85 — Nádia Narrando O hospital tinha aquele silêncio que pesa, um cheiro de remédio que tenta esconder o cheiro da dor. Eu fui segurando a mão da Juliana o caminho todo, sentindo o tremor dela passar para a minha pele. Eu estava firme, mas por dentro meu peito era um tambor batendo para Xangô. Quando a porta da UTI se abriu, o ar gelado me deu um calafrio. A primeira pessoa que eu vi foi a Marta. Coitada, a mãe da Juliana estava ali num canto, com o rosto vincado de cansaço e de reza. Nossos olhos se cruzaram e não precisou de explicação. Foram anos de silêncio, mas o abraço que a gente deu foi de quem compartilha o mesmo sangue e a mesma aflição. — Minha amiga, quanto tempo... — sussurrei no ouvido dela, apertando aquele corpo sofrido. — O meu axé está aqui. O meu neto não está sozinh

