Capítulo 9

2828 Palavras
Melinda Algo se rompe dentro de mim diante da expressão presunçosa de Matthew. Estou farta de todo mundo. Nas últimas... Deus sabe quantas horas, fiquei trancada num porão, escapei, quase fui levada à força por homens armados, fui resgatada por um chefão da máfia, depois presa por outro chefão da máfia, tentei fugir duas vezes e ainda assim... acabei no mesmo maldito lugar. Eu não pedi por nada disso. Não pedi para os Lewis e o Brice me venderem como se eu fosse um objeto descartável, e certamente não pedi para ficar trancada na casa de um mafioso, sem poder sair simplesmente porque ele decidiu assim. E a minha agência? Eu tenho o direito de ir e vir quando quiser, droga! — Como você sabia que eu estava tentando ir embora? — pergunto, a voz áspera e cansada. Matthew ri, acariciando o corpo comprido do cachorro. — Essa é a minha casa, Melinda. Não acontece muita coisa aqui sem que eu saiba. — Por que você não me deixa ir embora? — repito, cruzando os braços firmemente, tentando esconder o tremor na minha voz. Ele inclina a cabeça para o lado, estudando-me com aquela calma irritante. — Ah, me desculpe, Melinda. Minha casa não é confortável para você? — rebate, com um tom que faz meu sangue ferver. Eu franzo a testa, mordendo a língua para não gritar. — Por que você não me deixa ir para casa? — insisto, as mãos cerradas em punhos. — Não quero ser prisioneira de ninguém. Só quero que me deixem em paz. Matthew ri de novo, como se eu fosse uma criança birrenta. — Que casa, Melinda? Pelo que eu entendi, depois que você escapou daquele porão, aquela casa deixou de ser seu lar. Sua família adotiva e seu namorado estão bem irritados com você e estão tentando te caçar. Você também tem uma máfia perigosa te procurando. Você e eu sabemos que, no momento em que você pisar naquela casa, será levada para a Irmandade e nunca mais será vista. E eu não posso permitir isso. Ele para de coçar a cabeça de Biscoito, e seu rosto assume uma seriedade que me faz estremecer. — A menos que você queira ser vendida como escrava s****l. Aí, sem dúvida, eu te mando de volta com prazer e recebo a minha parte. O tempo parece congelar com suas palavras. Meu peito aperta como se um punho invisível me esmagasse as costelas. — V–Você também está metido nisso? — sussurro, horrorizada. Todos os meus instintos gritam para eu correr, mas meu captor — Vicente— está atrás de mim, e sei que nunca conseguiria passar por ele. Matthew revira os olhos, impaciente. — Você não está ouvindo uma palavra do que eu estou dizendo? Fui encarregado de te encontrar e te entregar viva para a Irmandade. Tudo isso foi combinado depois que te tiramos da Indomáveis . Naquela época, eu nem fazia ideia de quem você era. Se eu estivesse realmente envolvido nesse esquema, já teria te jogado aos pés do Samuel Ferrari. Consigo respirar novamente, embora o corpo ainda trema com o medo que me atravessa. Por um momento horrível, pensei que Matthew fosse me trair. Mas trair? Isso implica que somos aliados, e eu sou prisioneira dele. Traição pressupõe confiança, e entre nós não há nada além de conveniência. — Você quer voltar para a sua família adotiva? — pergunta Matthew, seus olhos cravados nos meus. — Diga a palavra e acontecerá. Você vai ser muito i****a por fazer isso, mas você tem escolha nessa questão. A ideia de voltar para a casa dos Lewis e cair direto no pior pesadelo da minha vida me faz tremer. Cruzo os braços sobre o peito, tentando me proteger do arrepio que explode pela minha peleNão — admito, a voz saindo num sussurro. — Não, eu não quero voltar. — Essa provavelmente foi a decisão mais inteligente que você tomou o dia todo — comenta Matthew, com um sorriso presunçoso que me dá vontade de socá-lo. Ele realmente acabou de me chamar de i****a? — Então me deixe desaparecer — deixo escapar, desesperada para fugir de tudo, até dele. Embora eu odeie ser prisioneira, sinto que estar no mesmo cômodo que Matthew é como tocar em um fio desencapado — energia crua e perigosa. Matthew ergue uma sobrancelha, seu sorriso cheio de diversão. — Sem querer ofender — ele diz, claramente querendo ofender — mas você não é do tipo que desaparece. — O que isso quer dizer? — pergunto, sentindo minha raiva crescer. — Significa que você tem a esperteza de uma criança. Você não duraria nem alguns dias lá fora antes de fazer alguma besteira, ser capturada e sumir para sempre. — Ele dá de ombros, ignorando meu olhar fulminante. — Então, como você pode ver, o lugar mais seguro para você agora é aqui comigo. Ele dá um sorriso irônico. — Você poderia ao menos dizer “obrigada” — provoca, a voz carregada de sarcasmo. Vejo através das provocações de Matthew. Ele está me oferecendo uma chance de salvação, uma chance de sobreviver, talvez até prosperar se eu jogar minhas cartas direito. Tudo o que preciso fazer é baixar a cabeça, obedecer e ficar fora do radar. Foi assim que sobrevivi com os Lewis. Mas algo dentro de mim se contorce, rejeitando essa mansidão. As palavras de Casey ecoam na minha mente: — Você é uma loba em pele de cordeiro, Melinda. Aceite isso, p***a. Penso em Brice e Alicia rindo enquanto eu me esquivava de qualquer resposta mordaz. Penso em como Marlon e Layse me tratavam como um coelho arisco — útil, mas descartável. Não, sussurra algo feroz dentro de mim. Eu não sou uma vítima. Posso ser algo mais. Posso ser um trunfo, não um fardo. Escolho ser um trunfo. Sinto como se um peso enorme caísse dos meus ombros. O medo ainda está lá, mas sinto que posso segurá-lo e transformá-lo em algo mais — em força. Matthew observa, e vejo algo parecido com aprovação em seus olhos. Será que ele vê essa decisão em mim? Será que ele percebe o que mudei? — O quê? — a voz de Casey corta meus pensamentos. Ela está vermelha de raiva quando pula da cadeira. — Você só pode estar brincando, Matt. Matthew ergue uma sobrancelha. — Eu nunca brinco, Casey. — Matthew, fala sério! Embora eu concorde que Melinda não deva ser entregue à Irmandade, você está nos colocando em risco ao mantê-la aqui. Já temos a Indomáveis no nosso rastros, e eles quase te mataram hoje! — Eles m*l me arranharam! — retruca Matthew, mas Casey está furiosa. — A última coisa que precisamos é que a Irmandade descubra que Melinda está aqui, especialmente quando nossa relação com eles é, na melhor das hipóteses, frágil! Você quer que Indomáveis e Irmandade se aliem só pra nos destruir? As palavras dela me atingem como um soco, mas percebo que não são só sobre mim — são sobre proteger a família dela. E se eu tivesse uma família, provavelmente faria o mesmo. — Então o que quer que façamos com ela? — pergunta Matthew. — Mande-a embora — Casey diz, com uma determinação fria. Então ela se vira para mim. — Para onde você quer ir, Melinda? Podemos conseguir novos documentos e dinheiro para você desaparecer. Itália, Espanha, onde quiser. Podemos te mandar para longe. A ideia de recomeçar em outro país parece tão tentadora quanto perigosa. Eu poderia desaparecer, mas nunca deixaria de olhar por cima do ombro, esperando que tudo desabasse. — Ela não vai a lugar nenhum — diz Matthew, a voz dura como pedra. — E minha decisão é final, CaseyVocê não faria o mesmo por Natalie? O nome parece congelar o ar. Não sei quem é Natalie, mas vejo a dor crua passar pelos olhos de Casey antes de ela se recompor, raiva queimando em seu rosto. Ela dá um passo em direção a Matthew e, por um segundo, penso que ela vai bater nele. — f**a-se, Matthew — ela rosna, antes de sair, passando por mim e Vincente. A porta bate tão forte que o som ecoa como um trovão, e até Biscoito rosna. Vicentesuspira, lançando um olhar exasperado para Matthew. — Golpe baixo, mano — murmura, seguindo Casey e nos deixando sozinhos. — Melinda — diz Matthew, a voz baixa e rouca, e sinto meu coração acelerar. — Vem cá. Ele dá um tapinha no espaço vazio ao lado dele na cama. Meu coração martela no peito, e minha boca fica seca. Mesmo sabendo que ele está ferido, que não tem nada de s****l nesse pedido, sinto um arrepio percorrer minha espinha. Engulo em seco e atravesso o quarto, cada passo ecoando no tapete felpudo. Quando chego perto, meus olhos percorrem as linhas tensas do seu corpo sob os lençóis. Repreendo-me em silêncio — o homem está machucado! — Como você está se sentindo? — pergunto, orgulhosa de conseguir manter a voz firme enquanto me sento na beira da cama. — Estou bem — ele diz, com um sorriso de lado. — Ferimentos superficiais sangram pra caramba, mas não são perigosos desde que não infeccionem. Não é a primeira vez que levo um tiro, e provavelmente não será a última. — Ele respira fundo, quase distraído. — Embora seja a primeira vez que alguém erra um tiro tão feio. Talvez eu devesse contratar Casey pra dar umas aulas de tiro. — Casey sabe atirar? — pergunto, e assim que as palavras saem da minha boca, me arrependo. É claro que ela sabe. Ela é uma subchefe de uma família mafiosa. Matthew apenas sorri. — Você vai aprender rápido que todos aqui sabem se defender, Melinda. Até você, se quiser. Eu não respondo. Só sinto o peso dessa nova realidade — e de que, de algum modo, estou presa nela, queira ou não. Mas Matthew não parece achar a pergunta ofensiva. — Minha melhor atiradora — diz ele, com um meio sorriso. — Ela sempre foi melhor nisso do que eu, embora eu vá negar isso até o dia da minha morte. Estremeço com sua tentativa falha de piada. Ferimento superficial ou não, ele esteve em grave perigo hoje. — Quem é Natalie? — pergunto, pensando na expressão de Casey. Por trás daquela raiva, havia devastação. Quem quer que fosse Natalie, significava muito para ela. Ele ignora minha pergunta. Em vez disso, estende a mão, os dedos roçando meu braço e deixando um rastro de arrepios elétricos. Minha respiração fica presa na garganta quando ele enrola um dos meus cachos em seus dedos. — Tão macio — ele murmura, passando os dedos pela base do meu cabelo comprido. Meu coração dispara, e sinto minhas entranhas se contorcendo enquanto ele brinca com meus cachos. — Você tem o cabelo mais lindo. Sou incapaz de falar, apenas observo com os olhos arregalados Matthew enrolar um cacho castanho em seu dedo, os fios brilhando à luz suave do abajur. Está cada vez mais difícil ignorar o pulsar quente no meu ventre, e tento me recompor, cruzando os tornozelos para conter o nervosismo. — É uma pena que teremos que cortá-lo e tingi-lo — suspira Matthew, parecendo genuinamente desapontado. — O quê? — ofego, sentindo como se tivesse levado um balde de água fria. Ele franze as sobrancelhas. — A Irmandade sabe como você é, Melinda. É claro que teremos que mudar sua aparência. O objetivo é te esconder à vista de todos. — M–Mas... — agarro meu cabelo, o coração se apertando. Pode parecer bobo, mas meu cabelo sempre foi meu orgulho e alegria. As pessoas me paravam o tempo todo para elogiar meus cachos. Era a única coisa que Alicia realmente invejava, já que o dela era liso e nunca segurava um cacho. É quase como meu cobertor de segurança. Vou me sentir nua sem ele. — Você quer ser pega ou não? — Matthew me pergunta, a voz firme, quase impaciente. — É o único jeito, Melinda. — Não acredito que estou fazendo isso — murmuro para mim mesma, olhando para a caixa de tinta de cabelo no balcão do banheiro. Nunca pintei meu cabelo antes; sempre gostei da cor castanha natural. — Não se acovarde agora — disse Matthew, ainda parado na porta. Ele veste uma calça de moletom preta e uma camiseta cinza, as bandagens brancas aparecendo pela gola. — É para o seu bem. Além disso, não dizem que mudar o cabelo é uma terapia para as mulheres? Sinto minhas bochechas corarem ao encontrar o olhar dele no espelho. — Talvez para algumas, mas não para mim. Sempre amei meu cabelo como ele é. — Ainda será seu cabelo — ele ressalta, com um toque de impaciência. — Só que de cor e comprimento diferentes. — Meu Deus, os homens realmente não entendem. Minhas mãos tremem ao rasgar a caixa, a modelo de cabelos negros sorrindo para mim como se zombasse do meu medo. Respiro fundo antes de olhar para Matthew. — Você vai me ajudar? Um brilho predatório surge em seus olhos enquanto ele se afasta da porta, rindo baixinho. O som faz um arrepio subir pela minha espinha. — Como quiser. Ele se aproxima de mim, a presença dele quente e dominante enquanto pega o frasco de tinta dos meus dedos trêmulos. Minha respiração trava quando sua mão roça a minha. — Vire-se — ele murmura, já passando o pincel aplicador no creme preto espesso. Obedeço, o coração disparando enquanto Matthew aplica cuidadosamente a primeira mecha de tinta. Sua outra mão segura minha nuca, mantendo-me firme, e ele espalha a tinta em pinceladas largas e confiantes. A tinta é fria contra o couro cabeludo, mas quase não percebo. Meu corpo inteiro arde com a proximidade dele, o perfume de sândalo nublando meus sentidos até que tudo em que consigo me concentrar é o toque escaldante de sua mão roçando meu pescoço, meus ombros, a curva delicada da minha clavícula... Um gemido baixo escapa dos meus lábios antes que eu consiga contê-lo. Matthew congela, seu olhar de pálpebras pesadas se encontra com o meu no espelho. O canto de sua boca se curva em um sorriso provocante. — Você está bem aí? — ele murmura, a voz grave e rouca. Concordo com um aceno trêmulo, sentindo que estou à beira de desmaiar. O sorriso dele se aprofunda antes de continuar pintando meu cabelo. — Você sabe usar um pincel de tintura — digo com a voz fraca. — Já ajudei Casey a pintar o cabelo algumas vezes — ele responde, ainda com aquela voz baixa e rouca que me faz estremecer. Quando ele termina, estou a segundos de explodir em chamas. Matthew afasta as mãos com relutância, seus olhos percorrendo meu cabelo recém-tingido com algo que parece orgulho. — Assim está melhor — ele diz, piscando para mim. — Agora, venha. O cabeleireiro da Casey está aqui. Atordoada, sigo Matthew até uma cadeira de salão improvisada no quarto ao lado. Logo sou apresentada a Richard, que promete me dar o melhor corte de cabelo da minha vida. Recorte. Recorte. Recorte. O som da tesoura rasgando meu cabelo comprido é quase hipnótico — e, ao mesmo tempo, aterrorizante. Seguro firme as laterais da cadeira enquanto vejo as mechas caírem aos meus pés, como fantasmas do que eu era antes. Durante anos, meu cabelo foi meu escudo, minha âncora. Incontáveis horas foram gastas cuidando dele, arrumando-o para parecer perfeita em jantares de negócios e eventos elegantes. Era parte de quem eu era… ou assim eu pensava. Mas, a cada corte, sinto algo dentro de mim se desprendendo. Um peso que eu nem sabia que carregava escorre com os fios no chão. No espelho, uma estranha começa a surgir. Essa mulher tem um corte chanel na altura dos ombros, as pontas bem aparadas e elegantes, emoldurando meu rosto de forma ousada. Meus olhos castanhos, antes escondidos por cortinas de cabelo, agora parecem mais vivos, mais alertas. Uma lágrima silenciosa escorre pela minha bochecha enquanto meus dedos tocam o novo corte. Vejo, finalmente, quem está olhando de volta para mim: uma versão de mim mesma que não sabia que existia. — Tchau! — canta Richard, girando a cadeira para eu me ver de frente. — Então, o que acha? No espelho, Matthew e Casey aparecem ao fundo, observando com expressões orgulhosas. — Uau — Casey, comenta, olhando para Matthew. — Com esse novo visual, Melinda ficou muito parecida com a nossa prima, Isabella . Meus lábios se curvam num sorriso lento e confiante. Quando Matthew insistiu que eu precisava cortar meu cabelo, eu fiquei apavorada. Mas, agora, percebo que ele tinha razão. — Eu adorei — sussurro, tocando os cachos negros que caem até meus ombros. Era mais do que um corte de cabelo. Era a chance de me reinventar — de cortar laços com o passado e me preparar para o futuro, por mais incerto e perigoso que fosse.
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