Melinda
Assim que Matthew e o outro homem — Vincent, eu acho — saem correndo do quarto, Casey chuta a cama com força, um estrondo seco que me faz recuar, temendo que ela volte essa fúria contra mim.
— Matthew, p***a! — ela dispara, os olhos faiscando. — Ele me nomeou subchefe dele, mas ainda me trata como se eu fosse a p***a de uma babá! Eu vou matá-lo, se tentar fazer isso de novo. Juro que vou afogá-lo.
Apesar do medo, a curiosidade toma conta de mim. Casey é a primeira mulher que vejo aqui, e algo nela me intriga. Talvez eu possa convencê-la a me ajudar? Meu instinto diz que tentar escapar de novo não daria certo. Casey exala força e confiança, músculos magros e tensão controlada — ela é uma presença que domina qualquer sala.
— Quem é você? — pergunto, a voz trêmula, estremecendo quando Casey se vira para me encarar, estreitando os olhos castanhos. — Onde estou? Por que vocês estão me mantendo aqui?
Talvez ela me dê respostas melhores que as de Matthew.
Cassete inclina a cabeça para o lado, os cabelos pretos deslizando pelo pescoço pálido. — O que isso tem a ver com você? — ela rebate com desdém.
Eu me esforço para não pedir desculpas, imaginando que ela desprezaria isso.
— E-eu só quero saber o que está acontecendo — confesso, a respiração presa. — Só sei o nome de Matthew e que estou na casa dele.
— Bem, então uma das suas perguntas já está respondida — retruca Casey. Ela treme de leve, parada diante da janela aberta onde uma escada de corda ainda balança. Quando vai fechá-la, para e passa os dedos pela corda. Seus olhos percorrem o quarto — a cama desarrumada, as gavetas abertas da cômoda.
Casey agarra a escada e fecha a janela antes de se virar para mim. Ela aponta para a corda. — Você fez isso?
Concordo rapidamente, muda de medo. Ela me intimida mais que Matthew. Há algo no jeito como anda, fala e me avalia que me faz sentir nua, como se pudesse ler meus pensamentos.
Casey ergue as sobrancelhas e puxa a corda, examinando o nó. — Bom trabalho. O nó de tecelão ficou perfeito, especialmente sob pressão.
Ela está me elogiando?
Seus olhos me percorrem de cima a baixo, como se me visse sob uma nova luz. — Sou Casey — diz ela, finalmente. — É uma abreviação de Cassidy, mas ninguém me chama assim, a menos que queira morrer de dor.
Não acho que ela esteja brincando.
— Matthew já te disse onde está, então não vou repetir. Mas por que você está aqui? Isso, Melinda, é algo que só você pode nos dizer.
— Eu não sei de nada! — rebato, sentindo o desespero ferver em minhas veias. — Nunca ouvi falar da Invictus...
— Indomáveis — corrige Casey, ríspida.
— ...ou da Irmandade! Vocês continuam me acusando de saber algo e não acreditam quando digo que não sei!
— Você pode nos culpar? — pergunta Casey, dando passos ao meu redor como uma predadora ronda sua presa. — Duas das famílias mais poderosas da máfia estão atrás de você, e você, convenientemente, não sabe nada? É difícil de engolir.
Um arrepio sobe pela minha espinha. — Máfia? Eu pensei que isso tivesse acabado com o Al Capone...
Casey inclina a cabeça para trás e solta uma gargalhada alta. — Não.
De repente, tudo faz sentido: Matthew de terno, as armas, o carro de luxo, Casey se chamando de subchefe. Meu estômago revira e minha boca seca. — Você também faz parte...?
— Muito bem, Melinda — diz Casey, com um sorriso frio. — Finalmente entendeu. Trabalho nota dez. Nunca ouviu falar de O Poderoso Chefão? Somos parecidos — mas sem a trilha sonora romântica.
O horror me invade. — E... e Matthew vai me matar?
Casey me olha com um brilho enigmático e dá de ombros, como se não fosse nada. — Depende.
— Depende de quê? — pergunto, a voz embargada de medo.
Casey sorri com ironia, cruzando os braços enquanto me observa como um gato observa um rato. — Depende se você vai ser um trunfo ou um problema. Você vale muito para a Irmandade e, imagino, para a Indomáveis também. Poderíamos simplesmente vendê-la para qualquer um deles e assistir enquanto duelam por você.
— Você... já matou alguém? — A pergunta escapa antes que eu possa contê-la, e instantaneamente me arrependo. Talvez fosse melhor que Matthew me matasse do que ela.
O sorriso dela cresce, lento e perturbador. Meu estômago dá um nó, e levo a mão à boca, sentindo o gosto metálico do medo.
— Mas chega de suas perguntas. Agora é a minha vez — diz Casey, sentando-se na beirada da cama, despreocupada com a minha angústia. — Você diz que não sabe nada, mas deve haver um motivo para a Irmandade te querer tanto. Qual é?
— Eu não sei — respondo, a voz fraca, como se o ar tivesse sido arrancado dos meus pulmões. — Eu não sou ninguém.
Casey bufa e gesticula para a escada de corda. — Duvido muito, baseado nesse nó perfeito que fez. E essa atitude de “coitadinha” não me convence. Você é uma loba em pele de cordeiro, Melinda. Aceite isso.
Eu não sei o que responder. Quero dizer que ela está errada, mas sinto que ela me esmagaria com o olhar.
— Seu namorado estava tentando te vender? — pergunta Casey, apontando para o meu rosto machucado. — A Irmandade gosta de traficar pessoas.
Ela fala disso como se fosse trivial, e por um momento eu a invejo. Não pela natureza do que está dizendo, mas pela confiança e frieza dela — qualidades que eu gostaria de ter em vez desse medo constante.
— E então? — insiste Casey, fitando-me nos olhos. — Vai responder?
Sinto a raiva borbulhar dentro de mim. Por que todos esperam que eu saiba tudo?
— Talvez se você ficasse quieta por cinco segundos, eu me sentisse a vontade para responder alguma coisa — solto, antes que possa me conter.
O silêncio paira pesado. Meu coração bate como um tambor enquanto percebo o que acabei de dizer. p***a. Agora estou morta.
Mas, para minha surpresa, os olhos de Casey, se arregalam antes de ela abrir um sorriso largo, quase desconcertante. — Muito bem, Melinda — ronrona ela. — Viu? Você não é só uma flor de parede.
Não sei se é um elogio ou um insulto, mas estou aliviada que ela não tenha me matado.
— Com base nessa sua resposta tão defensiva — continua Casey, o sorriso de gata analisando meu rosto —, vou assumir que sim, seu namorado estava tentando te vender.
Minhas pernas fraquejam e meus ombros desabam, como se o peso de tudo fosse maior do que eu pudesse suportar. As lágrimas me invadem, quentes e silenciosas, e sinto a falta da minha mãe mais do que nunca. O que eu daria para estar em seus braços agora, para ela dizer que tudo vai ficar bem...
Sinto uma mão quente no meu ombro e percebo Casey ao meu lado, seu olhar mais suave. Envergonhada, enxugo as lágrimas, sentindo que estou me expondo demais. Por que eu quero tanto a aprovação dela?
— Não foi só o seu namorado, foi? — Casey
pergunta com delicadeza.
Concordo, fungando. — Meus pais adotivos também — admito, num sussurro.
Casey fecha a mão em punho antes de soltar um suspiro pesado. — Seus pais tentaram te vender junto com seu namorado? — Ela está horrorizada.
— Pais adotivos — corrijo. — Mas sim.
Por um instante, o rosto dela perde a frieza. Seus olhos se estreitam, e eu dou um passo para trás, intimidada pelo fogo que vejo ali.
— Você quer que eu cuide deles? — pergunta ela, casual, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Meus olhos se arregalam. — Não! Por favor, não machuque ninguém. Não posso viver com isso.
— Na sua consciência? — Casey repete, incrédula. — Melinda, eles tentaram te vender como escrava s****l! Por que ainda se sente leal a eles?
Ela não vai entender, mas talvez, só talvez, eu devesse tentar.
— Estive em um orfanato desde os seis anos — digo, cada palavra saindo como um arranhão. — Minha antiga família adotiva me maltratou, e eu fugi. Meus pais atuais me resgataram antes que eu fosse sequestrada. Eles me deram um lar, e por muito tempo foram tudo o que eu tinha.
— Eles são pessoas más, Melinda — rebate Casey, e eu rio sem humor.
— E você é o quê? — devolvo, vendo a irritação passar pelo rosto dela. — Você faz parte da máfia. Não é exatamente santa.
— Nunca vendi ninguém para escravidão s****l — retruca ela. — Existe um limite, Melinda.
Dou de ombros. — Talvez. Mas eu devo a vida a eles. Você não precisa entender — só aceitar que ninguém vai machucá-los.
Nesse momento, um alarme estridente ecoa pelo quarto, e um calafrio me percorre. Casey empalidece e corre para a porta, que se abre com violência. Homens correm pelo corredor, vozes gritando.
— O que está acontecendo? — grito, mas Casey não responde. Ela desaparece no corredor, a porta ainda balançando aberta atrás dela.
Eu fico ali, sozinha no quarto, com o coração martelando e o medo crescendo como uma onda.
O que quer que esteja acontecendo não é bom. Mas essa pode ser a distração que eu preciso para sair daqui.
Espiando a cabeça para fora da porta, vejo que o corredor está vazio. Essa é a minha chance.
Corro pelo corredor e chego a uma escada que leva à porta da frente. Meu coração salta para a garganta. Liberdade…
Quase me jogo escada abaixo, meus pés acelerando enquanto a porta se aproxima cada vez mais. Estendo a mão para agarrar a maçaneta, quase sentindo o ar fresco da noite, mas alguém me agarra pela cintura e me puxa para trás.
Não! De novo não! Eu me debato nos braços do meu captor, tentando afundar o cotovelo ou o joelho em algo macio, mas tudo o que encontro é carne dura. — Me solta! — grito.
— Você não vai a lugar nenhum até que Matthew diga —, uma voz grave ecoa em meu ouvido enquanto sou carregada de volta para o andar de cima. Lágrimas brotam em meus olhos ao ver minha liberdade se esvaindo a cada passo em direção à minha prisão.
Eu estava tão perto. Tão perto.
Meu captor me deixa do lado de fora de um quarto e abre a porta, mantendo a mão firme em meu pulso para me impedir de escapar novamente. Ele me empurra para dentro e fecha a porta atrás de si.
O quarto em que estou é espaçoso, com teto detalhado e janelas grandes que deixam entrar bastante luz natural durante o dia. No entanto, o ambiente parece habitado, com roupas e revistas espalhadas aleatoriamente.
Fotos emolduradas de carros esportivos clássicos — Ford GT40, Lamborghini Countach, Ferrari Testarossa — adornam as paredes. Ao longo de uma delas, há uma cômoda enorme de madeira, o tampo coberto de miniaturas de carros. A porta aberta do arSamuel revela uma confusão de roupas, sapatos e materiais de acabamento automotivo.
Um canto abriga uma cama de cachorro de pelúcia, rodeada por brinquedos bem mastigados. Mas minha atenção está fixada na cama king-size no centro do quarto, onde Matthew descansa sobre lençóis vermelhos amassados, o peito envolto em gaze branca e bandagens. Um pequeno dachshund está enrolado na curva de seu braço, e o cachorro se anima assim que meu captor e eu entramos, soltando um rosnado de aviso.
Casey está sentada em uma cadeira ao lado da cama e olha feio para o cachorro, o rosto pálido. — Quieto, Biscoito — ordena ela.
Apesar da situação séria e do medo que sinto, luto contra um sorriso ao ouvir o nome do cachorro. Talvez eu tenha assistido a muitos filmes da máfia, mas eu esperaria que um chefão tivesse um pit bull ou um pastor alemão — não um cachorrinho de colo com nome de biscoito.
— Você está bem, Matthew? — pergunta meu captor, a preocupação estampada em seu rosto. Ele é o mesmo homem que discutiu com Matthew e Casey sobre o que fazer comigo.
Matthew acena com a mão, visivelmente irritado, mas seu rosto pálido e as olheiras fundas o denunciam. — Estou bem — diz ele. — Só um ferimento superficial. Nem sei por que estou deitado aqui.
— Foram dois tiros no ombro — corrige Casey, a voz trêmula.
— Fui só de raspão — retruca Matthew, suspirando. — Os idiotas da Indomáveis não sabem atirar. Uma vergonha. Se eu fosse Gardner, me livraria deles.
Os olhos escuros de Matthew finalmente se fixam em mim, e um sorriso irônico surge em seus lábios enquanto ele acaricia preguiçosamente o cachorro. Meu coração dispara sob seu olhar ardente.
— Você realmente achou que poderia escapar de mim, Melinda? — ele murmura, a voz baixa e carregada de algo que me faz estremecer. — Eu já disse antes, você é minha. E agora…
Ele ergue uma sobrancelha, os lábios curvados num sorriso perigoso. — Agora, você não tem mais para onde correr.