Capítulo 2

2205 Palavras
Melinda A percepção nauseante me invade como uma onda de gelo. Não foi um sonho, nem um erro horrível. As mãos de Brice percorrem descaradamente a pele nua de Alicia enquanto ela arqueia as costas e geme. Um grito estrangulado escapa dos meus lábios antes que eu consiga contê-lo. As cabeças de Brice e Alicia se viram ao mesmo tempo, os rostos mudando de êxtase para... irritação. Meus olhos se enchem de lágrimas, e a visão do par fica borrada. Como o Brice pôde fazer isso comigo? Fui leal e amorosa com ele por cinco anos. E Alicia, minha própria irmã... — Que p***a você está fazendo aqui, Melinda? — Brice pergunta, estreitando os olhos como sempre faz quando está bravo comigo. Quero gritar com ele, dizer que vim para surpreendê-lo no nosso aniversário, mas as palavras morrem na minha garganta. Só consigo encarar os dois, horrorizada. Eles conseguem ouvir o som do meu coração se partindo? Eu sei que consigo. — E então? — Brice fala enquanto veste a cueca e se aproxima de mim. Fico tensa quando ele se aproxima, esperando que ele levante o punho. — Vai falar merda? — E-eu... é nosso aniversário — gaguejo, minha língua pesada e grossa na boca. Brice ergue uma sobrancelha, enquanto Alicia rola na cama e ri, divertida. — Ah, isso é hilário — ela diz, apoiando-se nos cotovelos e sorrindo de forma c***l para mim. Desvio o olhar, sem querer encarar sua nudez. — Brice, você ao menos lembrou que hoje é seu aniversário? — Não — Brice diz com frieza, seus olhos azuis nunca deixando meu rosto. Examino seu semblante, desesperada para encontrar qualquer sinal de arrependimento ou horror... algo que mostre que ele se sente m*l pelo que fez. Mas não há nada. Ele me olha como se eu não fosse nada. Ele me observa de cima a baixo. — Você parece uma vagabunda, Melinda. Eu o encaro, chocada e ofendida. — V-você me disse para comprar esse vestido... Alicia ri de novo. — Pobre Melinda. Você veio aqui esperando que o Brice finalmente enfiasse o p*u na sua v****a gelada, certo? — Ela enrola uma mecha de cabelo loiro no dedo. — Quer saber de uma coisa? Eu e o Brice transamos há cinco anos. É como se um soco tivesse acertado meu estômago. Fica difícil respirar, e o quarto parece encolher ao meu redor. — Como você pôde fazer isso comigo, Alicia? — sussurro, o coração pesado no peito. Alicia nunca foi gentil, mas nunca imaginei que ela seria tão c***l. — Achei que fôssemos irmãs... Alicia zomba e revira os olhos. — Nós não somos irmãs — ela retruca, a voz carregada de desprezo. — Eu te odeio desde que você entrou na minha casa com essa sua b***a nojenta. — Um sorriso malicioso contorce seu rosto, transformando seus traços bonitos em algo grotesco. — Você realmente achou que o Brice estava apaixonado por você esse tempo todo? Você conseguiu! Bravo, querida. Você atuou muito bem. — Ela se senta na cama, triunfante. — Eu já dormia com ele quando apresentei vocês dois. As palavras dela são um punhal cravado no meu peito. Tento absorvê-las, mas parece impossível. Alicia me observa com prazer, seu sorriso aumentando ao ver a dor estampada em meu rosto. — Você já me amou, Brice? — pergunto desesperada, implorando por qualquer sinal de arrependimento, qualquer faísca de esperança. Num mundo perfeito, ele diria que Alicia está mentindo. Mas tudo o que encontro é o silêncio. Ele nunca me amou. De repente, a dor cede lugar a uma raiva incontrolável. Cinco anos jogados fora com um homem que nunca me amou, que me traiu com minha irmã adotiva. — Terminamos — sussurro em meio às lágrimas, cada palavra me rasgando por dentro. Brice inclina a cabeça para o lado. — O que você disse? — Eu disse que terminamos! — Não, sua i****a. Eu ouvi você. Mas quem decide quando esse relacionamento termina sou eu — ele retruca, com a voz carregada de desprezo. Mas balanço a cabeça, sentindo uma centelha de força crescer dentro de mim. — Não, Brice. Dessa vez, a decisão é minha. Nunca mais quero te ver. Você é um canalha, um mentiroso e um traidor. Minha cabeça é jogada para trás de repente, uma dor cortante explodindo na minha bochecha. Caio de costas, sem ar, o quarto girando ao meu redor. Brice está parado diante de mim, com a fúria estampada no rosto e a mão ainda no ar. — Nunca mais — ele rosna — fale assim comigo. Agarro a lateral do meu rosto, que arde e lateja, enquanto meus ouvidos zumbem. Brice nunca me bateu antes. A violência física não me é estranha. Na minha antiga família adotiva, distribuíam tapas e socos com generosidade, mas eu nunca imaginei que Brice seria capaz disso. Ele era meu porto seguro. — Você me bateu — eu sussurro, quase sem acreditar. Brice revira os olhos, impaciente. Alicia se aproxima dele com um sorriso satisfeito. — Sério, Melinda? Você é burra assim mesmo? A raiva que senti antes desaparece como fumaça. Sei que deveria revidar, gritar, lutar. Mas não tenho mais forças. Não sei se ainda tenho algo dentro de mim. Tudo no meu corpo implora para que eu fuja, mas meus instintos sempre me traíram. Quando o conflito surge, eu congelo. Sempre congelei. — Saia daqui — Brice sibila, o braço envolvendo a cintura de Alicia. — Eu lido com você depois. A malícia em sua voz me faz tremer. Mas dessa vez, não espero para ver o que ele vai fazer. Saio correndo, lágrimas escorrendo pelo meu rosto, enquanto tento conter os soluços que ameaçam me sufocar. O trajeto de volta para casa é um borrão. A tristeza me envolve como um manto pesado, e tudo o que eu quero é chegar ao meu quarto e me esconder na escuridão, onde ninguém nunca mais poderá me machucar. Sinto um vazio no peito, como se alguém tivesse arrancado meu coração e deixado um buraco pulsante e doloroso. Como Brice e Alicia puderam me trair tão cruelmente? O presente de aniversário dele ainda está na minha bolsa, me provocando como um lembrete c***l. Enquanto eu me matava trabalhando para juntar dinheiro e comprar algo que ele realmente gostasse, ele estava dormindo com minha irmã adotiva. E ele nem sequer se lembrou do nosso aniversário. Eu nunca signifiquei nada para ele. Quando chego em casa, Marlon e Layse estão me esperando na cozinha. Apesar de nunca terem me tratado como uma filha, eu ainda espero, no fundo, que tenham um mínimo de compaixão pelo que acabei de passar. — Melinda — diz Marlon, franzindo a testa. — O que aconteceu com seu rosto? Fungo, limpando o rímel manchado de um lado da minha bochecha. O lado onde Brice me bateu está inchado e dolorido. — Brice aconteceu — eu resmungo, com novas lágrimas escorrendo pelo meu rosto. — Ele… ele me bateu. Marlon e Layse trocam um olhar rápido, e por um breve momento, acho que vão ficar horrorizados. Mas Layse apenas franze a testa, como se eu fosse um fardo incômodo. — Bem, o que você fez para aborrecê-lo? Eu a encaro, completamente pasma. — O-o quê? — Não banque a i****a, Melinda — Layse retruca, a voz gélida. — Brice te bateu por um motivo. O que foi que você fez? Como eles podem pensar que a culpa é minha? Eu fico sem palavras, com a respiração presa. Marlon bate a mão na mesa de madeira polida. Eu me encolho, um reflexo automático. — Droga, Melinda! Responda a p***a da pergunta! — É porque a Melinda finalmente descobriu que eu e o Brice andamos dormindo juntos —, Alicia anuncia friamente, entrando pela porta com Brice logo atrás dela. — Ela tentou terminar com ele. Espero que Marlon e Layse fiquem furiosos com Alicia, que gritem com ela ou ao menos mostrem algum sinal de indignação. Mas não. O que acontece me deixa sem fôlego, como se tivesse levado um soco no estômago. — Brice! — Marlon grita. — Como você pôde bater na cara dela? Sabe quanto tempo vai levar para sarar? Meus olhos se arregalam, incapaz de acreditar. Eles não estão bravos porque Brice me bateu — estão bravos porque a marca está num lugar visível. Brice dá de ombros, passando o braço ao redor de Alicia como se nada tivesse acontecido. — Ela mereceu. Me irritou. — Vocês sabiam que Alicia e Brice estavam dormindo juntos? — sussurro, a voz trêmula. — Claro que sabíamos — Layse rebate, impaciente. — Brice tem necessidades. E Alicia estava disposta a satisfazê-lo, já que você não estava. Na verdade, isso funciona bem para todos nós. Eu sinto as pernas fraquejarem, o chão girando debaixo de mim. Tudo dentro de mim quer gritar, mas minha garganta parece travada. — Do que você está falando? — minha voz sai como um sussurro, o coração batendo descompensado. Meu estômago se revira, sentindo que algo horrível está prestes a acontecer. Alicia inspeciona as unhas, entediada. — Nós vamos te vender, sua i****a. — Meu cérebro parece congelar, e meu peito fica tão apertado que m*l consigo respirar. — A Irmandade vai pagar muito dinheiro por você, Melinda — Layse explica, a voz calma, como se falasse de algo trivial. — Pense só em quanto você vai estar nos ajudando. — M-mas eu cozinho e limpo… — minha voz falha. Marlon balança a cabeça, os olhos frios. — Isso não basta, Melinda. Temos dívidas. Muitas dívidas. E a Irmandade quer a sua virgindade. Eles vão pagar muito bem. Um grito de pavor sai da minha garganta e, de repente, corro para a porta, desesperada para sair dali. Meu corpo inteiro treme. — Ah, não, não vai — Brice me agarra pela cintura e me dá um tapa violento, me jogando contra a parede. Eu grito quando minhas costas batem com força, o ar saindo dos meus pulmões. Brice se agacha e segura meus cabelos, puxando minha cabeça para trás. — Escute bem, Melinda White — ele sibila, o olhar escuro e frio. — Você não tem escolha. Vai ser vendida para a Irmandade, e eles podem fazer o que quiserem com você. — Ele puxa meu cabelo ainda mais, e eu solto um gemido sufocado. — Ainda bem que você era uma v***a frígida — ele provoca. — Sua virgindade vai nos render um preço muito, muito alto. — Ele olha para Marlon e Layse, que assistem à cena sem emoção. — Onde eu a coloco? — No porão — Layse decide. — Tranque a porta. Não queremos que ela fuja antes da Irmandade chegar. Enquanto Brice me arrasta, chutando e gritando, para o porão, m*l percebo o som do clique da fechadura sobre o eco dos meus próprios soluços. — Me deixem sair! — eu berro, socando a porta com toda a força que posso reunir. Mas não adianta. Ninguém vai me ajudar. Estou completamente sozinha. Me enrolo nos degraus, soluçando. Meu rosto lateja com a dor dos golpes e com o ardor das lágrimas. Mas o que dói mais é perceber que, para Marlon, Layse e Brice, eu nunca fui nada além de uma moeda de troca. Será que eles sempre planejaram isso? Esperaram eu completar 21 anos para finalmente me vender? Será por isso que Brice ficou tanto tempo comigo? Eu era apenas um meio para um fim. Mas não posso esperar aqui, esperando pela Irmandade — seja lá quem for. Sei que se eles chegarem, eu nunca mais vou ter chance de sair viva. Olho ao redor do porão com atenção. Embora este tenha sido meu quarto improvisado nos últimos três anos, nunca reparei com cuidado nos detalhes. Deve haver alguma saída. E então vejo — uma janelinha suja e pequena no canto superior direito. Uma fagulha de esperança acende dentro de mim. Minha cômoda. Quase escorrego escada abaixo enquanto corro para empurrá-la contra a parede. Com um esforço tremendo, me apoio nela, me esticando até a altura da janela. Para meu alívio, a trava está enferrujada e cede com facilidade. Um suspiro escapa dos meus lábios quando o ar frio me golpeia o rosto. Mas não me importo com o frio. Aceito o vento gelado se isso significar liberdade. Mordendo o lábio, começo a me espremer pela a******a estreita, com medo de que alguém perceba e me arraste de volta. — Vamos, vamos — sussurro para mim mesma. Com um empurrão desesperado, sinto a borda da janela arranhando minhas coxas enquanto me puxo para fora, o coração aos saltos. Caio de cara no chão, o frio queimando minha pele. Mas eu estou fora. Eu estou livre. Me levanto rapidamente e corro, fugindo o mais rápido que posso, o medo me impulsionando para longe daquela casa maldita. Não vou muito longe antes que mãos fortes me agarrem, puxando-me contra um peito sólido e frio. O metal gelado de uma arma encosta na minha têmpora e eu me encolho, um soluço preso na garganta. Isso não pode estar acontecendo, minha mente grita em pânico. — Não faça nenhum som — uma voz rouca rosna no meu ouvido. — Se você correr, você morre.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR