Capítulo 3

2159 Palavras
Matthew A batida pulsante da música reverbera pelas paredes, a linha de baixo vibrando em sincronia com as luzes que piscam em uma gama estonteante de cores. A pista de dança está lotada de corpos suados, contorcendo-se como uma massa viva ao ritmo da música. No bar, as pessoas disputam a atenção dos bartenders, gritando pedidos em meio ao som estrondoso que parece fazer tremer meus ossos. Bebidas coloridas são despejadas em copos altos, decorados com frutas de cores vibrantes e pequenos guarda-chuvas de papel, enquanto risadas e gritos se misturam ao caos. Mas a batida forte não se limita ao salão principal. Ela ecoa até o porão, onde o cheiro de mofo e sangue fresco se misturam ao som abafado da música. Encosto-me na parede fria, meus olhos fixos em um soldado dos Indomáveis amarrado a uma cadeira de madeira frágil. Ele está ensanguentado, ofegante e se contorce como um animal ferido. — Vou perguntar de novo — digo em tom entediado, tirando um fiapo invisível da minha camisa. — O que a Indomáveis está planejando? O soldado cospe uma grande quantidade de muco sangrento em mim, o que faz Vicentedar-lhe um tapa tão forte com as costas da mão que a cabeça dele é lançada para trás, o estalo ecoando pela sala abafada. Suspiro e me afasto da parede, começando a circular o soldado como um predador à espreita. Por dentro, estou fervendo de raiva. Esse desgraçado não vai nos contar nada. Algumas semanas atrás, durante um tiroteio contra a Indomáveis, um dos meus homens foi capturado. Quando o recuperamos, ele estava em pedaços. Eles o mandaram de volta como um aviso, e eu quero cada gota de sangue deles em troca. Este soldado foi pego rondando o nosso quartel-general. Trouxemos ele para o The Invictus, onde os métodos de Vicentecostumam arrancar qualquer informação de quem quer que seja. Mas esse infeliz parece decidido a morrer calado. Ele ergue a cabeça, um sorriso maníaco manchando seus lábios ensanguentados. — A Indomáveis está sempre de olho em você, Matthew Martinelli — ele provoca, cuspindo meu nome com escárnio. — O Chefe m*l pode esperar para finalmente eliminar você e sua família de merda. Minha mão se fecha em punho, meus dedos latejando com a força do aperto. p***a. O Don dos Indomáveis, Charlie Gardner, culpa meu pai por ordenar o assassinato de sua namorada e filha há quinze anos. Como vingança, ele mandou matar meu pai, minha mãe e minha irmã mais nova. Desde então, estamos em guerra, e a violência só aumenta a cada ano. Cerro os dentes, minha mandíbula doendo com a tensão. Eu não tive nada a ver com o ataque do meu pai — se é que ele realmente aconteceu. Gardner matou minha família por um pecado que não era meu. Agora, ele quer continuar essa guerra, e eu não vou recuar. Mas não vou dar a esse soldado o prazer de ver minha raiva. Em vez disso, agacho-me ao lado dele e o encaro. O sangue escorre de inúmeros ferimentos, misturando-se ao suor e ao cheiro acre e medo. Seu olho esquerdo está inchado, o nariz quebrado de um jeito grotesco. Patético. Levanto-me devagar e limpo a sujeira imaginária da minha calça antes de olhar para Vincente, que está com um sorriso sádico nos lábios. — Acabe com ele — digo, minha voz baixa e sem emoção. — Com prazer — responde Vincente, com um brilho de antecipação nos olhos. Os gritos do soldado Indomáveis ecoam quando saio da sala, fechando a porta atrás de mim. As paredes à prova de som engolem o som de seus gritos, como se o mundo aqui fora não tivesse nada a ver com a brutalidade que se desenrola lá dentro. — Então, ele gritou? — pergunta minha irmã, Casey, encostada na parede do corredor. Uma perna dobrada, os braços cruzados e uma expressão impaciente no rosto. Balanço a cabeça. — Nem uma palavra. Ela franze a testa e se afasta da parede, as botas pesadas estalando no chão. — Droga, Matthew. Não podemos continuar perdendo homens assim. — Eu sei disso — retruco, minha voz cortante. Passo a mão pelo cabelo, frustrado. — O que quer que eu faça, Cassidy? Quer que eu me ajoelhe e implore para a Indomáveis parar? — Eu quero que você pense em algo que funcione — ela rebate, os olhos faiscando. — O que está fazendo agora não está adiantando, p***a. Antes que eu possa responder, a porta se abre e Vicentesai, o avental branco encharcado de sangue. Ele passa um pano pela lâmina, limpando-a com cuidado quase reverente. — Trabalho concluído — ele anuncia em tom sombrio, fechando a porta com um estalo final. Cassidy observa-o com olhos frios, mas não diz nada. Eu aproveito para mudar de assunto. — A remessa mais recente chegou? — pergunto. Ela assente, empurrando uma mecha de cabelo escuro para trás da orelha. — Sim. Já contei tudo. Os rapazes vêm buscar dentro de uma hora. Reviro o celular no bolso, vendo as mensagens recentes. Tio Augusto quer falar comigo. Ele diz que é urgente, mas tudo parece urgente ultimamente. — Quanto? — pergunto sem tirar os olhos do celular. — Quinhentos mil — responde Casey, calmamente. Vicenteassobia. — Essa é uma boa grana. — É um bom lote — diz ela, com um encolher de ombros. Já cansei dessa conversa. Deslizo o celular no bolso e faço um gesto com a cabeça para Vincente. — Vamos. Temos coisas para resolver. Casey. imagino que você vai ficar para supervisionar a entrega? Ela me lança um olhar afiado. — Claro. Não confio em mais ninguém para isso. Quando entro no carro, o couro macio se molda ao meu corpo, mas não traz conforto. Vicentesenta ao meu lado, e meu motorista, Trajano, fecha a porta com um baque que ressoa nos meus ouvidos. Estico as pernas, tentando soltar a tensão no pescoço. Mas não adianta — a raiva borbulha dentro de mim, incessante. Xingo meu pai pela milionésima vez. Se ao menos ele tivesse me contado a verdade, eu poderia entender. Mas ele se foi, e eu sou o único que pode carregar essa guerra adiante. A cidade passa em um borrão de luzes e prédios. Vicentequebra o silêncio. — A Indomáveis está ficando mais ousada. — Eu sei — respondo com irritação. — Não preciso que me lembre disso. Meu celular vibra de novo. Marjorie Ferrari. Reviro os olhos e guardo o aparelho sem ler a mensagem. Não tenho paciência para as merdas dela agora. — Minha preocupação é que a Indomáveis e a Irmandade estejam conversando pelas minhas costas — diz Vincente. Tamborilo os dedos na porta do carro. — O Samuel odeia o Charlie, mas a Irmandade está invadindo nosso território. Talvez seja hora de dar um aviso ao Samuel . Um sorriso se forma nos lábios de Vincente. — Se você prometer se casar com a Marjorie, acho que ele aceitaria qualquer acordo. Faço uma careta de puro desgosto. — Não vou mais me meter nessa loucura. Antes que ele possa retrucar, pneus cantam e o carro freia bruscamente. Meu corpo é lançado para a frente, minha cabeça batendo na divisória com um estalo surdo. Dor e adrenalina me percorrem as veias. — Que p***a é essa, Trajano? — grito, o sangue fervendo. Ele vai se arrepender disso, a menos que tenha um bom motivo. A voz trêmula do motorista ecoa pelo carro. — Senhor, sinto muito, mas há um problema… Há uma garota sendo mantida sob a mira de uma arma. As palavras dele cortam o ar como uma lâmina. Eu me endireito, o coração batendo rápido. — Aonde? — pergunto, a fúria dando lugar à determinação. Trajano engole em seco. — No beco à nossa esquerda. Mordo o lábio, os pensamentos se reorganizando num turbilhão. — Vira o carro. Agora. O carro derrapa no asfalto, e a raiva que eu sentia pela Indomáveis se transforma em algo ainda mais perigoso: uma decisão fria. — Ninguém toca na p***a de uma garota inocente — murmuro, já sentindo o cheiro metálico de sangue que está por vir. E Vicenteapenas sorri. Filho da p**a. Pego a arma no bolso lateral da porta e saio correndo do carro, Vicentefazendo o mesmo do outro lado. Estamos em uma rua residencial cheia de casas de aparência horrível, e a poucos metros de distância está um homem segurando uma mulher apavorada pela cintura, com uma arma apontada para sua têmpora. O som do disparo ensurdecedor dos tiros automáticos irrompe, quebrando o silêncio com violência. Vicentee eu nos jogamos atrás do carro, o som das balas zunindo por cima de nós como um coro mortal. Rapidamente, troco o carregador da minha arma e destravo o mecanismo com um clique seco. — É a p***a dos Indomáveis! — grito por cima do estrondo das balas que ricocheteiam na lataria reforçada do carro à prova de balas. Arrisco uma olhada pela lateral, respirando o cheiro acre de pólvora que parece queimar minhas narinas. Do outro lado da rua, vejo um soldado dos Indomáveis segurando uma mulher como escudo humano, o braço dele apertado ao redor do pescoço dela enquanto aponta a arma em nossa direção. Com um movimento abrupto, ele a empurra para o chão. A cabeça dela bate contra o asfalto com um estalo seco que ecoa em meus ouvidos. Vicentee eu trocamos um olhar breve. Ele assente, e antes que eu possa pensar em qualquer outra coisa, Vicentese ergue e avança com firmeza, puxando o gatilho de sua submetralhadora. A chuva de balas atravessa o peito do soldado dos Indomáveis, arremessando-o para trás até que ele caia morto, largando a mulher ao lado. Dou a volta rápida no carro e corro até onde Vicenteestá. Nos aproximamos do corpo com cautela. Por um instante, o silêncio se impõe, exceto pelo som do meu coração disparado e o zunido nos meus ouvidos. A perna do soldado morto ainda se contrai, reflexo de um corpo que não entendeu que já não tem mais vida. Levanto minha pistola e sem hesitar disparo um único tiro certeiro no meio da testa dele, apagando qualquer dúvida que pudesse restar. O silêncio volta a reinar, agora ainda mais pesado, interrompido apenas por nossos suspiros idênticos de alívio. Vicenteme lança um olhar satisfeito. — Bom trabalho — digo, dando-lhe um tapinha no ombro. Ele sempre foi o melhor atirador que já tive. Vicentegrunhe e depois aponta o polegar para a mulher caída no chão. — O que fazemos com ela? — pergunta, sem emoção na voz. Me aproximo dela e a observo com atenção. Seus cabelos castanhos longos e cacheados estão espalhados sobre o asfalto, e o vestido curto, praticamente indecente, está subido até a parte superior das coxas. Um salto alto ainda balança em seu pé, o outro está há alguns metros distante, como se contasse a história de um momento brutal. Ela parece tão frágil, quase como uma boneca quebrada. Prostituta? Provavelmente. Roupas assim não deixam muita dúvida. Mas então por que a Indomáveis a estava usando como refém? Por que ela estava aqui, no meio de fogo cruzado? Olho mais de perto e algo nela me parece estranhamente familiar. Não consigo lembrar onde a vi antes, mas o reconhecimento lateja no fundo da minha mente como uma pontada incômoda. Eu não costumo recolher cães de rua — muito menos uma mulher desconhecida e ferida — mas sei que logo a Indomáveis vai aparecer para ver o que aconteceu aqui. E as luzes que começam a acender nas janelas ao redor dizem que não temos muito tempo. Cassidy vai me matar por isso, penso, mas a decisão já está tomada. Eu não vou deixá-la aqui para morrer ou para ser levada pela Indomáveis — especialmente se ela sabe alguma coisa. Cuidadosamente, levanto o corpo inconsciente da mulher em meus braços. Ela é leve, quase sem peso, e sua cabeça tomba contra meu peito. Sinto o calor frágil dela e o cheiro de medo misturado ao perfume barato que ainda gruda em sua pele. — Ela vem com a gente — digo a Vincente, sem rodeios. — Estamos em território da Indomáveis. Se ela estava com eles, pode saber de alguma coisa. Vicenteapenas balança a cabeça, e juntos voltamos para o carro. Coloco a mulher no banco de trás, certificando-me de que ela está respirando. Ainda viva, mas por quanto tempo? Ela agora faz parte do jogo, quer ela queira ou não. Fecho a porta e, por um momento, olho para a rua vazia e para as sombras que se formam nos becos escuros. A guerra não vai parar. Mas essa garota pode ter respostas — e se ela tiver, eu vou arrancá-las dela. — Vamos embora — ordeno, sentando ao lado de Vincente. — Antes que esses filhos da p**a apareçam de novo. E o carro arranca, levando conosco a mulher desconhecida que pode muito bem ser a chave para virar essa guerra.
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