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733 Palavras
**Capítulo 5 - Nolasco Narrando** Olhando pro morro da Santa Marta, não tinha como não sentir a tensão no ar. Essa favela já viu de tudo: guerra, traição, polícia subindo na miúda. Mas eu tava aqui pra desvendar os segredos que esse lugar guarda. Não é de hoje que o Santa Marta tá na boca do povo, cheio de mistério e história m*l contada. A morte do Medrado, por exemplo, foi o estopim. Parceiro antigo nosso, era das antigas, sangue frio e leal. Mas o sumiço dele não desceu redondo. Foi aí que os outros morros começaram a olhar torto pra gente, achando que tinha coisa errada. Toco, meu afilhado no crime, segurava as pontas, mas não era por respeito, não. Era medo. O nome dele ainda pesava. Só que agora o jogo mudou, e eu tava aqui pra botar ordem nessa bagunça e descobrir o que realmente tava rolando. Dentro da boca, a fiel do Toco, Antonella, me encarava como se quisesse arrancar alguma resposta. Mas ela não ia me intimidar. — Toco tá preso — soltei, direto, sem firula. Ela me olhou desconfiada, com aquela pose de quem não leva desaforo. — Foi preso ontem de madrugada, fugindo de uma blitz enquanto vinha ao meu encontro. — E por que ele ainda tá preso? — ela retrucou, cortante. — Se ele tava indo falar contigo, no mínimo você já devia ter resolvido isso. Suspirei, tentando manter a calma. — Ele não deu entrada em nenhuma penitenciária ainda. — Isso quer dizer que ele pode tá morto? — Ela arregalou os olhos, a tensão estampada no rosto. — Não. — Cruzei os braços, encarando ela. — Mas vão dificultar a saída dele, isso é certeza. Ela ficou calada, mas seus olhos passeavam pela sala, analisando cada movimento. Era esperta, dava pra ver. Não era só uma mulher que segurava as pontas pro marido. Tinha malícia ali. — Quem é você, afinal? — ela perguntou, o tom desafiador. — Sou o Nolasco, padrinho de crime do Toco. Agora quem manda no Santa Marta sou eu. — Falei firme, deixando claro que aqui o papo era reto. — Como eu disse, todo mundo que tá aqui vai ter que seguir minhas ordens. Quem não quiser, a porta tá ali. Ela respirou fundo, mas a indignação tava na cara. — Quero ver meu marido. — Quando ele tiver numa penitenciária e receber autorização de visita, você vai ser a primeira a ir lá — respondi. — Inclusive, você vai levar informações e pegar o que for preciso pra gente. Ela bufou, cruzando os braços. — Então vou virar sua garota de recado? Ri de canto, mas minha paciência tava no limite. — Você vai fazer o que tem que ser feito. Tá achando que isso aqui é novela? Tu é fiel de bandido, teu marido tá preso, p***a! — soltei, elevando o tom. — Se tu quer sobreviver ao inferno, precisa dar a mão pro d***o. Ela me encarou, furiosa, mas não respondeu. — Agora, vaza da boca. Tenho assuntos pra resolver com os outros. Quando eu tiver recado, eu mando te chamar. Ah, e arruma os quartos da casa do Toco. Vou ficar lá com o Ryan e a fiel dele. Ela travou o maxilar, claramente engolindo o orgulho. Antes que retrucasse, Salve colocou a mão no ombro dela, num gesto que dizia mais do que qualquer palavra: *aceita e cala a boca*. Ela olhou pra ele, respirou fundo e assentiu. Mas o ódio nos olhos dela era claro como o sol no céu. Quando ela saiu, fiquei olhando até a porta fechar. Não era difícil enxergar que essa mulher ia me dar mais trabalho que o próprio Toco. — Tá aí uma mulher que não baixa a cabeça fácil — comentei, mais pra mim mesmo. Ryan, que tava encostado na parede, riu de leve, mas o tom era sério. — Fica esperto com ela. Toco confiava demais, mas essa daí tem veneno. — Já tô ligado, Ryan. — Passei a mão no queixo, pensativo. — Mas vou descobrir até que ponto ela tá jogando. Ele só balançou a cabeça, concordando. Dentro do morro, não tinha espaço pra ingenuidade. E se ela fosse esperta mesmo, ia entender que, pra sobreviver, precisa jogar no meu time. Por enquanto, eu ia observar. Ela podia até achar que tinha controle, mas aqui, a última palavra era minha.
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