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Joalin
Quando coloquei meus pés em Londres, a primeira coisa que fiz foi tentar mentalizar que só faltava mais um vôo. Já fazia mais de 24 horas que tinha saído da minha, agora, antiga casa, em Playa Del Carmen.
Estava acostumada a voar sozinha, esse não era exatamente o problema. Mas quando o mundo inteiro enfrenta uma pandemia, os cuidados precisam ser quadruplicados, eu me sentia insegura em cada lugar que pisava, mas não dava mais.
Os tempos no México acabaram para nós, não poderíamos viver em uma ameaça, com medo todos os dias, não poderia viver na insegurança de ter que abandonar meu sonho pelo medo. Era hora de voltar para o meu país, que é claro que eu amava, mas meu coração sempre pertenceria ao lugar que eu cresci, morei por tantos anos e que me deu a oportunidade de seguir meus sonhos, a oportunidade de estar no Now United.
A verdade é que o espanhol se tornou minha língua materna, o verão virou minha estação do ano preferida e a minha cultura, minha visão de mundo se encaixava muito mais nos padrões latinos do que europeus. Eu estava completamente inserida naquela sociedade e seria difícil para nós 5 nos adaptarmos do outro lado do oceano. Barreiras línguisticas, barreiras raciais, culturais, tudo isso me preocupava demais. Mas a gente conseguiria, estávamos vivos e saudáveis tendo a oportunidade de recomeçar em um lugar, se continuassemos no México, o pior poderia acontecer.
Graças ao Now United, minhas viagens se tornavam muito mais práticas. Nós tentamos manter nossos vistos atualizados para todos os países pertencentes ao grupo, temos passaporte carimbado e vistos de trabalho, eu já estava acostumada com todo o procedimento legal.
Até descobrir que estava presa na Inglaterra.
Primeiro mensagens, assim que meu celular se conectou com o Wi-fi do aeroporto. Elas não paravam de chegar, minha mãe desesperada me avisando que a fronteira da Finlândia tinha acabado de fechar e todos os vôos estavam suspensos, procurei a televisão de algum estabelecimento e não era uma notícia falsa.
Eu poderia voltar para o México, certo? Errado, eu não tinha nacionalidade mexicana, então agora que saí não posso mais voltar.
Ótimo, eu estava presa no Reino Unido, sozinha.
Respira fundo Joalin, você vai dar um jeito. Você tem um visto novinho de 6 meses, pelo menos deportada não pode ser. Mas deportada para onde se "meus" dois países estão com a fronteira fechada? E eu juro que por um segundo pensei que iria morrer.
Meu celular, precisava pedir ajuda. Gravei um story com o choro preso na garganta, eu precisava que alguém me dissesse "Você precisa fazer isso", e então eu faria, porque estava completamente desorientada. E eu ainda tinha um vlog para terminar, meu Deus. Saí do México por medo para sentir mais medo do Reino Unido? Não era possível.
Juntei minhas 5 grandes malas e caminhei até um banheiro qualquer. Lavei minhas mãos por um tempo de, provavelmente, 5 vezes maior do que o aconselhado e peguei minha camera, dessa vez não segurei as lágrimas, desabafei por um longo tempo sobre todo o meu medo e como, naquele segundo, eu me sentia sem lar.
Durante minha vida, criei laços e memórias nos três países que já morei e considerava isso incrível, mas naquele momento pensei que não estaria passando por essa situação se nunca tivesse saído do meu país natal. Parecia que eu não pertencia a lugar nenhum, eu estava nitidamente desesperada, sozinha.
As mensagens chegavam no meu celular mas eu simplesmente não conseguia responder pela quantidade de lágrimas que lavavam meu rosto. O aparelho tocou nas minhas mãos e eu m*l consegui enxergar o nome no visor antes de atender.
-Joalin- era Bailey, sua voz parecia calma e tranquila. O que ele queria em meio aquela situação complicada? Ele não tinha o costume de me ligar
-Oi- minha voz de choro me entregou, como era possível escondê-la? Enxuguei as lágrimas como se, do outro lado da linha, ele pudesse me enxergar.
-Eu preciso que você encontre a estação de trem. Ela é perto do aeroporto, eu sei que está de noite então você precisa tomar cuidado. Peça informação para alguém e quando chegar na estação vai comprar um bilhete para Norwich- Matt, sua voz parecia distante o que me levou a crer que eu estava no viva voz. Minhas lágrimas desceram instantaneamente.
-O que?- tentava entender todas aquelas informações- Mas porque?
-Você vem para nossa casa Joalin, não vamos te deixar desamparada- foi a vez de Vanessa
-Eu, eu- não sabia o que falar, não conseguia processar tudo aquilo- Obrigada, muito obrigada- foi a única coisa que meu cérebro conseguiu formar.
-Procure a estação de trem, ok?- Matt repetiu- Você vai demorar umas 2 horas para chegar aqui, vai chegar de madrugada mas Bailey te busca na estação, então precisa ligar para ele assim que chegar
-Tá bom- limpei as lágrimas mais uma vez- Obrigada de novo
-Não há de que, querida- Vanessa respondeu atenciosa
-Jojo- a voz de Bailey parecia mais perto, mostrando que ele tinha tirado o aparelho do viva voz-Não desliga até achar a estação, ok?
-Tá, eu não sei para onde vou- disse empurrando as malas para fora do banheiro. Ele me passou algumas instruções por cerca de 10 minutos, o silêncio se mantinha enquanto eu andava mas a respiração do outro lado da linha era o suficiente para me manter calma e saber que eu não estou sozinha.
Quando finalmente entrei no trem, agradeci por não estar desamparada e finalmente poderia ligar para minha mãe, dizer que estava tudo bem e que eu teria um teto e segurança até poder voltar para nosso país.