu carro.
Paro na porta do motorista, quando uma tontura faz com que segure com firmeza no carro.
- Dirige aí - digo quando ele se aproxima, dando a volta no carro.
Gael senta no banco do carona, não demorando para ligar o motor.
- Tá sentindo o quê? - pergunta manobrando o carro.
- Só é tontura.
- Hum - O carro começa a subir lentamente o morro - Qual é o problema das drogas?
Suspiro.
- O restante das drogas que tinha no estoque, foi levada pela polícia, junto com dois caminhões. E agora não querem me vender mais.
- Filhas da p**a - xinga baixo - Continuam do mesmo jeito - Força um sorriso - Obrigando as pessoas a se curvarem - Ele aperta o volante - Também se não fosse o traidor do Marco, teria droga o suficiente no estoque.
- Isso já aconteceu com você?
- Nunca dependi deles 100%. Sempre dei meu jeito. Meus pulos.
Rubinho não havia mencionado tal detalhe, lembro.
- E qual foi a solução que encontrou? - Ele me olha por alguns segundos, antes de voltar a olhar para frente.
- Acha mesmo que vou contar? - Encosto a cabeça no banco, respirando fundo. Claro que ele não iria, não era mais confiável. Mas poderia voltar a ser...
- Tá com fome? - pergunto de repente, o pegando de surpreso - Eu tô e o quê tá dentro de mim também - Não só era fome física, fome s****l também, e era por isto, que tinha que sair o mais rápido possível de dentro daquele carro para não cair em tentação.