Capítulo 7

1443 Palavras
Passamos o restante da noite juntos. Praticamente esquecemos do mundo do lado de fora daquele barraco. Aproveitei cada instante. Cada segundo, ouvindo as batidas do coração ritmadas de Marco, as gravando em minha mente. Imaginei como seria nossa vida juntos morando na Argentina. Aproveitando os dias ensolarados e a cultura do lugar. As crianças indo para a escola, eu sendo dona de casa e Marco trabalhando em algum lugar. Era a vida perfeita. A vida que havia sonhado e que ainda queria ter, apesar das circunstâncias. Quando o dia amanhece, Marco me acorda com beijos por todo meu rosto. Ainda de olhos fechados, sorrio, para só então semicerrar as pálpebras. - Se quisermos ir pra Argentina, é melhor começar logo o dia - diz ele, acariciando meu rosto. Não havia sido um sonho. Íamos pra Argentina. Marco levanta, me ajudando a fazer o mesmo, olhando com atenção minha barriga. Sigo seu olhar, passando a mão pela mesma. - Tá grande, não é? - Tu fica ainda mais bonita grávida- Ele se inclina na minha direção. Coloco a mão dele sob minha barriga, no momento em que começam a se mexer. - Tá se sentindo? - Ele mantém os olhos na minha barriga, vendo por cima do vestido, as ondulações que os movimentos causavam - Gostam de você. De repente o celular dele toca e sem tirar a mão da minha barriga atende, após encarar por poucos segundos o visor do aparelho. - Oi, tia. - Onde você tá, menino? - Apesar de não estar no viva-voz, dava para escutar a voz de dona Lídia - Doutora Gabriela já ligou atrás de você. - Falo com ela daqui a pouco. - E você tá com Rayane é? Já te disse pra largar dessa mulher, que ela só te traz problema! - Tchau, tia - Dito isto, ele desliga, entretanto, pensativo. - O que foi? - pergunto inclinando a cabeça para o lado. - Nada não. Só minha tia pegando no meu pé. - Então é melhor a gente ir, né? Ele assenti, se afastando. O trajeto até a casa de Marco é completamente silencioso. Mesmo com dona Lídia não dizendo o que a tal da advogada queria com ele, fiquei intrigada. Em frente da casa, ele me dá um beijo apaixonado e sem dizer nada, desce do carro, entrando na casa. Ainda anestesiada da noite que tivemos juntos e intrigada com a ligação da advogadazinha, dirijo para o Complexo do Morro do Alemão, já imaginando o problema do restante do dinheiro me esperando com uma xícara de café. Mal estaciono o carro em frente de casa e percebo Lidiane na garagem com a expressão de preocupação. Já esperando um de seus sermões, respiro fundo e desço do veículo. - Onde você tava? - pergunta calmamente, porém, séria. - Não vai querer saber. - Com o André que não tava. Liguei pra ele e ele disse que falou com você cedo. Inspiro profundamente me aproximando. - Tava com o Marco. Ela desvia o olhar. - Essa era minha suspeita - Estreito os olhos. Então por quê perguntou? - Aconteceu alguma coisa? - Passo por ela, entrando em casa. Já me imaginando tomando um banho e passando algumas horas em minha cama, mesmo com o mundo querendo desabar em minha cabeça. - Acho que a gente tem um problema. - Sempre temos um problema. Iria me assustar se não tivéssemos - Começo a subir os degraus da escada devagar - Mas em breve, se Deus quiser, vamos estar na Argentina, comendo empanadas e falando... - Paro, olhando para ela com o cenho franzido - Qual a língua mesmo que se fala lá? - Espanhol. - Isso - Continuo a subir os degraus - E falando espanhol. Eu, você, Marco e os bebês. - E quanto a sua irmã? - Ela pergunta baixo, tão baixo, que se não tivesse uma audição boa, não conseguiria escutar. Paraliso prestes a subir mais um degrau, tentando interpretar a pergunta e não conseguindo compreendê-la - Como assim? - Me viro para ela, mantendo minha expressão séria. - Katiane me ligou agora de manhã e disse que sua irmã tá na casa da Jô. Por alguma razão, não consigo sentir minhas pernas, se tornam pesadas demais. Engolindo em seco, fecho meus olhos, sentindo meu corpo ir para frente e para trás devagar. Me sentia leve demais, prestes a cair a qualquer momento. - Maria - A voz de Lidiane se torna preocupada. Se aproximando rapidamente, coloca as mãos em meus ombros, me obrigando a dobrar meus joelhos e me sentar - Tá sentindo alguma coisa? Fala comigo. Não conseguia encontrar as palavras certas. Na minha cabeça, só vinha minhas irmãs, minha mãe. Mas principalmente tudo que passei na casa da Jô e como foi difícil aceitar meu destino e tudo que precisei fazer para mudá-lo. Lágrimas vem á tona, mesmo com os olhos fechados e as sinto escorregar para fora, molhando meu rosto. Mas não era lágrimas de tristeza e sim de raiva, pela história estar se repetindo novamente. - Quem das minhas irmãs? - pergunto baixo, com a voz trêmula. - Maria Júlia. Maria Júlia só tinha 15 anos, era uma criança para mim. Vi ela crescer, cuidei dela como os demais, com o mesmo amor. De repente a raiva toma conta de mim literalmente e me vejo levantando, saindo de dentro de casa. - Maria! - Lidiane grita, correndo atrás de mim. O tempo que demoro para ligar o carro, é o suficiente para fazê-la sentar no banco do carona. - Onde você vai?! - Não respondo. Dou partida bruscamente, a fazendo bater as costas no banco. Desço o morro em alta velocidade, não me importando se iria atropelar ninguém ou não. Uma morte a mais ou uma a menos, não iria diminuir minha sentença final. Em frente da casa vermelha de Jô, não me dou o luxo de desligar o carro ou de fechar a porta, simplesmente saio, entrando abruptamente na casa, assustando algumas meninas que estavam na sala. Ambas me olham com os olhos arregalados, mas não ousam se mexer. - Cadê ela? - pergunto alto - Cadê a mulher que se diz chefe de vocês? - O único som escutado, é dos meus saltos contra o piso. Nenhuma responde. Algumas meninas ali, reconhecia do tempo que ainda era prostituas, outras, eram nova; Meninas que dava para ver no olhar que estavam assustadas e que eram de origem humilde. É quando ouço os passos que estavam gravados em minha mente. Olhando para frente, vejo vindo dos fundos da casa, Jô. Continuava da mesma forma, com a postura imponente e o olhar afiado. - Antônia, que surpresa ver você - diz com todo o cinismo que ainda havia no mundo - Posso ajudar em alguma coisa? - Não deveria tá tão surpresa em me ver - Com passos rápidos e largos, encurto o espaço entre nós e avanço sobre ela, desferindo um tapa o mais forte que consigo contra o rosto dela - Por quê minha irmã!? - Jô quase perde o equilíbrio, precisando se segurar na parede para não cair - Perdeu completamente o juízo, p***a!? - grito, a empurrando para trás. Ela põe a mão no lugar que bati. - Assim como você. Ela veio por livre e espontânea vontade. - Fui enganada! Vim acreditando que iria ter um trabalho aqui me esperando! - E tinha! - diz elevando a voz - Você tinha onde dormir e comer, só precisava trabalhar pra conseguir essas duas coisas. Seguro o queixo dela com força. - Não pensou duas vezes, não é? Em fazer a mesma coisa que fez comigo, com a minha irmã. - Ela quis vir atrás de você - diz entre dentes. - Conta outra! - Solto o queixo dela com força, a empurrando para trás. - Já chega - diz Lidiane em minhas costas, segurando meu braço. Puxo meu braço com força, a fuzilando com o olhar. - Isto é eu que decido. Eu que mando nessa p***a de favela! Ela sustenta meu olhar, engolindo em seco, desviando o olhar em seguida para o chão. Não conversava tão frequentemente com minha mãe, mas sabia que nada estava faltando para eles, já que fazia questão de mandar toda semana uma quantia. Todos estavam bem e tinham uma vida confortável. Não tinha motivo algum para Maria Júlia vir atrás de mim. Estava começando a cogitar a ideia de dar um tiro no meio da cara de Jô, quando escuto uma voz familiar. - Maria? - A voz de Júlia vem da escada. Ela estava ao lado de Katiane e aparentemente, parecia muito bem - É você mesmo?
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