Joalin
Eu m*l conseguia acreditar, fazia meia hora que eu e Bailey estávamos dentro daquele estúdio e agora eu tinha uma linda tatuagem de borboleta. Ele me conhecia tanto e literalmente tinha me dado o melhor presente que eu poderia ganhar, também era o que eu menos esperava.
Passei os últimos meses sonhando com essa tatuagem, que significava tanto para mim, não só uma nova fase na minha vida mas um crescimento e amadurecimento pessoal, os passos na vida adulta, o comprometimento comigo mesma, com o amor próprio.
Desliguei a câmera, onde havia acabado de mostrar o desenho com a ajuda do espelho e vesti apenas uma manga do moletom, deixando o braço tatuado para fora. Bailey esticou a mão e entrelaçou nossos dedos, enquanto caminhávamos de volta para o carro.
Eu já tinha perdido as contas de quantas vezes o agradeci, durante todo o processo. Eu tinha absoluta certeza de que ele era o melhor amigo que alguém poderia ter e a cada dia esse carinho se tornava mais claro e especial entre nós. A experiência durante a quarentena, as dificuldades apresentadas no dia anterior, tudo isso deixava tão nítido para mim como eramos verdadeiros um com o outro, como eramos próximos e que nossa amizade era uma daquelas que podíamos contar nos dedos como real, saudável e evolutiva.
Não importava quanto tempo ficávamos afastados, sem se ver, sem conversar. Era sempre a mesma coisa, os mesmos assuntos, crescimento, preocupação, seríamos sempre um pelo outro, apoiando e defendendo quando se está certo, auxiliando e ajudando quando se está errado, mas nunca soltando a mão, desfazendo um laço, nem no sol mais bonito, tampouco na tempestade.
-Tem certeza que não está doendo?- ele pareceu preocupado, enquanto atravessávamos a avenida deserta, e em seguida destravou o carro.
Por um segundo pensei em qual era a ligação de Bailey com borboletas, porque pelo que me lembrava, eu não era a sua única "amiga" com uma conexão com o inseto.
Mesmo tendo plena confiança de que não fui influenciada por alguém ou alguma moda na minha paixão, eu senti receio que ela julgasse m*l, quer dizer, ele me levou para fazer uma tatuagem de borboleta no meu aniversário e ela sabia que não poderia fazer o mesmo com ela, uns dias depois, pela distancia.
Nunca seria minha intenção soar competitiva, muito menos criar rivalidade ou parecer que eu a copiava em busca de algo.
Não fazia ideia do que ela pensava sobre mim, mas a partir do momento em que ela entrou na vida de Bailey, me importava e desejava que ela me olhasse com bons olhos, minha intenção nunca seria causar um desgaste entre os dois.
Ao mesmo tempo, a situação me expunha a um pouco de insegurança. Era bobo me comparar mas tínhamos pontos em comum e em contra partida parecíamos ser muito diferentes em outras coisas, o peso de atrapalhar algo me deixava receosa.
-Tenho- sorri- E mesmo que tivesse doendo, compensa pelo tamanho da minha felicidade.
-Você não faz ideia de como ouvir isso me deixa feliz. Sabe... Depois de ontem, tive medo de que todo aquele tsunami pudesse estragar seu aniversário.
-Não ligo para o que estejam falando de nós, Bay. Até porque, não estou vendo ninguém aqui para se meter em nossa vida, ninguém conhece nossa amizade ou que limites estamos impondo- sorri abrindo a porta do veículo, entrando no banco do carona.
-Tenho duas notícias para te dar, qual você quer primeiro?- dei de ombros, sem entender do que ele estava falando.
-Deixa a melhor para o final, eu acho.
-Meus avós nos chamaram para jantar na casa deles hoje, sei que é seu aniversário e pode não ser a programação dos sonhos mas como estamos a muito tempo sem vê-los, meu pai decidiu aceitar. Mas a boa notícia é que vamos almoçar na rua e você escolhe o restaurante.
-Por que jantar com seus avós seria r**m? Pelo contrário, é a melhor forma de me sentir em casa mesmo longe dos meus pais- sorri e encarei o filipino, que tinha a cabeça apoiada no volante e não perdia o contato visual comigo. A expressão em seu rosto me trazia paz e me fazia sentir especial- O que foi?- perguntei envergonhada.
-Você é diferente e mesmo que eu saiba disso a tanto tempo, ainda me surpreende- desviou os olhos por um segundo, girando a chave do carro e ligando o motor.
-Isso é r**m?- perguntei.
-É claro que não. Isso é ótimo e especial- guiou o veículo para a estrada- E então, o que vai querer comer?
-Conhece algum lugar que venda comida mexicana por aqui?
-Tem alguns restaurantes no centro, conheço um que é bom, não se compara a verdadeira comida mexicana mas...
-Parece perfeito para mim- Eu já estava com um pouco de fome, para falar a verdade eu sempre estava com fome.
-Mas você quem vai fazer o pedido, ok? Eles só falam espanhol por lá e eu sempre me enrolo com o google tradutor.
-Eu peço- ri- Não posso deixar o espanhol se perder, é a língua que tenho mais facilidade.
-Já pensou no que vai pedir? Eles vendem um combo para dois que tem Nachos com três acompanhamentos, Guacamole, Chili e queijo. Também tem Burrito, Quesadilla e Tacos- segurei uma gargalhada ao ouvi-lo falando os nomes- O que foi? É por isso que você quem vai pedir- riu junto comigo.
-Esse que você falou parece ótimo, m***r a saudade das minhas comidas mexicanas favoritas de uma única vez.
-Acho que em uns 10 minutos chegamos lá, essas ruas ainda me confundem. Ainda preciso me acostumar a dirigir sem entrar em alguma rua contra-mão ou algo do tipo.
-Acho que a mudança para Londres não vai te ajudar muito nesse quesito.
-Vai me ajudar em tantos outros que tenho absoluta certeza que vai valer a pena- tirou os olhos da rodovia por um segundo, me olhando. Sorri e abaixei a cabeça- Podemos tentar falar com Simon e Yonta na volta do jantar.
-Sim, precisamos fazer isso o quanto antes. Mas e então, o que devo vestir para conhecer seus avós? Confesso que estou um pouco nervosa.
-O que te deixar confortável, e não precisa ficar nervosa. Meu avô é engraçado e pensa que é jovem, minha avó cozinha muito bem, é fofa e adora agradar a todos, os dois são carinhosos e tenho certeza que vão te amar.
-Mais alguém da sua família vai estar lá?- mordi o lábio, eu estava sim nervosa, mesmo que ele me falasse para não ficar.
-Acredito que não, seremos 7 no total e o governo não recomenda aglomeração de mais de 8 pessoas, por enquanto. Quando tudo isso acabar e estivermos morando em Londres, te apresento o resto da minha família.
-Se for assim, vou ter que te s********r até a Finlândia. Precisamos ser justos.
-Eles vão querer me prender em uma sauna e me jogar dentro do mar, não vão?
-Vão- ri- Eles com certeza vão.
-E depois eu vou ficar gripado.
-Como não está acostumado, provavelmente vai, sim.
-E você vai cuidar de mim.
-É, vou- senti minhas bochechas queimarem, mesmo sem fazer ideia do porquê. Virei para a janela por um segundo, vendo a paisagem passar.
-Justo!
-Estou lembrando do seu tombo na escada e talvez não seja tão justo, preciso concordar com Maya que você parece um bebê quando está doente ou machucado- gargalhei vendo-o ficar emburrado, não segurando o riso logo depois.
-Talvez a convivência com Sabina esteja me fazendo um pouco mais dramático.
-A vida pode ser uma verdadeira novela mexicana, Bay. Talvez com personagens menos padronizados e estereotipados, mas ainda assim uma bela mistura de drama e comédia.
-É, se formos os personagens principais de nossa própria novela, posso dizer que estamos fazendo um bom trabalho quebrando alguns tabus- percebi seu sorriso, mesmo que ele não me olhasse naquele momento.
-Levando em conta todos os meus segredos que você conhece e todos os seus segredos que eu sei, tenho certeza que estamos sim- falei, deixando minha mente refletir um pouco mais profundamente sobre o assunto.
Personagens principais da nossa própria novela, é, com certeza éramos. Restava saber se estaríamos sempre escalados para o mesmo papel, ambientados juntos, ou se em algum momento cada um de nós ganharia uma trama e um destino diferente.