Capítulo 9

1076 Palavras
— Fique abaixada — Cego rosna — Não se mexa! Assinto, tentando controlar a respiração. A adrenalina que me percorria acelerava e reduzia a velocidade dos acontecimentos ao mesmo tempo, deixando minha percepção nublada e aguçada. — c*****o! — O palavrão explodiu na boca dele Incapaz de ficar parada, fiquei de joelhos novamente, meus pulmões pareciam parar de funcionar. Na estrada à nossa frente, a poucos metros, havia um bloqueio policial. Balas zuniram perto da minha cabeça, mas as ignorei ao mirar cuidadosamente. Só tinha seis disparos com aquela arma e precisava fazer com que cada um deles fosse usado de forma proveitosa. O primeiro tiro foi disparado com um recuo forte, que atingiu meu ombro, mas a granada que cego jogou, encontrou o alvo. O carro da polícia que estava logo na nossa frente. O carro voou, explodindo no ar, e caiu de lado em chamas. Um dos outros carros bateu nele e observei, com uma satisfação sombria, quando os dois carros explodiram, fazendo com que uma das vans saísse da estrada. Onze veículos inimigos remanescentes. Mirei novamente. Desta vez, meu alvo era mais ambicioso, um dos remanescentes mais atrás. Outro recuo forte... e, para o meu desgosto, errei. No último segundo, desviou, batendo com força brutal. Observei com raiva impotente quando o carro dos meus homens capotou, saindo da estrada. Tínhamos agora cinco carros. Afastando todas as emoções, mirei o próximo disparo em uma viatura mais próxima. Desta vez, acertei. Oito veículos inimigos remanescentes. Apontei a arma. Respirando fundo de novo, mirei. Mas, antes que puxasse o gatilho, um dos carros inimigos balançou e bateu em outro. Meus homens deviam ter atirado no motorista, melhorando ainda mais as nossas chances. As forças policiais agora estavam reduzidas. Aliviada, mirei novamente... e foi quando ouvi. O rugido inconfundível das pás de um helicóptero à distância. Olhando para cima, vi um helicóptero da polícia se aproximando do oeste. Merda. Eram mais policiais corruptos ou as autoridades cariocas tinham ficado sabendo daquele combate. De qualquer forma, isso não era bom para nós. Começamos a correr. Atrás de nós, ouvi o barulho de pneus, seguido de uma rajada furiosa de disparos. Virando a cabeça, vi cego e outro soldado atirando em uma viatura que acabara de entrar na favela. Diminuí a velocidade. Tudo em mim gritava para que eu voltasse, que ajudasse cego e os demais. Mas me lembrei das palavras dele. Nossa melhor chance de sobreviver dependia de fazer aqueles policiais recuarem. — Rápido! — grita cego. Ele estava mortalmente pálido e seus olhos pareciam selvagens, mas conseguia colocar um pé à frente do outro e era tudo que eu precisava que fizesse naquele momento. Por enquanto, nossa única tarefa era sobreviver. Ainda assim, mesmo sabendo disso, não consegui evitar lançar olhares frenéticos para trás enquanto corríamos. Na primeira vez em que olhei para trás, vi que cego e os demais estavam abaixados atrás de um carro e trocavam tiros com homens escondidos. Já havia dois corpos no chão e um buraco cheio de sangue no para-brisa de uma viatura. Mesmo com o pânico, senti uma onda de orgulho. Meus soldados e meu quase braço direito sabiam o que faziam em se tratando de matar. Na segunda vez em que olhei, a situação parecia ainda melhor. Quatro cadáveres inimigos. Os soldados estavam dando a volta no carro para matar o atirador restante, enquanto cego atirava para lhes dar cobertura. No terceiro olhar, o último atirador fora eliminado e os tiros pararam. A rua ficou estranhamente silenciosa depois de todos os disparos. Vi cego e os soldados de pé, parecendo ilesos, e lágrimas de alegria começaram a correr pelo meu rosto. Conseguimos. Tínhamos sobrevivido. — Cego! — Erguendo a AK-47 acima da cabeça, acenei para ele com a arma. — Aqui! Andava na direção de ambos, olhando com atenção toda a destruição ao redor, quando paro abruptamente contra minha vontade. — Patroa? — Dou um passo na direção do cego, com um medo súbito me apertando o peito. Naquele momento, vi o rosto dele ficar mais pálido ainda. A sensação de cólica que comecei a sentir segundos antes subitamente se intensificou, se transformando em uma dor aguda. Atravessou meu abdômen, me fazendo perder o fôlego quando ele deu um passo na minha direção com o rosto preocupado. Arquejando, dobrei o corpo e instantaneamente senti suas mãos fortes em mim, me tirando do chão. — Pro hospital, agora! — gritou ele para um dos soldados. Antes que eu conseguisse piscar, me vi dentro de um carro, aninhada no banco traseiro, enquanto ele acelerava para fora do beco. — Patroa? Patroa, você tá bem? — A voz dele estava cheia de pânico, mas eu não podia dizer naquele momento, não quando minhas entranhas se contorciam daquela forma. A única coisa que eu conseguia fazer era respirar depressa, me agarrando convulsivamente no estofado. As lágrimas que surgiram pareciam sangue saindo diretamente da minha alma. Cada gota queimou meus olhos e os sons que saíram da garganta foram horríveis. Meu novo mundo não era apenas sombrio, era escuro, sem esperança alguma. Fechando os olhos com força, tentei enrolar o corpo em uma bola, ficar o menor possível para impedir que a dor explodisse, estava me segurando. Passando os braços em volta de mim, me abraço enquanto desmoronava. Ao fundo ouvia cego dizendo que ficaria tudo bem que, era para aguentar firme. O som profundo e baixo da voz dele me envolveu, enchendo meus ouvidos até que eu não tivesse outra opção além de ouvir. Apesar de eu saber que eram falsas, as palavras me deram conforto. Não sei por quanto tempo chorei, mas, em certo momento, o pior da dor começou a ceder. Em minha mente, antes minha prisão, me segurava no rosto sorridente de Marco e em nossas promessas, minha salvação, me impedindo de me afogar no desespero. Quando me dei conta, estávamos entrando as pressas na UPA. Cego gritava em busca de atendimento, enquanto só conseguia me concentrar na dor, agora um pouco mais amena, que oscilava pelo meu corpo. Um enfermeiro se aproxima, me enchendo de perguntas incoerentes, tirando o colete que vestia com a ajuda de outra enfermeira, - Você está grávida de quantos meses? - Volta a perguntar. - Oito - murmuro - São dois bebês. - Uma ultra? - A enfermeira pergunta para ele. - E um toque. Ela assenti, me locomovendo até a sala mais próxima, tornando os próximas minutos os mais longos da minha vida.
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