Eram férias de verão, e como sempre fazia no verão, eu aproveitava o sol deitada em uma toalha no gramado do quintal, atrás da nossa casa; na verdade me sentia como se estivesse bebendo o sol, através da pele, de tão boa que era a sensação, afinal, em um país que chove tantos dias ao ano, aquela estação era uma festa. Eu vestia uma camiseta branca sem mangas, um short florido e curtinho e passava, feliz, meus pés descalços na grama, enquanto lia um livro, essa sensação era maravilhosa..
Mamãe e papai não estavam em casa, pois já haviam ido trabalhar, Mel tinha saído para ensaiar sua música do coral do qual fazia parte e Angel tinha viajado para um acampamento de férias por duas semanas, já estava com saudade dela.
Olhei para o céu e, pela posição do sol, devia ser quase meio-dia. Estava com fome, então me levantei e fui até a cozinha, pensando em preparar algo rápido. Abri a despensa, dei uma olhada e decidi fazer um sanduíche de atum com bastante recheio, pois sabia que logo Diogo chegaria da aula de piano e com certeza muito faminto. Preparei uma jarra de limonada geladinha e coloquei na geladeira.
Montei meu sanduíche com pão integral com queijo, alface e tomate, que era o meu favorito, coloquei também um pouco de orégano e maionese, me servi com um copo de limonada e sentei à mesa da cozinha. Tinha acabado de dar a primeira mordida quando ouvi a porta da sala bater, e em segundos o Diogo apareceu todo suado e ofegante.
— Que calor está fazendo lá fora! — Exclamou, enxugando a testa molhada de suor. — Oba! Tem para mim também? — Perguntou, assim que me viu comendo o meu sanduíche.
Como eu estava de boca cheia, apenas apontei na direção da pia onde eu tinha deixado tudo. Ele já ia pegar o saco de pão quando consegui falar.
— Espere aí porquinho, não se esqueceu de nada, não? — Ele se virou para mim de testa franzida.
— O quê? — Perguntou, irritado.
— Primeiro princípio básico de higiene, lavar as mãos antes de comer. — Expliquei calmamente, antes de dar mais uma mordida no meu sanduíche.
— Ih, lá vem você dar uma de mamãezinha! — Falou, revirando os olhos, um tanto aborrecido.
— Faça como achar melhor, mas o risco é todo seu. — Falei, indiferente.
Ele pensou por um momento, mas acabou cedendo, indo até o banheiro para lavar as mãos. Ao terminar, enxugou as mãos na toalha e virou-se para mim mostrando os dedos.
— Satisfeita, “mamãe”? — Perguntou, de forma debochada, e eu dei uma olhada rápida.
— Serve, mas você está precisando cortar as unhas. — Ao ouvir aquilo, ele me mostrou a língua e eu acabei rindo.
— Estou morto de sede. — Eu disse abrindo a geladeira e pegando a limonada; bebeu um copo de uma só vez.
Ele olhou para o pacote de pão integral e fez cara de nojo.
— Não tem pão “normal”, não?
— Tem na despensa. — Respondi ao dar uma mordida em meu pão.
— Você é tão estranha! Não sei como você aguenta comer esse pão, é h******l, eca! — Ele disse fazendo uma careta.
— Pelo menos é mais saudável do que esses pães normais que você come. - Rebati.
— Imagina! — Ele disse, fingindo-se ofendido. — Se você quer saber, eu tenho um paladar muito exigente e requintado, não como qualquer coisa.
— Claro! — Retruquei, concordando com a cabeça. — Sorvete e batata frita fazem de você um verdadeiro gourmet!
Ele se sentou na minha frente e, embora eu tivesse começado a comer primeiro, terminamos juntos. Levantei-me, lavei meu prato e copo e fui para o quintal.
Já tinha voltado para minha leitura, quando Diogo apareceu usando só uma bermuda, segurando o MP4, e estendeu uma toalha ao meu lado. Diogo tinha crescido muito nos últimos anos, estava bem alto para a idade, mas era magro e desengonçado, com uma brancura que assustava até fantasma.
— Se eu fosse você colocava protetor solar. — Comentei, observando-o rapidamente, antes de voltar a ler meu livro.
— Ah, não começa de novo, não! — Ele disse chateado.
— Tá bom, tá bom, não está mais aqui quem falou. — Levantei as mãos em rendição.
Ele deitou-se na toalha e, depois de um momento, esticou o braço.
— Coloca o seu braço ao lado do meu.
Levantei meu braço, fazendo o que ele tinha pedido, e era chocante o contraste do meu bronzeado com a sua cor.
— Nossa! Como você conseguiu ficar com esse tom tão rápido?
— DNA. — Respondi. — Meus pais… Meus verdadeiros pais eram assim também.
— Sorte sua. — Ele disse sorrindo. — Já eu, no máximo viro uma lagosta! Pensando bem, vou passar o protetor. — Falou, pegando a embalagem do meu lado e passando uma generosa quantidade no peito, nos braços e no rosto. — Passa nas minhas costas para mim?
— Ai, a exploração não tem fim, não? — Perguntei um pouco aborrecida, tentando disfarçar.
— Você que deu a ideia. — Ele disse estendendo o protetor para mim.
— Ok. — Concordei com tédio na voz.
Joguei o livro de lado, peguei o protetor, coloquei uma boa quantidade nas mãos e comecei a espalhar.
Fazia um bom tempo que eu não pensava nos meus sentimentos pelo D; não que eles tivessem diminuído, muito pelo contrário, sentia aumentá-los de ano para ano, mas procurava me distrair ao máximo, fugindo da tortura daquela atração proibida. Só que, em momentos como aquele, ficava muito difícil resistir à onda de emoção que eu sentia em poder tocá-lo, mesmo por um motivo tão inocente. Procurei prolongar a experiência espalhando o creme bem devagar.
— Hum, isso é tão bom. — Ele comentou suspirando.
— Você se parece com aqueles gatos que ficam ronronando quando a gente faz carinho neles. — Brinquei, vendo surgir um leve sorriso em seus lábios. — Pronto, acabei.
Depois ficamos ali juntos, curtindo a tarde, cada um fazendo o que gostava.
Algumas horas depois, comecei a sentir uma dor incômoda na barriga, era uma dor estranha, não me lembrava de ter sentido aquilo antes, por isso procurei mudar de posição, mas não melhorava. Talvez a combinação de sanduíche e calor não tenha me caído muito bem.
— Diogo. — O chamei, mas ele estava de olhos fechados ouvindo música e não me ouviu chamá-lo, então toquei seu braço.
— O que foi? — Perguntou, abrindo os olhos e tirando um dos fones do ouvido.
— Vou subir e tomar um banho. Não estou muito legal — Eu disse colocando a mão na barriga.
— O que você tem? — Ele quis saber, parecendo preocupado.
— Não sei, acho que foi o sanduíche. — Respondi, já me levantando.
— Toma algum remédio. — ugeriu.
— Boa ideia.
Entrei e fui direto para o chuveiro. A sensação da água fria no meu corpo quente era agradável, me ensaboei, lavei o cabelo e estava acabando de tirar o excesso de condicionador quando, distraída, olhei para baixo e vi o chão vermelho. Por um momento, pensei que pudesse ter me cortado com alguma coisa sem perceber, mas, examinando melhor, vi que o sangue saía do meio das minhas pernas, então a ficha caiu.
“Fiquei menstruada!”, pensei, agitada; agora eu entendia que aquela dor era das temidas cólicas.
Saí do boxe e me enrolei na toalha, pensando no que fazer primeiro. Comecei a procurar por um absorvente no armário do banheiro e não achei nada. E agora? Tinha medo de sair andando pela casa, sujando tudo. Ai, por que isso foi acontecer logo agora, que não tinha nenhuma outra mulher em casa? Se bem que esses assuntos não eram novidade para o Diogo, que estava crescendo rodeado de mulheres, isso era tema banal. Não teve jeito, abri a janelinha do banheiro e gritei seu nome, porém ele não respondeu.
— d***a, os malditos fones! — Lembrei.
Peguei no armário um rolo de papel higiênico, mirei e arremessei-o pela janela, caindo bem em cima do peito dele, fazendo-o olhar para cima, assustado.
— Vem aqui, correndo! — Gritei para ele.
Aguardei alguns segundos, e ele logo bateu à porta.
— Está tudo bem aí? — Perguntou, agitado.
— Mais ou menos. — Respondi nervosa.
— Ainda está passando m*l?
— Mais ou menos.
— Quer parar de ficar respondendo ‘’mais ou menos’’ e dizer logo o que está acontecendo? - perguntou soando preocupado.
Respirei fundo, criando coragem, e então falei:
— Preciso que você me faça um favor.
— O quê?
Fechei os olhos, ainda mais nervosa.
— Precisoquevocêpegueumabsorventeparamim! — Falei rápido.
— Malu, repete que eu não entendi nada. - Falou.
— Preciso que você pegue um absorvente para mim. — Repeti pausadamente morrendo de vergonha, e seguiu-se um profundo silêncio. Já estava achando que ele tinha fugido, quando ouvi sua voz:
— Isso quer dizer que aquela dor era… — Parou sugestivamente.
— Sim, isso mesmo. — Respondi rápido enquanto a vergonha me consumia.
— Então, você ficou… — Outra pausa sugestiva.
— Sim. — Respondi, em um fio de voz.
— Caramba! — Exclamou surpreso, nem eu teria dito melhor. — Mas não tem o que você precisa aí, não?
Agora eu estava perdendo a paciência.
— Você acha que, se tivesse, estaria pagando esse mico, te chamando aqui?
— Ok, fica calma, onde posso achar?
— Qualquer lugar no quarto das meninas, rápido, por favor.
— Estou indo! — Ouvi os passos dele se afastando.