Capítulo 19

1690 Palavras
Momentos mais tarde, o clima na cozinha estava estranhamente pesado, além do silêncio estar predominando. Isto por quê sentado em minha frente estava Gael, comendo calmamente, como se mais nada no mundo importasse e ao meu lado, Lidiane, que o olhava de vez em quando, argumentando instantes antes que não estava com fome. Diferente de mim, que já estava repetindo pela segunda vez. Só tive a certeza que estava quase morrendo de fome, quando comecei a comer, pouco me importando se Gael estava ali ou não. Lidiane estava tensa ao meu lado, quase não respirava, movendo as mãos sob o colo disfarçadamente de nervosismo. - Quer mais? - Ela pergunta baixo, quando limpo o prato de novo. Antes que respondo, a voz de Gael soa. - Vai acabar fazendo m*l toda essa comida. Forço um sorriso sem mostrar os dentes. - Ele tem razão - Apoio minhas mãos na mesa para levar - Mais tarde como uma fruta - Levo meu prato e o dele para a pia, segurando com um pouco mais de força os objetos - Sabia o quê a gente podia fazer? - Me viro para ele, colocando um sorriso no rosto - Um fluxo! Ele vira o rosto para o lado, tentando me olhar. - Pra quê? - Pra você. Pra quem mais seria? - Me sento novamente na frente dele, colocando meus braços cruzados sobre a mesa - Podemos chamar todos seus amigos - O nome de Marco fica na ponta da minha língua - Ele estreita os olhos, me olhando com atenção - Mas claro, se quiser. Gael coça o queixo. - Não parece ser uma ideia r**m não - Lidiane se levanta, indo até a pia, pegando dali uma faca de cerra, se virando para as costas de Gael - E quando seria isso? - Hoje. Já que já está aqui - Sorrio levemente, indicando com o olhar que não era para fazer o quê estava pensando. Ela segurava a faca com força na mão, pronta para golpear Gael bem no pescoço. Era como se eu já estivesse vendo o sangue espichar por toda parte, sujando os móveis e principalmente o chão. Ele entraria numa longa agonia até morrer e depois começaria a me assombrar em busca de conseguir descansar em “paz”. Poderia até parecer um bom plano, mas não naquele momento, quando a única pessoa que poderia resolver o meu problema das drogas, era ele. Gael assenti devagar, até soltar o ar dos pulmões bruscamente dos pulmões. A suposição de um possível assassinato me deixa enjoada e tonta. - Vou no banheiro - murmuro, levantando o mais rápido possível, saindo da cozinha. No banheiro do meu quarto, demora um pouco, pelo menos duas tentativas, até vomitar tudo que acabara de comer ou pelo menos, uma parte. A cena de Gael morto em minha cozinha, não trazia boas sensações. Não chegava ser a mesma sensação que senti ao ver Maria Júlia, mas conseguia ser um rascunho. Apesar de toda a situação que nos encontrávamos, uma pequena parte em mim, lembrava de como costumava me sentir antes em relação a ele. Em meus olhos, Gael nunca me pareceu ser o monstro que todos diziam. O monstro existia, mas ele sabia como controlá-lo, sabia em quais momentos precisava ser solto. Dou descarga no banheiro, lavando meu rosto em seguida. Uso a água fria da torneira não apenas para lavar o rosto, mas para molhar minha nuca. Entretanto, quando ergo a cabeça e olho para o espelho a frente, meu coração dispara em meu peito, quando lado a lado, vejo André e Maria Júlia. Reunindo todas minhas forças, me viro em direção da porta, aonde deveriam estar, não encontrando ninguém, acabando por derrubar no processo um dos meus perfumes preferidos. Respiro pela boca ainda assustada, meu coração continuando a martelar em meu peito, tirando meu fôlego. Coloco minhas duas mãos na cabeça, duvidando do que acabara de ver. Não era possível. - Tomando banho de perfume? - Lidiane pergunta, quando entra quarto, parando a poucos passos de mim - O quê foi? Franzo o cenho, negando com a cabeça. Soaria mais insano se dissesse que havia visto meu ex ficante morto, junto com a minha irmã morta. - Não é nada. - O que tem na sua cabeça de fazer uma festa pro Gael?! - questiona baixo, entre dentes. - E o quê tem na sua de tentar matar ele na nossa cozinha?! - Devolvo no mesmo tom. - Nossos problemas estariam resolvidos. - Ah, claro. Depois de hoje e da festa que já estavam fazendo antes de eu chegar, a gente sairia viva daqui, depois que descobrissem que a gente matou ele! Ela se mexe inquieta. - A gente tem que matar ele, Maria - murmura - Este era o plano, lembra? Se livrar do Gael. - Lembro muito qual era o plano, mas se não percebeu a única pessoa que poderia tirar a gente dos problemas das drogas, fugiu e ainda matou o André. - Que se f**a o Rubinho! Temos alguém bem pior do que ele, sentado na nossa sala. Inspiro profundamente. - Ele não vai fazer nada - digo calmamente. - Você e essa ideia fixa - resmunga, fechando os olhos por alguns instantes - É o Gael, Maria! Não dá pra confiar nele! - Ele me prometeu que não faria nada. Não antes dos bebês nascerem. - Nossa, fico até mais aliviada em saber, que iremos viver até essas crianças nascerem - diz sarcástica - Temos um mês, talvez? Claro, se tudo correr bem e eles não decidirem nascer antes - Dá de ombros. Me aproximo mais dela, porém com a expressão séria. - Eu tenho um plano mas, se não quiser participar dele, pode ir embora. Os olhos dela vagam pelo meu rosto. - Vai se fuder, Maria. Você diz como se fosse fácil toda essa merda, como se ele não me acharia aonde quer que fosse - diz ainda mais irritada. - Você tem dinheiro o suficiente para sair daqui, ir embora, voltar pra casa da sua mãe. - E você acha que quero ir embora?! Que posso ir?! - Ele eleva a voz, me assustando - Lá seria o primeiro lugar que ele me procuraria e nós duas sabemos que seria um m******e. Minha mãe tá mais segura comigo longe - Inclino a cabeça para o lado - Igual você. Dou de ombros, ignorando a insinuação que acabara de fazer. - Então vá pra outro lugar. O Brasil é grande. - Ah, claro. Vou sair por aí sem rumo - Ela se vira em direção da porta. - Não sei o quê você quer então da sua vida! - Quero que caia na real e saia dessa merda enquanto tem tempo. - Você diz como se fosse fácil. Ela para na porta do quarto, colocando uma mão na cintura ao me olhar. - Por enquanto tá fácil. Nas horas seguintes as palavras de Lidiane ficaram martelando em minha cabeça e eu as remoendo. Entendia muito bem os riscos que estava correndo. Mas tudo parecia estar sob meu controle, pelo menos era assim que eu pensava, não tinha como dar errado. Só precisava que aquelas crianças não nascessem pelas próximas semanas. Eram minha garantia que ficaria viva, então faria tudo que estivesse ao meu alcance, para mantê-los ali dentro pelo tempo que fosse necessário. Nunca era difícil planejar um baile funk e naquele dia, não foi diferente. Em duas horas, tudo que precisávamos já estava encaminhado. Querendo acalmar a tensão pelo meu corpo, cedo a um banho que durou aproximadamente meia hora. Quando saio do banheiro, engulo em seco ao encontrar Gael sentado na minha cama. Forço um sorriso, me aproximando, notando uma sacola de papelão ao lado. - Pensei que tinha ido se arrumar - digo fingindo surpresa, mesmo estando me sentindo assustada. - Me arrumo rápido - Ele se vira para a sacola, a pegando - Fui comprar isso aqui - Ele me estende a sacola. Meio que hesitante, estendo a mão, imaginando que uma cobra venenosa rara pularia da sacola quando abrisse ou mesmo algum animal extremamente venenoso, cujo nenhum lugar teria o contra-veneno - Vai abrir não? - questiona, quando me distraio com meus pensamentos. Sorrio levemente sem mostrar os dentes, abro a sacola, encontrando em seu interior uma caixa vermelha. Minhas mãos estão suadas, quando pego a caixa em formato quadrado larga e a abro, abrindo minha boca surpresa, quando encontro um par de brinco e uma gargantilha de diamantes. Brilhavam de tal forma, que seu brilho me deixava a cada segundo ainda mais hipnotizada. Até aquele momento, não tinha diamantes. Tinha ouro e prata, mas diamantes, aquele conjunto havia sido o primeiro. - Deve ter custado uma nota - digo sorrindo, sem tirar os olhos da caixa. Ele dá de ombros. - Hoje só somos Antônia e Gael - diz com a voz mansa. Ergo o olhar, encontrando os olhos dele. - Obrigada. - Só o fato de tá cuidando dos meus filhos aí dentro, já tá me agradecendo - Sem graça, forço outro sorriso, observando ele levantar e andar até a porta, parando no corredor - Quer mesmo tá na frente do morro do Alemão? Você é um pouco lenta com as suas estratégias. Ergo as sobrancelhas. - Ainda assim, vai continuar fora daqui. - Tô ligado - Ele ergue o queixo, semicerrando as pálpebras - Tenho um plano melhor: continuo no morro, fico por dentro de tudo, fudemos e vejo essas crianças nascerem e vejo crescer. - Podia matar você se quisesse. - Não vai precisar. Se não me deixar ver meus filhos, eu mesmo faço isso - Engulo em seco, apertando a caixa de veludo na minha mão - Uma hora por dia - Continua - Por favor - Só quero...tá por perto. - É isso que você quer? - pergunto com a voz firme. Ele fica em silêncio, me dando seu silêncio como resposta - Então tá. Sem esboçar qualquer outra expressão, ele sai da frente do quarto, sumindo no corredor. Tempo, era só disso que precisava Volto a olhar para a caixa, completamente abismada.
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