Depois de quase duas horas de ultrassom, veio o veredito: os bebês estavam perfeitamente bem.
As cólicas foram por causa do estresse e de toda aquela agitação. Meu útero não dava nenhum sinal de que colocaria para fora dois bebês.
Para ter certeza que continuariam dentro de mim, recebi medicamento diretamente na veia, em um soro que nunca chegava ao fim.
Me sentindo anestesiada, quase não percebo quando cego entra no quarto e em seguida Lidiane apressada.
- Queria saber o quê você tem na sua cabeça! - diz com a voz alterada - Ir pro meio de um tiroteio! Grávida ainda por cima.
Grogue, a olho por de baixo dos cílios.
-... estão bem - sussurro.
- Por causa do cego! - Ela rebate - É bom que você não torne outra! - Ela continuou gritando e gritando, até uma enfermeira vir e pedir para ela falar mais baixo, pois estava em um ambiente hospitalar.
Visivelmente irritada, comigo, Lidiane sai da sala batendo os pés. Me dando uma rápida olhada, cego a segue e finalmente tenho o silêncio que tanto queria.
Recebi alta horas depois, contra meu gosto, já que preferia ficar ali invés ouvir o sermão de Lidiane.
Cego fez questão de nos levar para casa. Algo estranho, já que quem deveria estar fazendo aquilo era André.
- Cadê o André? - pergunto quando Cego me põe em minha cama.
- O cara tá fora de área desde antes do tiroteio - Fecho os olhos, inspirando profundamente, não querendo deixar a raiva tomar conta de mim - Descansa aí, patroa. Vou ver se acho o cara.
Assinto, virando para a parede, apagando em pouco tempo.
— Ei. Acorda - A voz de Lidiane me acorda aos poucos, me viro para a porta, a encontrando equilibrando uma bandeja com chá e sanduíche.
Havia um cobertor sobre meu corpo, que com certeza foi ela que o colocou.
Largando a bandeja sobre a mesinha de cabeceira, ela se senta na beira da cama e toca gentilmente meu ombro.
— Maria? Você tá bem?
Ela olha para mim com o olhar preocupado e a expressão cansada.
— Você tá horrível — Comento com a minha voz um pouco
rouca, mas parecendo notavelmente calma.
Os olhos dela estavam secos no rosto inchado.
— Pelo menos não pareço que sai de uma guerra — Ela responde com cuidado. — Como está se sentindo?
— Possivelmente melhor do que você — respondo baixinho, baixando o olhar — A impressão que tenho, é que estava num pesadelo e agora acordei - Tento ignorar a agonia no peito. — Quase perdi os bebês. — Forcei meus lábios a formarem um sorriso.
— Tá com fome? Trouxe algo pra você comer.
Gemendo, me sento e olho desconfiada para a bandeja.
— Você fez isso?
— É claro. Você sabe que consigo ferver água e colocar um pedaço de queijo no pão, não é?
Eu fazia isso o tempo inteiro antes de minha vida virar completamente de ponta cabeça.
Um traço de sorriso surgiu nos lábios ressecados de Lidiane.
— Ah, sim. Aquele tempo sombrio no
passado quando você precisava cuidar de si mesma.
— Exatamente. — Ela me entrega xícara de chá quente.
— Aqui está. Camomila com mel. De acordo com as receitas da internet, é a cura para todos os males.
Bebo um gole e ergo a sobrancelha.
— Impressionante. Quase tão bom quanto o da minha mãe - digo nostálgica,
— Ei! — diz ela forma exagerada. — Quase? E eu achando que tinha aprendido a fazer chá.
O sorriso dela foi um pouco maior desta vez.
— Está muito perto, juro. Agora, me deixe
experimentar um sanduíche. Devo dizer que eles parecem gostosos.
Ela me entrega um.
— Não vai me acompanhar? — pergunto. Ela Balança a cabeça negativamente.
— Não, já comi na cozinha — explica.
— Achava que não estava com muita fome — digo depois de comer quase todo o sanduíche. —Depois de tanto sangue, achei que ia demorar pra conseguir comer, principalmente dormir.
— Foi tão r**m assim? — pergunta surpresa. — Quer dizer, já r**m ver gente morta, mas ver gente morrer, deve ser pior ainda.
— E é. — Termino de comer, entregando o prato para ela. — Estava muito bom, Lidi, obrigada.
— De nada. — Ela levanta, pegando a bandeja — Quer mais alguma coisa? Talvez um livro pra ler?
— Não, estou bem. — Gemendo novamente, coloco meus pés no chão, sentindo a frieza ali.
— Vou me levantar. Não consigo ficar na cama o dia inteiro. E tenho problemas pra resolver.
Ela franzi a testa.
— Claro que consegue. Você precisa descansar hoje.
— Não posso me dar esse luxo — Ela me olha com expressão irônica e anda até a cômoda no lado oposto do quarto. — Já fiquei na cama por tempo demais. Quero falar com André e descobrir o que está sendo feito sobre os filhos da p**a que nos atacaram e sobre o restante do dinheiro.
Olho para ela.
— Lidi... — Hesito, sem saber ao certo como prosseguir.
— Pensei que você ia morrer. — Ela pega uma calça jeans e para para olhar para mim. Seus olhos estavam escuros — No momento em que entrou naquele carro, tive essa certeza.
— Vaso r**m não quebra, lembra? — Respondo rapidamente. — Vou demorar pra morrer, tenho muitas pendências ainda. Quero ver essas crianças crescerem, quero ter minha segunda chance com o Marco e ter o conforto que sempre sonhei. Não me parece ser muita coisa, sabe? Não quero luxo, nem nada. Só isso.
Por alguns segundos, fico pensativa, sentindo um nó crescente na garganta.
— Pela primeira vez, quero que seus planos dê certo — Ela se vira, procurando algo na cômoda.
Observei em silêncio quando ela tirou a camiseta e vestiu um sutiã e uma camisa preta de
mangas compridas. Estava mais magra do que lembrava, me fazendo colocar a culpa em mim em relação da sua preocupação.
Lidiane se preocupava mais do que deveria comigo.
— E você vai comigo. Não aceito um não como resposta.
Levanto, dando um passo na direção dela, com o peito doendo, mas ela ergue a mão.
— Tenho você como uma irmã — Ela engoliu em seco. — E não acho que conseguiria ficar longe de você. Já me acostumei - Ela dá de ombros.
Parei a dois passos dela, que continuou depois de um momento.
— Depois de todo o inferno que estamos passando, você merece ser feliz. E você só vai ser feliz quando sair do tráfico e acho que você já percebeu isso — Ela para por um segundo para se recompor — Só faça a coisa certa dessa vez, Maria.
Enquanto ela falava, a raiva que sentia de Jô voltou. Ficara enterrada sob o peso da tristeza, afastada pela agonia que sentia, mas naquele momento fiquei ciente dela
novamente. Ardente e aguda, a raiva me encheu até que eu estivesse tremendo, abrindo e fechando as mãos ao lado do corpo.
— Isso não vai acabar bem se continuar nisso — Continua com a voz cada vez mais trêmula.
Me aproximando, eu a abraço quando ela começa a tremer. Sob a raiva, eu me sentia impotente para lidar com a situação.
Se estava disposta antes de sair do tráfico, naquele momento me senti ainda mais.
Não queria que Lidiane sofresse por causa das minhas decisões m*l tomadas.
Ela não merecia isso.
— Vou fazer isso. Prometo — sussurro, acariciando os cabelos dela. — Vou sair do tráfico. Vamos recomeçar do zero e esquecer essa merda inteira. Mas antes disso, temos inimigos pra matar - Minha voz estava estrangulada quando ela deu um passo atrás. — Principalmente a Jô.
— Ela merece pagar por tudo que está fazendo — Ela fala baixo.
Queria todos meus inimigos mortos e a primeira da lista era a Jô.
Queria que fossem eliminados da forma mais brutal possível. Era errado, era doentio, mas não
me importei. Imagens dos homens que matei naquele dia flutuaram na minha mente, trazendo consigo uma sensação peculiar de satisfação.
Eu queria que Jô, pagasse da mesma forma.